Artigo: A ponte ainda resiste

Agora, quando o mundo se prepara para a COP 30, em Belém, o que o Amapá começou lá atrás aparece como resposta concreta ao desafio global

*Por João Capiberibe

Em 2001, o jornalista Cláudio Cerri veio ao Amapá para a revista Globo Rural.
Quis entender o que significava aquele experimento político e social que chamávamos de Programa de Desenvolvimento Sustentável do Amapá — o PDSA.
Da visita nasceu a reportagem “Uma ponte entre dois mundos”, um título que traduzia com precisão o que estávamos tentando construir: uma passagem entre a economia predatória e uma nova economia da floresta em pé.

Vinte e quatro anos se passaram.
Hoje, quando releio aquela matéria, vejo o quanto o tempo confirmou o que defendíamos — e o quanto ainda há por fazer.
O Amapá não se transformou em vitrine por acaso: foi o resultado de uma visão de futuro que combinava ciência, conhecimento tradicional e participação social.
Era uma experiência viva, feita de agricultores, pescadores, extrativistas, pesquisadores, técnicos e jovens sonhadores.

Cerri talvez não imaginasse, ao embarcar de volta com suas anotações e fotografias, que aquele experimento continuaria ecoando duas décadas depois.
Mas continua.
Agora, quando o mundo se prepara para a COP 30, em Belém, o que o Amapá começou lá atrás aparece como resposta concreta ao desafio global: como gerar riqueza sem destruir a base natural da vida.

A bioeconomia amazônica, de que tanto se fala hoje, nasceu justamente dessa ideia — de que a floresta é produtiva quando se respeita seu ritmo e sua diversidade.
No Amapá, começamos a transformar o açaí em vinho, o saber tradicional em tecnologia, e a comunidade em protagonista do próprio desenvolvimento.

O que aprendemos, e que Cerri registrou com olhar atento, é que sustentabilidade não é um conceito — é uma prática cotidiana.
É o agricultor que decide não derrubar uma castanheira, o pescador que organiza o defeso, a mulher ribeirinha que multiplica saberes, o jovem que encontra no bioma sua oportunidade de futuro.

Se Cláudio Cerri voltasse hoje, talvez escrevesse outro título:
A ponte continua firme.
Porque, apesar das crises e dos retrocessos, a travessia entre dois mundos segue em curso.
De um lado, o velho modelo que devora florestas e empobrece pessoas; do outro, um projeto que aposta na inteligência da natureza e na dignidade humana.

Essa ponte é o legado mais sólido que deixamos.
E enquanto houver quem caminhe sobre ela — pesquisador, ribeirinho, empreendedora, líder comunitária — o sonho do PDSA continuará vivo, lembrando que o futuro da Amazônia não será obra de destruição, mas de reconstrução paciente, feita de fé, conhecimento e amor à floresta.

*Ex preso político, ex prefeito, ex governador, ex senador, empresário da sócio biodiversidade amazônica.

Uma ponte entre dois mundos

Revista Globo Rural-2001
O Amapá se antecipa ao futuro e transforma o desenvolvimento sustentável em política oficial de governo. O estado, criado em 1988, tem apenas 450 mil habitantes, e 95% de sua área, de rica biodiversidade, são preservados

Texto Claudio Cerri Fotos Ernesto de Souza

A maior fragilidade do Amapá é justamente seu principal fascínio: ser um Brasil que engatinha. Elevado à condição de estado apenas em 1988, após 45 anos como território — antes, até 1943, pertencera ao Pará —, forma um arremate de 143,4 mil quilômetros quadrados encravado no norte brasileiro, com população de pouco mais de 450 mil pessoas. É um caso típico de subordinação da história à cartografia. Muitos sabem identificar seu traçado no mapa e mesmo nomear alguns ícones fronteiriços mais famosos, como a Baía do Oiapoque, no extremo norte, ou a remota Serra Tumucumaque, na divisa com o Suriname e a Guiana Francesa; poucos porém imaginam o que existe dentro desse contorno. Em boa parte, talvez, porque o que existe ainda não foi totalmente triturado e digerido pelo mercado, essa ubiqüidade moderna que multiplica opções mas não assegura oportunidades e, cada vez menos, tolera alternativas soberanas.
Embora conviva duramente com distorções herdadas de quase meio século de subalternidade territorial — quando o centralismo e a corrupção enraizaram-se na política local —, a vitalidade do contato ainda estreito com a natureza reforça sua aura de uma fronteira por construir. A demografia só faz confirmar essa identidade em fraldas. Mais de 45% da população do estado têm menos de 15 anos de idade. É uma geração em trânsito na vida e na fronteira entre dois mundos.

