Temos uma juventude que reage com um emoji ao invés de um grito. Que compartilha memes quando deveria compartilhar indignação
*Domiciano Gomes

Há dias em que ligo a televisão, abro um jornal ou passo o dedo na tela do celular e sinto um peso repetido no peito. O Brasil parece ter se despido, sem pudor algum, diante de todos nós: racismo, misoginia, preconceito, machismo, fascismo — nada disso é novidade, mas agora tudo se expõe cru, sem disfarce, em transmissões ao vivo, em discursos parlamentares, nas redes sociais, nas igrejas e até no almoço de domingo em família.
E, diante desse cenário, o que mais me inquieta não são os monstros conhecidos, mas o silêncio ensurdecedor da geração que carrega o mundo dentro do bolso. Olhos fixos na tela, fones nos ouvidos, dedos inquietos deslizando sobre o nada. Uma juventude que canta as dores ensaiadas do sertanejo universitário, mas cala diante dos retrocessos. Que reage com um emoji ao invés de um grito. Que compartilha memes quando deveria compartilhar indignação.
Penso no contraste. Eu, que fui da geração das “Diretas Já”, aprendi cedo que democracia não é um presente, é conquista. Vi os “caras-pintadas” tomarem as ruas para exigir ética quando a corrupção tentou se naturalizar no poder. Fui moldado numa época em que se calar era covardia, e ser alienado era confessar pobreza intelectual.
Hoje, a inquietude que nos movia parece ter dado lugar a uma apatia que assusta. E me pergunto: em que momento passamos o bastão e vimos a corrida se transformar em desfile de passos lentos, filmados e postados em stories de quinze segundos?
Talvez ainda haja tempo. Talvez, no fundo dessas telas iluminadas, ainda arda uma fagulha. Mas, até que se acenda, sigo com o pesar de quem olha para trás e se pergunta como, com tanto suor já derramado, conseguimos chegar a este ponto de inanição coletiva.
*Domiciano Gomes: Jornalista, Advogado com especialização em Direito Civil




