Após dizer que Belém está mais preparada, presidente da Petrobras muda discurso sobre exploração de petróleo no Amapá

Magda Chambriard havia colocado em segundo plano a infraestrutura de Oiapoque, mas agora afirma que Amapá e Pará serão necessários para o desenvolvimento da Margem Equatorial e nega disputa entre os dois estados

Executiva declarou nesta quarta-feira (14) que não existe disputa entre os dois estados

A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, mudou o tom do discurso sobre a infraestrutura necessária para apoiar a exploração de petróleo na Margem Equatorial. Depois de afirmar, durante visita a Belém, que a capital paraense reúne melhores condições logísticas do que Oiapoque, no Amapá, a executiva declarou nesta quarta-feira (14) que não existe disputa entre os dois estados e que ambos serão necessários para o desenvolvimento das atividades petrolíferas na região.

A nova manifestação ocorre apenas cinco dias depois das declarações feitas em Belém, na sexta-feira (9), quando Magda destacou a superioridade da infraestrutura da capital paraense em relação à cidade amapaense, levantando questionamentos sobre o destino dos investimentos e dos benefícios econômicos decorrentes das descobertas de petróleo na costa do Amapá.

Na ocasião, o ConectAmapá publicou reportagem com o título “Presidente da Petrobras menospreza estrutura do Amapá e diz que Belém está mais preparada para apoiar exploração de petróleo”, destacando que as declarações da executiva colocavam em segundo plano a participação do estado na cadeia de investimentos de uma atividade econômica desenvolvida em sua própria costa.

Agora, em publicação no seu perfil pessoal no LinkedIn, Magda procura afastar a interpretação de que a Petrobras estaria privilegiando o Pará em detrimento do Amapá.

“Essa disputa não existe”, afirmou a presidente da estatal.

“Em se confirmando comercialidade das áreas, ambos [Amapá e Pará] serão necessários. A Margem Equatorial será motivo de convergência pelo desenvolvimento do Arco Norte, não de disputa”, acrescentou.

Mudança de discurso ocorre após declarações que favoreceram Belém

A diferença entre as duas manifestações chama atenção.

Na sexta-feira (9) Magda Chambriard afirmou que a capital paraense estava mais preparada para atender às necessidades logísticas da Petrobras na Margem Equatorial.

A declaração, divulgada inicialmente pela CNN Brasil e repercutida pelo ConectAmapá no sábado (10), levantou dúvidas sobre a participação efetiva de Oiapoque na estrutura operacional da atividade petrolífera.

O município amapaense está situado na região mais próxima das áreas exploratórias da Bacia da Foz do Amazonas e é considerado estratégico para os projetos de desenvolvimento econômico associados às descobertas de petróleo.

Ao destacar a infraestrutura de Belém, a presidente da Petrobras colocou em evidência a possibilidade de que parte significativa dos empregos, contratos de prestação de serviços e investimentos logísticos fique concentrada no Pará.

Agora, Magda adota uma posição mais conciliadora, reconhecendo que os dois estados poderão desempenhar papéis importantes no desenvolvimento da nova fronteira petrolífera brasileira.

Embora as declarações não sejam necessariamente contraditórias do ponto de vista técnico, a mudança de ênfase é evidente: antes, a executiva ressaltava as vantagens de Belém; agora, procura assegurar que o Amapá também terá importância estratégica.

Petróleo está na costa do Amapá, mas investimentos ainda geram incertezas

Para o Amapá, o desafio não se resume à descoberta do petróleo, mas envolve a capacidade de transformar esse potencial em desenvolvimento

A discussão sobre a localização das bases operacionais ganhou importância depois que a Petrobras confirmou novas descobertas de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas.

No início de outubro, a própria Magda Chambriard comemorou os resultados das atividades exploratórias no poço Morpho, localizado no bloco FZA-M-59, na costa amapaense.

Na ocasião, a executiva afirmou que as descobertas estavam aumentando o valor das áreas exploratórias da companhia.

“O Amapá está ficando mais valioso a cada dia”, declarou Magda, conforme reportagem publicada pelo ConectAmapá em 2 de outubro.

A manifestação criou expectativas sobre a possibilidade de o estado receber investimentos em infraestrutura portuária, logística, transporte, serviços especializados e qualificação profissional.

Entretanto, a valorização das reservas petrolíferas não significa, automaticamente, que os investimentos associados à atividade serão realizados no território amapaense.

A definição das bases de apoio dependerá de estudos técnicos, viabilidade econômica, condições operacionais e decisões de investimento da Petrobras.

Oiapoque já possui estrutura de atendimento à fauna

Apesar das declarações anteriores sobre as limitações logísticas de Oiapoque, a Petrobras já implantou estruturas de atendimento à fauna tanto no município amapaense quanto em Belém.

As instalações fazem parte das exigências estabelecidas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no processo de licenciamento ambiental das atividades exploratórias na Bacia da Foz do Amazonas.

A existência dessas estruturas demonstra que os dois municípios já participam, em diferentes condições, da logística relacionada à exploração petrolífera.

Entretanto, bases de atendimento à fauna não equivalem a bases portuárias e industriais completas para apoio às operações marítimas.

A instalação de uma estrutura operacional mais ampla em Oiapoque ainda depende de decisões técnicas e econômicas da companhia.

Amapá precisa garantir participação nos benefícios econômicos

A mudança de discurso da presidente da Petrobras não elimina uma questão central para o futuro econômico do Amapá: quanto da riqueza gerada pela exploração de petróleo na costa do estado permanecerá efetivamente na economia amapaense?

A implantação de bases de apoio pode representar oportunidades de geração de empregos, contratação de empresas locais, movimentação portuária, capacitação profissional e fortalecimento de diferentes setores produtivos.

Por outro lado, a concentração dessas atividades em outros estados poderá reduzir a participação direta do Amapá nos benefícios econômicos da exploração petrolífera.

A Margem Equatorial brasileira se estende do Rio Grande do Norte ao Amapá e compreende cinco bacias sedimentares: Potiguar, Ceará, Barreirinhas, Pará-Maranhão e Foz do Amazonas.

Apesar das descobertas recentes, a Petrobras ainda precisa confirmar a viabilidade comercial das áreas exploradas antes de avançar para uma eventual fase de produção.

Para o Amapá, o desafio não se resume à descoberta do petróleo, mas envolve a capacidade de transformar esse potencial em desenvolvimento econômico e social, com investimentos estruturantes e respeito às exigências ambientais.

A nova declaração de Magda Chambriard sinaliza uma disposição de incluir Amapá e Pará no planejamento da Margem Equatorial. No entanto, ainda não representa um compromisso concreto de implantação de uma base operacional de grande porte em Oiapoque.

Enquanto a Petrobras não apresentar definições sobre os investimentos e a distribuição das estruturas logísticas, permanecerá a preocupação sobre a possibilidade de o Amapá assistir à exploração de petróleo em sua costa sem receber uma parcela proporcional das oportunidades econômicas associadas à atividade.

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