A gigantesca boca do Rio Amazonas — cujo braço norte desenha um cinturão marrom em toda a costa, riquíssima em manguezais — impõe inquestionável autoridade sobre essa juventude humana e territorial. Todas as águas, o lodo e a riqueza biológica carreados por 1.100 rios da maior bacia fluvial do planeta convergem para banhar a capital, Macapá, que abriga metade da população do estado e fica estrategicamente situada na margem esquerda do estuário amazônico. Porta de entrada de inúmeras rotas de navegação que ligam o Atlântico à floresta, à Venezuela e à Colômbia, o Amapá foi alvo de acirrada disputa diplomática com a França desde o século 19. Só em 1900, graças ao Tratado de Utrecht, a soberania brasileira foi reconhecida na região. Quem se der ao trabalho de descer ao chão do conflito diplomático, porém, novamente encontrará algo mais que contornos cartográficos. O contestado franco-brasileiro intensificou-se em 1858 com a descoberta de ouro nessa terra de ninguém que ia da divisa da Guiana Francesa ao limite do Rio Araguari, ao sul do estado. Foi esse o palco de diversos episódios picarescos e heróicos envolvendo brasileiros e invasores de Cayenne e de Paris. Cabralzinho, Francisco Xavier da Veiga Cabral, é o herói local, o libertador do Cunani. A republiqueta criada em 1885 por aventureiros franceses (e reeditada em 1902) ocupava o território onde hoje fica o município de Calçoene. Os invasores viviam de vender comendas “nacionais” em Paris — a Ordem da Cavalaria Estrela do Cunani. Extraíam ouro das minas e cunharam sua lucrativa ficção institucional com selos, diário oficial e moeda própria — la coleur. Hoje, os habitantes do Cunani quase nunca vêem la coleur do dinheiro. A única moeda corrente entre eles é a solidariedade.

O Amapá é um arremate de terra na imensidão líquida da foz do Amazonas.

O meio do mundo
Quase toda a vizinhança do Amapá padece da mesma opacidade histórica que faz de Cabralzinho um ilustre desconhecido do resto dos brasileiros. Do outro lado do estuário, pertencente ao Pará, encontram-se as ilhas Caviana e Mexiana. Uma rima perdida num jorro cor de café-com-leite que tinge o Atlântico por quase 300 quilômetros. Caviana e Mexiana só não submergem na memória nacional por obra da velha decoreba cartográfica do grupo escolar. Qualquer que seja a densidade histórica e demográfica desse corredor dos esquecidos, porém, nada rivaliza com a presença imperial do Rio Amazonas. Ele reafirma cotidianamente o imperativo de uma parceria incontornável do homem com a natureza nesse canto do Brasil.
Pensar o futuro como algo a ser construído, e não comprado pronto, requer algo mais do que natureza bruta. No Amapá, o elo decisivo entre uma coisa e outra chama-se desenvolvimento sustentável, ou João Alberto Capiberibe. Ou simplesmente Capi. São três formas de se dizer quase a mesma coisa. Capi é o governador do estado. Ele conseguiu traduzir a vocação difusa desse lugar numa proposta de ação referendada nas urnas das duas últimas eleições estaduais. Nunca foi uma vitória folgada, mas é progressiva. Ela foi reafirmada novamente agora nas eleições municipais de 2000, quando o candidato do Partido Socialista Brasileiro, ao qual é filiado, ganhou a acirrada disputa pela prefeitura de Macapá. A bandeira acenada por Capiberibe contra a desesperança, a pobreza, o ostracismo e o interesse particularista é essa concepção humanista de progresso, associada à exploração equilibrada da natureza — o desenvolvimento sustentável. Ou, como ele prefere, o PDSA — Programa de Desenvolvimento Sustentável do Amapá. Não se trata de um cacoete politicamente correto. Ou uma plataforma de organização não governamental. No Amapá, é uma diretriz governamental. Um projeto que condiciona todos os gastos do modesto orçamento de 500 milhões de reais por ano. Daí a sua força. Daí também o incômodo que causa, maior até do que o leque ainda restrito das realizações que inspira. Economistas liberais torcem o nariz. Consideram suspeito qualquer adjetivo que restrinja a liberdade de mercado. Desenvolvimento, dizem eles, está ontologicamente associado a uma dinâmica de destruição criativa. Necessariamente desequilibrada, portanto. Assim como a Ciência descobriu que no mundo da Física tudo tende à desorganização e à entropia, sendo a energia a única certeza, os liberais elegeram o mercado como única referência da vida.

