Crime organizado avança sobre o poder público no Amapá e investigações revelam infiltração na polícia, na Justiça, em prefeituras e nas eleições

Levantamento realizado pelo Conectampá reúne operações policiais, decisões judiciais e investigações dos últimos quatro anos que expõem suspeitas de influência de facções criminosas sobre instituições públicas

O Amapá, que durante décadas foi associado à tranquilidade de suas cidades e a índices relativamente baixos de criminalidade, passou a conviver com uma realidade marcada pela expansão de facções criminosas, disputas territoriais e elevados indicadores de violência letal. Mas a transformação não se limita às ruas. Investigações policiais, operações de combate ao crime organizado e decisões judiciais revelam um fenômeno ainda mais preocupante: a tentativa de infiltração de organizações criminosas nas estruturas do poder público, alcançando instituições policiais, o sistema de Justiça, prefeituras, câmaras municipais e processos eleitorais.

Um levantamento realizado pelo ConectAmapá, com base em investigações e documentos divulgados nos últimos quatro anos, reúne episódios que ajudam a compreender como essas organizações procuram ampliar sua influência para além do tráfico de drogas.

Os casos envolvem suspeitas de corrupção de agentes públicos, favorecimento de presos, financiamento de campanhas eleitorais, coação de eleitores, indicação de pessoas ligadas a facções para empregos públicos e possível utilização de contratos administrativos para movimentar recursos ilícitos.

Para especialistas o aspecto mais inquietante é que não se conhece a dimensão completa dessa infiltração. O que se tornou público corresponde aos casos identificados pelas autoridades, investigados ou submetidos à Justiça. Não há levantamento capaz de determinar quantos agentes públicos, contratos, estruturas administrativas ou mandatos possam estar efetivamente comprometidos.

Da violência nas ruas à busca por influência nas instituições

O crescimento das organizações criminosas no Amapá ocorreu paralelamente ao agravamento dos indicadores de violência.

O estado passou a aparecer nas primeiras posições dos levantamentos nacionais de mortes violentas intencionais, realidade distante da imagem de tranquilidade que marcou parte de sua história.

A violência associada às disputas entre facções tem consequências que ultrapassam os homicídios. O controle de territórios, o tráfico de drogas, a circulação de armas e a lavagem de dinheiro criam condições para que organizações criminosas acumulem recursos e procurem ampliar sua influência.

Uma das estratégias investigadas pelas autoridades é a aproximação com agentes públicos.

O objetivo pode variar: obter informações privilegiadas, facilitar atividades ilícitas, conseguir vantagens no sistema penitenciário, influenciar contratos administrativos ou conquistar representação política.

Nesse contexto, o poder público deixa de ser apenas responsável pelo enfrentamento ao crime organizado e passa a ser também um dos espaços que essas organizações tentam alcançar.

CASOS

Delegado e a organização criminosa

Delegado da Polícia Civil Sidney Leite, investigado na Operação Queda da Bastilha

Um dos episódios mais graves registrados no levantamento envolve o delegado da Polícia Civil Sidney Leite, investigado na Operação Queda da Bastilha, deflagrada pela Polícia Federal em setembro de 2022.

A investigação apurou suspeitas de corrupção, tráfico de drogas e atuação de organizações criminosas dentro e fora do Instituto de Administração Penitenciária do Amapá (Iapen).

Segundo o material reunido pelas investigações, mensagens extraídas de aparelhos celulares revelaram contatos entre o delegado e integrantes de facções criminosas.

As suspeitas incluíam promessas de vantagens a lideranças criminosas, possível intermediação de benefícios e utilização da posição policial para favorecer investigados.

Em outubro de 2024, Sidney Leite foi condenado em primeira instância a dez anos e dois meses de prisão, além da perda do cargo público. O levantamento informa que a condenação foi mantida pelo Tribunal de Justiça do Amapá em maio de 2025.

A defesa contestou as acusações e questionou a validade das provas utilizadas no processo.

O caso demonstra um dos riscos mais graves para a segurança pública: a possibilidade de integrantes de organizações criminosas obterem proteção ou vantagens por meio de relações com autoridades encarregadas de combatê-las.

Juiz João Teixeira

As suspeitas de interferência do crime organizado também alcançaram o Poder Judiciário.

A atuação do juiz João Teixeira de Matos Júnior, que passou a ser investigado após inspeções identificarem possíveis irregularidades em decisões relacionadas à execução penal.

Segundo o documento, aproximadamente 44 processos teriam apresentado situações consideradas suspeitas, envolvendo decisões potencialmente favoráveis a detentos ligados a organizações criminosas.

