Mudanças climáticas e falta de planejamento urbano agravam processo erosivo na capital amapaense. Em cinco anos, o rio Amazonas avançou cerca de 300 metros sobre o bairro do Aturiá

As mudanças climáticas estão levando as ameaças à Amazônia para além das secas e queimadas. No Amapá, o avanço do mar e o aumento do nível das águas do rio Amazonas têm provocado um fenômeno silencioso, mas devastador: a erosão costeira. Em Macapá, capital do estado, a força do rio já alterou drasticamente a paisagem da orla, engolindo casas e mudando a vida de centenas de famílias.
No complexo do Aturiá, um dos pontos mais afetados, os moradores presenciaram suas residências desaparecerem com o avanço das águas. O processo, que se intensificou na última década, obrigou o governo estadual a realocar cerca de 250 famílias em 2024 para um programa habitacional destinado a áreas de menor risco.
Em fevereiro de 2024, o Governo do Amapá decretou situação de emergência para atender famílias atingidas por desabamentos e risco iminente na orla do Aturiá, após recomendação da Defesa Civil. A medida mobilizou órgãos estaduais e municipais, com demolição assistida de estruturas comprometidas e retirada de moradores das áreas mais críticas.

Em maio de 2024, teve início a retirada de casas desocupadas e entulhos para acelerar as obras do Complexo do Aturiá. Segundo o governo, as residências haviam sido esvaziadas por famílias contempladas com unidades no Residencial Vila dos Oliveiras, parte do esforço de realocação para reduzir a exposição ao risco
ESPECIALISTA
O geógrafo Genival Fernandes Rocha, da Universidade Federal do Amapá (Unifap), disse a Folha de São Paulo que o problema não se resume à força natural do rio. Segundo ele, a ausência de um planejamento climático voltado à adaptação urbana somada às intervenções urbanas, agravam o quadro.
“O rio avançou, nos últimos anos, cerca de 300 metros sobre o Aturiá. Foram construídos muros de contenção para frear a força das águas, mas o problema não terminou por aí”, alerta o pesquisador.
Além do avanço do rio, o fenômeno das erosões tem causado inundações recorrentes nos bairros centrais, especialmente nas regiões próximas à orla. Rocha destaca que as ações de saneamento básico e de drenagem urbana não acompanham o ritmo de crescimento populacional da cidade, o que torna os impactos ainda mais severos.
De acordo com o especialista, o fluxo das águas do rio Amazonas sobrecarrega os canais da capital. Apesar das intervenções e ações de limpeza, o assoreamento e o acúmulo de resíduos sólidos reduzem a capacidade de drenagem, resultando em enchentes e prejuízos para a população.
“Os canais são uma válvula de escape para as marés. A água entra e sai da cidade, mas com o tempo os canais vão assoreando, enchendo de terra. As erosões levam ainda mais sedimentos, o que cria pontos críticos de inundação”, explica Rocha.
Por que Macapá está sob pressão
A capital está na planície costeira amazônica, sob forte influência de marés e do regime hídrico do Amazonas. Em cenários climáticos pessimistas, elevação do nível do mar, intensificação de tempestades e redistribuição de sedimentos tendem a ampliar erosão e alagamentos em cidades de baixa altitude — quadro descrito por sínteses científicas e por diretrizes nacionais de adaptação.
Um estudo intitulado Panorama da Erosão Costeira no Brasil, do Ministério do Meio Ambiente (2018), inclui capítulo específico sobre o Amapá e descreve a costa como altamente dinâmica, com trechos sujeitos a erosão e inundação e forte influência de marés, ventos e sedimentos. O documento reforça a importância de integrar obras de contenção a políticas de ordenamento territorial.
Além do referido estudo trabalhos acadêmicos vinculados à Unifap documentam a erosão na orla de Macapá (com foco no Aturiá/Araxá), impactos do assoreamento e da ocupação sobre o sistema de drenagem e pontos recorrentes de alagamento.
O cenário em Macapá é um alerta sobre os impactos das mudanças climáticas nas cidades amazônicas. A ausência de políticas públicas integradas e de medidas preventivas de adaptação pode transformar o que hoje é um problema localizado em uma crise urbana de grandes proporções, afetando infraestrutura, moradia e a própria sobrevivência de comunidades tradicionais às margens do Amazonas.








