‘Amazônia Negra: Expedição Amapá’, uma imersão na cultura do povo do Amapá

Documentário, já disponível na plataforma Globoplay revela a força ancestral do Marabaixo e da cultura afro-amapaense

Carlinhos Brown no documentário Amazônia Negra Expedição Amapá (Crédito: Veve Milk)

Uma imersão sensível, potente e necessária na história e na cultura do povo negro do Amapá. Assim pode ser definido o documentário “Amazônia Negra: Expedição Amapá”, considerado uma das produções audiovisuais mais relevantes já dedicadas ao reconhecimento da identidade afro-amapaense. Quem ainda não assistiu, tem um encontro obrigatório com a memória, a arte e a ancestralidade do estado.

Produzido com o propósito de levar ao Brasil as danças, os cantos, os saberes tradicionais e os elementos que compõem o Marabaixo, o filme percorre territórios culturais e afetivos que sustentam a maior manifestação cultural dos amapaenses. Reconhecido como bem cultural imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Marabaixo é apresentado como expressão viva de resistência, fé e identidade.

Com participação especial de Carlinhos Brown, o documentário conduz o público por rios, estradas e ruas de Macapá, Oiapoque e Mazagão, além de comunidades tradicionais como o Quilombo do Curiaú e bairros que mantêm vivas as tradições afro-amapaenses.

Marabaixo é apresentado como expressão viva de resistência, fé e identidade

Imersão na latitude zero

Na capital Macapá, cortada pela linha do Equador, passado e presente se encontram no Ciclo do Marabaixo. Em cortejos de rua, os marabaixeiros percorrem os tradicionais “barracões”, espaços sagrados de celebração onde a tradição secular resiste ao tempo. Os passos arrastados da dança carregam memória e dor: são frequentemente interpretados como lembrança dos pés acorrentados dos negros africanos trazidos à força para a Amazônia durante o período da escravidão.

A dançadeira Samanda Carvalho, uma das entrevistadas do filme, explica a origem do nome Marabaixo a partir da oralidade ancestral. Segundo as narrativas, os corpos de africanos que morriam nos navios negreiros eram lançados ao mar — “mar abaixo” —, expressão que atravessou o tempo e se transformou em símbolo cultural.

História, orgulho e ancestralidade

No Amapá, a história é contada com orgulho por descendentes que ressignificaram o sofrimento como marca identitária e potência criativa. O documentário evidencia como esse capítulo doloroso da história se converteu em força ancestral e inspiração para a arte contemporânea.

Em um dos momentos mais marcantes da obra, Carlinhos Brown reflete sobre suas raízes africanas e a importância das tradições:
“O que eu tenho é a consciência de que vim da África. Eu não vim da escravidão, porque se eu viesse da escravidão, eu não poderia chegar ao que cheguei. E chegar ao que cheguei não é mérito meu, mas mérito das tradições.”

Além do Marabaixo, o filme apresenta outras festividades populares e uma culinária rica, marcada pela originalidade dos modos de vida de quem vive às margens dos rios e no interior da floresta amazônica. Brown também promove encontros com artistas locais, ampliando o diálogo com a cena musical e cultural do estado.

Para o diretor, o contato com o Amapá foi determinante para a construção da obra

O documentário

Dirigido por Marcel Lapa, “Amazônia Negra: Expedição Amapá” tem 42 minutos de duração e acompanha territórios, comunidades e manifestações que estruturam a identidade afro-amapaense, tendo a música como eixo central da narrativa.

A produção registra ainda um evento em Macapá em que Carlinhos Brown é reconhecido pela comunidade marabaixeira como embaixador do Marabaixo, título oficializado pelo Governo do Estado do Amapá. Produzido pela Join Entretenimento e Tha House Company, o filme aposta em uma abordagem estética sensível, valorizando cores, gestos e sons das manifestações culturais.

Para o diretor, o contato com o Amapá foi determinante para a construção da obra. O documentário já está disponível na plataforma Globoplay, ampliando o alcance dessa história que pulsa no coração da Amazônia e reafirma a centralidade da cultura negra na formação do povo amapaense.

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