Morte de pai e filho no Jari: inquérito aponta violência e terror em comunidade rural

O inquérito a qual o CONECTAMAPÁ teve acesso com exclusividade, indiciou três policiais militares pelos homicídios de Silvanildo Pereira e seu filho Jesus de Aragão Monteiro.

A Polícia Civil do Amapá concluiu as investigações sobre a chacina ocorrida em 31 de maio de 2025, durante o Festival da Castanha, na comunidade Água Branca do Cajari, em Laranjal do Jari (AP). O inquérito a qual o CONECTAMAPÁ teve acesso com exclusividade, indiciou três policiais militaressargento Faber Araújo dos Santos, cabo Eládio dos Santos Neto e soldado José Adriano Louro de Oliveira — pelos homicídios de Silvanildo Pereira Monteiro (conhecido como “Bastos”) e seu filho Jesus de Aragão Monteiro (conhecido por “Tibura”), além de lesões contra outras três pessoas, ameaça a um adolescente e dano qualificado contra uma moradora

A noite de violência

De acordo com o inquérito presidido pelo delegado Romie Bradley da Silva de Souza, os três policiais trabalhavam no policiamento do festival até a meia-noite, mas permaneceram no local à paisana e ingerindo bebida alcoólica. A parte final do documento detalaha a participação da cada um dos envolvidos com gráficos de horários e conduta.

Por volta das 6h da manhã do dia 31 de maio, após uma série de discussões e agressões, os policiais iniciaram disparos de arma de fogo. Silvanildo, que havia sido agredido e algemado por filmar a confusão, foi visto vivo entrando na viatura policial, mas morreu pouco depois, atingido por dois tiros no tórax, além de apresentar marcas de balas de borracha.

O filho dele, Jesus, tentou fugir correndo para a mata, desarmado e sem camisa, segundo as testemunhas. Foi perseguido e atingido por três tiros de arma de fogo, um deles à curta distância, além de apresentar uma lesão de bala de borracha. Ele foi encontrado com as vísceras expostas e morreu a caminho do hospital

A ação também deixou feridas Aldejane Cavalcante de Vasconcelos, atingida na perna enquanto aguardava lanche; Edson dos Santos Barbosa, baleado na perna ao tentar intervir na agressão contra Silvanildo; e Maria Jucinete da Silva Ribeiro, esposa de Edson, que também foi baleada na perna. Um adolescente de 17 anos, Yan Vasconcelos da Silva, foi ameaçado dentro da unidade de saúde por um dos policiais, que apontou um fuzil em seu peito e o acusou de envolvimento com facções criminosas

Além das mortes e lesões, uma moradora identificada como Nildilene da Cruz Pinto, conhecida como “Cocó”, teve seu celular tomado à força, foi agredida com tapas no rosto e viu o aparelho ser destruído com um tiro disparado por um dos policiais

Violência testemunhada

As investigações ouviram dezenas de testemunhas, que confirmaram que os policiais estavam à paisana, consumindo bebidas alcoólicas e iniciaram a confusão. Vários depoimentos relataram que os disparos ocorreram mesmo após Silvanildo estar algemado e já sob custódia, e que Jesus fugia desarmado quando foi baleado.

Os laudos necroscópicos indicaram que ambos morreram de choque hipovolêmico causado por disparos de arma de fogo de alta energia, e os locais dos crimes apresentaram vestígios compatíveis com crimes contra a vida, incluindo projéteis e manchas de sangue humano. A microcomparação balística não foi possível, porque não foi extraído projétil dos corpos das vítimas

Sem legítima defesa

O inquérito afastou a tese de legítima defesa. Segundo a Polícia Civil, a lesão sofrida pelo sargento Faber na cabeça — causada por uma cadeirada durante uma briga — ocorreu antes dos homicídios e não justificava a reação letal.

Além disso, Silvanildo estava imobilizado e algemado na viatura quando foi morto, e Jesus fugia desarmado, o que, de acordo com a investigação, não configurava ameaça que pudesse legitimar os disparos fatais

Indiciamentos

Com base nas provas e depoimentos, a Polícia Civil indiciou:

  • Sargento PM Faber Araújo dos Santos: dois homicídios simples (contra Silvanildo e Jesus), lesão corporal (contra Aldejane), ameaça (contra Yan) e dano qualificado (contra Nildilene);
  • Cabo PM Eládio dos Santos Neto: dois homicídios simples, lesão corporal (contra Aldejane) e dano qualificado (contra Nildilene);
  • Soldado PM José Adriano Louro de Oliveira: dois homicídios simples, três lesões corporais (contra Aldejane, Edson e Maria Jucinete)

O relatório conclui que não houve indícios de excludentes de ilicitude ou de culpabilidade que justificassem os crimes.

Repercussão

O episódio, que ficou conhecido como a “Chacina do Festival da Castanha”, gerou comoção em Laranjal do Jari e em todo o Amapá.

Com a conclusão do inquérito, o caso foi encaminhado ao Ministério Público do Amapá, que decidirá sobre a denúncia e o prosseguimento da ação penal contra os policiais militares.

Contexto: A chacina ocorreu em um evento popular na zona rural do município, abalando a comunidade e provocando pedidos de respostas rápidas das autoridades estaduais.

Por enquanto o Comando da Polícia Militar ainda não pronunciou sobre o resultado das investigalões. O espaço ficará aberto, caso a corporação se manifeste sobre o caso.

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