Veja como foi o segundo dia de Carnaval em Macapá

O segundo dia de desfiles no sambódromo da avenida Ivaldo Veras reúne emoção, debate social e celebração da cultura nortista. Cinco escolas cruzaram a passarela neste segundo dia: Império de Samba Solidariedade, Império da Zona Norte, Império do Povo e Piratas da Batucada e Piratas Estilizados.

Império de Samba Solidariedade

Abrindo o 2º dia de Carnaval no Amapá, a Império de Samba Solidariedade levou para a avenida o enredo “O tambor que liberta – a história dos tambores proibidos”.

Na comissão de frente, o tema “O chamado do couro, quando o tambor rompe correntes” deu o tom da apresentação, trazendo como tripé os conceitos de proibição e resistência, representando os períodos em que os tambores foram silenciados, mas também a força cultural que manteve viva a batida da ancestralidade.

A escola Império do Samba Solidariedade acabou sendo desclassificada da competição. O motivo apontado seria uma suposta sabotagem envolvendo integrantes da própria agremiação, que estariam descontentes com a direção da escola.

O momento mais evidente do problema ocorreu durante o desfile, quando houve recusa de parte dos componentes em acelerar o ritmo da evolução, mesmo diante dos alertas sobre o risco de punição por atraso. A situação se agravou e o tempo regulamentar foi ultrapassado.

Império da Zona Norte

A escola de samba Império da Zona Norte leva para a avenida um enredo inspirado em um dos assuntos mais discutidos na Amazônia: a exploração de petróleo no Amapá.

Com o tema “Amazonas: o que diz a tua foz? Da preservação ao progresso”, a agremiação propôs um desfile que estimula o público a refletir sobre o equilíbrio delicado entre crescimento econômico e conservação ambiental, colocando em pauta os caminhos e as consequências desse debate para o futuro da região.

Com o enredo “Amazonas: o que diz a tua foz? Da preservação ao progresso”, a escola levou para a avenida a discussão sobre a exploração de petróleo na Margem Equatorial.

O desfile esbanjou as cores verde, azul e amarelo, reforçando a identidade amazônica e nacional na passarela. Os carros alegóricos fazem referência direta à temática da exploração do petróleo, representando os impactos, expectativas e questionamentos em torno desse novo ciclo econômico.

A canção ecoa na avenida com versos que dialogam diretamente com o tema:

“Na Margem Equatorial…
Ergo a bandeira da união.
O progresso é um sonho real…
‘Renovando’ o grito de preservação.”

Império do Povo

A Império do Povo se preparava para entrar, enquanto a Piratas da Batucada informou que só deveria iniciar sua apresentação quando chegasse a peça necessária para movimentar uma das alegorias. Um dos carnavalescos afirma que permitir a entrada de outra escola antes da resolução do problema pode ser interpretado como “privilégio”.

O presidente da Piratas da Batucada, Emmanoel Oliveira, contesta a situação e critica o tempo disponibilizado para a montagem.

“As escolas que desfilaram antes da Piratas da Batucada tiveram todo o tempo do mundo: sete, seis, cinco, quatro horas para armar. Estão me dando uma hora para preparar minha escola. Isso está desigual, não está certo. Quero que a Liga garanta o direito da minha agremiação de ter o mesmo tempo que todas as escolas tiveram.”

Diante do impasse, a entrada da Império do Povo, prevista para 22h50, na avenida acabou sendo temporariamente impedida, o que gerou atraso e tensão no andamento dos desfiles.

Após os imprevistos na concentração, a Império do Povo entra na avenida Ivaldo Veras para apresentar o enredo “Iygba Nanã: o Brasil começa no mangue”.

Um espetáculo visual que busca refletir a ancestralidade e espiritualidade.

Em meio à expectativa do público na avenida Ivaldo Veras, a Império do Povo assume a passarela para apresentar o enredo “Iygba Nanã: o Brasil começa no mangue”, conduzindo um desfile que mergulha nas origens da identidade brasileira e na força simbólica do manguezal como território de vida e ancestralidade.

O enredo reverencia Nanã Buruquê, uma das orixás mais antigas e respeitadas no Candomblé e na Umbanda, considerada a mãe da ancestralidade, da sabedoria e do barro primordial, elemento sagrado ligado à criação da vida. Na tradição afro-brasileira, Nanã é sincretizada com Sant’Ana, mãe de Maria e avó de Jesus.