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) determinou o afastamento cautelar do magistrado e a instauração de procedimento administrativo disciplinar para aprofundar a apuração.

As suspeitas envolvem possível favorecimento de presos, mas a responsabilização disciplinar ou criminal depende das conclusões dos procedimentos competentes.

Juiz João Teixeira de Matos Júnior acusado de profeir decisões potencialmente favoráveis a detentos ligados a organizações criminosas

Facções tentaram financiar candidaturas em Oiapoque

A disputa eleitoral também passou a integrar o campo de atuação investigado das organizações criminosas.

Em outubro de 2024, a Polícia Federal realizou a Operação Terror Eleitoral, em Oiapoque.

As investigações apontaram suspeitas de financiamento de candidaturas a vereador com recursos provenientes de atividades criminosas.

Segundo o levantamento, uma organização criminosa com origem no Rio de Janeiro estaria utilizando dinheiro do tráfico de drogas para influenciar a eleição municipal.

Durante as diligências, foram apreendidos aproximadamente R$ 130 mil em espécie.

A hipótese investigada era de que a organização pretendia conquistar influência política para facilitar suas atividades na região de fronteira.

Em Vitória do Jari, suspeita de desvio de recursos públicos para financiar o crime

A infiltração investigada não se restringe à capital.

Em novembro de 2025, a Polícia Civil deflagrou a Operação Lâmina de Prata, que alcançou Vitória do Jari e outros estados.

A investigação apurou a atuação de organizações criminosas envolvidas com tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e corrupção.

Segundo o levantamento, um secretário municipal de Obras teria participação em movimentações financeiras suspeitas, envolvendo recursos relacionados a contratos públicos.

A Polícia Civil investigou a possibilidade de que dinheiro destinado a obras e serviços municipais tivesse sido desviado para financiar atividades criminosas.

O material menciona movimentações bancárias superiores a R$ 3 milhões, consideradas incompatíveis com a renda oficial do investigado.

A operação resultou em prisões, buscas e medidas de bloqueio patrimonial.

As suspeitas revelam outra forma de possível infiltração: a utilização de contratos administrativos e recursos públicos como mecanismos de financiamento de organizações criminosas.

Nesse modelo, a corrupção deixa de representar apenas prejuízo financeiro à administração pública e pode contribuir para fortalecer atividades ilícitas.

Operação Herodes revelou suspeita de candidatura financiada por facção em Macapá

Em 20 de setembro de 2024, a Polícia Federal e a Força Integrada de Combate ao Crime Organizado no Amapá (FICCO/AP) deflagraram a Operação Herodes, com diligências em Macapá e Santana.

Foram cumpridos 17 mandados de busca e apreensão e seis mandados de prisão preventiva.

A investigação apontou que uma organização criminosa estaria financiando a campanha de um candidato a vereador de Macapá.

O objetivo seria garantir representação política capaz de favorecer os interesses da facção.

As autoridades também investigaram denúncias de coação de moradores de áreas controladas pela organização criminosa para que votassem no candidato apoiado pelo grupo.

Justiça Eleitoral cassou suplente

Suplente de vereador Luanderson de Oliveira Alves, conhecido como Caçula

As investigações sobre interferência criminosa nas eleições produziram desdobramentos judiciais em 2026.

Em agosto, o Tribunal Regional Eleitoral do Amapá cassou o diploma do suplente de vereador Luanderson de Oliveira Alves, conhecido como Caçula, após reconhecer abuso de poder econômico nas eleições municipais de 2024.

Segundo o Ministério Público Eleitoral, o candidato buscou apoio de lideranças da Família Terror Amapá (FTA).

As provas incluíram interceptações telefônicas autorizadas judicialmente.

O processo também identificou a participação de Rosemiro de Carvalho Freitas, conhecido como Bira, nas negociações com integrantes da organização criminosa.

O TRE reconheceu a utilização da influência territorial da facção para interferir no processo eleitoral.

A decisão também declarou a inelegibilidade dos envolvidos pelo período de oito anos, conforme registrado no levantamento.

O caso representa um dos exemplos mais concretos de como a influência de organizações criminosas pode alcançar uma disputa por mandato parlamentar.

Candidatura a deputado estadual foi barrada

Em setembro de 2026, o Tribunal Regional Eleitoral do Amapá indeferiu o registro de candidatura de Hugo Barroso Silva, que pretendia disputar uma vaga na Assembleia Legislativa.

Segundo o Ministério Público Eleitoral, a decisão considerou elementos relacionados à ligação do candidato com organização criminosa.

