Mazagão Velho celebra São Tiago com fé, história e raízes biculturais

A festa remonta à fundação da Nova Mazagão por colonos vindos do Marrocos por volta de 1773

De 13 a 28 de julho, a pequena vila histórica de Mazagão Velho se transforma em palco de uma das festas populares mais antigas e emblemáticas do Amapá: a Festa de São Tiago, que em 2025 completa impressionantes 248 anos de tradição. Trazida da África no século XVIII pelas famílias portuguesas que reconstruíram a colônia original do outro lado do Atlântico, a celebração entrelaça religiosidade, teatro popular e a herança afro‑luso‑indígena da região.

A origem: África, Portugal e o Marrocos

A festa remonta à fundação da Nova Mazagão por colonos vindos do Marrocos por volta de 1773, após o abandono da Mazagão africana. Em 1777, os primeiros rituais começaram a reencenar, através de cavalhadas e encenações teatrais, a batalha entre mouros e cristãos, com a aparição mítica de São Tiago como soldado que orienta os cristãos rumo à vitória.

Fé ritmada: novenas, procissões e ritos diários

Durante quase duas semanas, a comunidade se envolve em novenas, missas, translados das imagens de São Tiago e São Jorge, ladainhas e celebrações no estilo “vominê” — toque de meio-dia que reúne figurantes e fiéis em comunhão ritualística. Todos participam, inclusive crianças, que logo aprendem os passos do teatro e da cultura local .

O auge: a batalha e o baile de máscaras

Os acontecimentos mais aguardados são os dias 24 e 25 de julho, quando se encena a reconstituição das batalhas — desde a descoberta até a vitória dos cristãos, com emboscadas, captura do estandarte, “Bobo Velho” e dança da vitória (“vominê”). O Baile de Máscaras invade a vila durante toda a madrugada, unindo fé, teatro e folia popular.

Marca registrada da identidade amapaense

Reconhecida como patrimônio imaterial pelo Governo do Amapá, a Festa de São Tiago consolida a união de elementos religiosos, artísticos e comunitários. A sede administrativa do estado chega a ser transferida simbolicamente para Mazagão Velho, reforçando seu valor sociocultural.

Afetos e batuques: o marabaixo na festa

A produção cultural da festa é marcada por expressões afro‑amazônicas, como o marabaixo — dança de roda com percussão, ligada à religiosidade popular, tombada como patrimônio nacional. Durante os festejos, essa forma de expressão ecoa pelas ruas, reforçando laços comunitários, memórias ancestrais e a força das tradições.

Turismo, economia e futuro

A festa atrai milhares de pessoas — já registrou até 50 mil visitantes em edições anteriores — e conta com apoio do Governo do Estado, da prefeitura e de empreendedores culturais. Esse estímulo institucional busca preservar o patrimônio e fomentar o turismo de base. Além disso, gera renda para moradores que oferecem hospedagem, alimentação e itens artesanais.

A Festa de São Tiago não é apenas uma celebração religiosa: é uma narrativa viva de resistência, fé e identidade nacional. Em cada passo teatral, cada oração e cada toque do marabaixo, Mazagão Velho reafirma sua história singular e a importância de manter vivas tradições pluriculturais.

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