Na avenida, a escola de Santana esbanja as cores branca, roxa e verde em suas fantasias e alegorias, traduzindo visualmente a espiritualidade e a simbologia presentes no desfile. Por meio dos orixás, a agremiação trouxe uma reflexão sobre o sincretismo religioso e sua força como instrumento de cura.

O desfile também contou com a presença de lideranças políticas na avenida, entre elas o senador Randolfe Rodrigues, o governador Clécio Luís e o ex-prefeito de Santana Bala Rocha, que acompanham a apresentação e marcam presença no espetáculo.

A escola fechou seu percurso em uma hora e vinte dois minutos.

Piratas da Batucada

Sob uma chuva persistente, o Piratas da Batucada, o tradicional Piratão, transformou a adversidade em espetáculo e fez uma grande homenagem ao brega. Cada ala representou uma ramificação do ritmo: do tecnomelody ao rock doido, exaltando a força das periferias do Norte.

O desfile também prestou tributo a artistas e personalidades ligadas ao movimento, reunindo na avenida nomes como Fineas Neluty, Janete Silva, o governador Clécio Luís e a primeira-dama Priscila Flores.

Outro ponto de destaque do enredo é a fusão de músicas consagradas do brega em uma grande canção, costurando versos que despertam memória afetiva e traduzem o romantismo característico do gênero:

“Lembro com muita saudade daquele bailado
De rosto colado, o casal agarrado
Marcando compasso à luz do luar
Está no ar, a modernidade surgia
Curando as dores da periferia em flashes e cores… amarelo e azul
Daqui pra sempre é só eu e tu
Chegou a nossa hora
O rock doido da vitória é na zona sul.”

Logo na primeira alegoria, a escola trouxe referências a grandes nomes do gênero, como Wanderley Andrade, Joelma e Reginaldo Rossi, celebrando artistas que marcaram gerações e ajudaram a consolidar o brega como uma das mais autênticas expressões culturais do Brasil.

Piratas Estilizados

A última escola a desfilar na madrugada de domingo foi a Piratas Estilizados, que entrou na avenida às 4h31 em busca do bicampeonato. Atual campeã do Grupo Especial do carnaval amapaense, a agremiação do bairro Laguinho levou para a pista o enredo “Toque o Alujá para o Alafin de Oió – A Ancestralidade que ecoa nos sagrados tambores do Piratas Estilizados”.

Os carnavalescos celebraram o Alujá, toque específico dos atabaques dedicado ao orixá Xangô no Candomblé. Marcado por força, rapidez e intensidade crescente, o ritmo representa o poder do fogo, do trovão e da justiça — atributos ligados à divindade.

O enredo também destacou o significado histórico de Alafim de Oió (Alaafin de Ọ̀yọ́), título honorífico que quer dizer “Governante de Oió”, na atual Nigéria. Na tradição iorubá, Xangô é reconhecido como o quarto Alafim de Oió, um ancestral que foi divinizado e passou a integrar o panteão dos orixás.

A escola correu no desenvolvimento e teve folga de tempo ao fim do percurso, com uma hora e dezessete minutos.

As alas trouxeram representações de diversas divindades, como Iemanjá, tupã e outros, além de referências simbólicas à criação e à força espiritual expressas em versos do enredo:

“Raiou… feito um clarão no céu
Um verso no papel… e trovoada!
Raiou… a luz da criação
Conduz nossa paixão alaranjada
No sopro do Pai Oxalá
Regendo a força do Orun
O grande Obá de um ritual
O brado forte ecoou no fogo.”

Resultado

As escolas foram avaliadas por um corpo de jurados em diversos quesitos técnicos e artísticos, como enredo, samba-enredo, bateria, evolução, harmonia, alegorias e adereços, fantasias, comissão de frente, mestre-sala e porta-bandeira, além da organização geral do desfile. Cada detalhe contou pontos decisivos na disputa acirrada pelo título. O resultado oficial com a definição das campeãs do Grupo Especial e do Grupo de Acesso está previsto para ser divulgado na quarta-feira, durante a apuração das notas.

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