Contratações na Prefeitura de Macapá

A possível presença de pessoas ligadas a facções criminosas na estrutura administrativa municipal ganhou repercussão nacional em setembro de 2026.

Reportagem da CNN Brasil, baseada em informações de investigações policiais, apontou que pelo menos 12 pessoas identificadas como ligadas a organizações criminosas haviam ocupado cargos ou sido contratadas pela Prefeitura de Macapá entre 2021 e 2026.

Segundo a reportagem, 11 teriam vínculos com a Família Terror Amapá e uma com o Comando Vermelho.

As contratações ocorreram durante a gestão do ex-prefeito Antônio Furlan.

Furlan negou qualquer relação com organizações criminosas e afirmou que as nomeações obedeceram às exigências legais.

Operação Cavalo de Troia atingiu vereador e servidores da Câmara Municipal

Vereador Daniel Theodoro (PSOL), investigado por suposta ligação com grupos criminosos

O episódio mais recente registrado no levantamento ocorreu em 15 de outubro de 2026, com a deflagração da Operação Cavalo de Troia, pela Polícia Civil do Amapá, por meio da Draco, com apoio do Gaeco.

A investigação apura suspeitas de utilização de cargos e estruturas públicas para favorecer integrantes de organizações criminosas.

Segundo a Polícia Civil e o Ministério Público, o esquema investigado envolveria indicações para empregos em empresas terceirizadas, além de possíveis benefícios administrativos relacionados ao sistema penitenciário.

Foram cumpridos nove mandados de busca e apreensão.

Entre os alvos estava o vereador Daniel Theodoro (PSOL), afastado cautelarmente do mandato por determinação judicial.

As diligências também alcançaram dependências da Câmara Municipal de Macapá e endereços relacionados a outros investigados.

A operação, entretanto, acrescenta mais um episódio às suspeitas de utilização de estruturas administrativas e mandatos políticos para favorecer organizações criminosas.

Ministério Público alertou partidos sobre candidaturas ligadas ao crime organizado

A preocupação das autoridades com a presença de facções nas eleições levou o Ministério Público Eleitoral a recomendar, em julho de 2026, que os partidos políticos adotassem mecanismos de prevenção.

As orientações incluíram a verificação de antecedentes de pré-candidatos, a identificação de possíveis vínculos com organizações criminosas e a fiscalização da origem dos recursos utilizados nas campanhas.

A recomendação demonstra que a prevenção da infiltração criminosa não depende exclusivamente de operações policiais.

Os próprios partidos têm responsabilidade na escolha de seus candidatos e na adoção de procedimentos internos capazes de reduzir riscos de utilização das legendas por organizações criminosas.

Investigações reevelam que lideranças criminosas buscariam inserir pessoas de sua confiança em estruturas administrativas

Como o crime organizado tenta se infiltrar no poder público

Os casos reunidos no levantamento permitem identificar diferentes mecanismos investigados pelas autoridades.

Financiamento eleitoral: organizações criminosas utilizariam recursos provenientes de atividades ilícitas para financiar candidaturas e conquistar influência política.

Controle territorial e coação de eleitores: facções poderiam utilizar ameaças e o domínio de determinadas comunidades para direcionar votos.

Indicação para cargos e empregos: lideranças criminosas buscariam inserir pessoas de sua confiança em estruturas administrativas ou empresas contratadas pelo poder público.

Contratos administrativos: recursos provenientes de obras e serviços públicos poderiam ser desviados ou movimentados para financiar atividades criminosas.

Favorecimento penitenciário: integrantes de organizações criminosas tentariam obter vantagens relacionadas a transferências, benefícios e condições de cumprimento de pena.

Aproximação com agentes públicos: relações com policiais, servidores e autoridades poderiam ser utilizadas para obter informações, proteção ou interferência em procedimentos institucionais.

A principal conclusão do levantamento é que não existe uma dimensão conhecida e consolidada da possível infiltração do crime organizado nas instituições públicas do Amapá.

As investigações revelam episódios específicos, mas não permitem estabelecer quantos cargos, contratos, mandatos ou estruturas administrativas possam ter sido alcançados.

Entretanto, a possibilidade de organizações criminosas obterem influência sobre estruturas públicas representa um risco adicional para a capacidade do Estado de enfrentar essas atividades.

De estado considerado tranquilo ao enfrentamento de facções e suspeitas de infiltração institucional

A transformação do cenário de segurança pública do Amapá exige uma análise que vá além das estatísticas de homicídios.

O avanço de organizações criminosas não se expressa apenas na violência registrada nas ruas, mas também nas tentativas de obter recursos, proteção e influência sobre instituições públicas.

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