É preciso superar o extrativismo, agregando valor aos produtos da floresta, como a castanha

Allende e Betinho
Capiberibe não é do tipo que se deixa levar por torniquetes desse tipo. Ele sabe que o homem é refém de seu tempo, mas não admite que seja um escravo dele. Não abdica da liberdade de escolha. Aos 52 anos, pertence a uma geração que vivenciou grandes acontecimentos coletivos movidos por idéias. Gente assim costuma ter uma intimidade aristocrática com a ação. A história para eles resulta em boa parte desse protagonismo — é obra humana, portanto, não da mercadoria. Quem tem esse perfil não precisa recorrer a discursos inflamados para conseguir a atenção do interlocutor. Capiberibe pertence a essa categoria. E tem a incentivá-lo um cenário que convida à ação: a fronteira do meio do mundo, onde tudo está por fazer. É onde fica o Amapá.
Difícil não cruzar com a linha do Equador — que divide o globo em dois hemisférios — quando se transita pelas ruas escaldantes da capital. O Marco Zero é o monumento referencial desse traçado imaginário que atravessa o planeta e a cidade. Bares convidam para um fim de noite “no meio do mundo”. O estádio municipal de futebol — o Zerão — incorpora a cartografia ao esporte: a fronteira entre o Norte e o Sul confunde-se com a risca do meio de campo. O governador não precisa recorrer a linhas imaginárias para inflar um projeto que soaria pretensioso, não fosse a trajetória pessoal de quem o comanda. Transpor desafios parece ser a sua especialidade.

João Alberto Capiberibe nasceu na Ilha de Marajó, PA, numa família pobre, e passou a maior parte da infância no Igarapé das Mulheres, em Macapá, vendendo camarão na rua para ajudar em casa. A voz grave e serena não destoa da figura espigada, de magreza convicta, algo tímida, arrematada por barba rala que compartilha o rosto com um sorriso sempre afável. O conjunto transmite a imediata sensação de honestidade. Capi conversa do mesmo jeito com todo mundo. Consegue especial sintonia entre índios, castanheiros e ribeirinhos. Eles formam 13% da população espalhada pelas florestas e igarapés. Os demais 87% dividem-se entre 16 municípios não exatamente urbanos. Poderia ser apenas uma forma de populismo tropical, mas não é. Descentralizar o poder sempre foi uma das obsessões da trajetória política desse homem.

Empossado em 1995, seu primeiro ato foi extinguir o batalhão de choque da guarda palaciana. Em Macapá, a rádio do governo transmite notícias da administração, mas também críticas ácidas da oposição. Associações comunitárias gerem recursos da merenda escolar com absoluta autonomia — “O que reduziu a zero os desvios e melhorou o cardápio”, observa. A organização autônoma de cooperativas de pescadores e castanheiros não é apenas incentivada: constitui requisito de acesso aos recursos dos programas implementados pela Seicom — Secretaria de Indústria e Comércio, dirigida por Janete Capiberibe. Cabe à pasta provar que é viável saltar do extrativismo para cadeias diversificadas de produtos e mercados. Esposa do governador, Janete não ocupa o cargo por osmose. Tem luz própria. É das mais populares deputadas estaduais do Amapá. Em muitas áreas, rivaliza em prestígio com o marido.

O desapego de Capi ao ritual do poder estende-se à frugalidade do gabinete que ocupa distinguido por duas homenagens referenciais: uma foto de Salvador Allende, presidente chileno derrubado pelo golpe militar de 1973; e outra, maior, do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, falecido em 1997, uma espécie de Gandhi brasileiro a denunciar mazelas sociais do país. A escolha não é aleatória. O ocupante tem um pouco dos dois. Mas que ninguém se engane, seu caminho segue bússola própria. Capi é o embaixador da floresta rumo ao futuro e transita com igual desembaraço entre mundos tão distintos quanto o das tribos nativas e o dos chefes de estado do Primeiro Mundo.

Na União Européia, gabinetes de calefação irrepreensível têm se mostrado mais receptivos a sua voz do que o ar refrigerado de Brasília. Em Paris, em especial, onde encontra em Danielle Miterrand, viúva do presidente François Miterrand, uma admiradora e aliada, Capiberibe vem conseguindo fechar acordos de cooperação econômica, científica e social. Uma habilidosa política de cooperação e boa vizinha com a Guiana Francesa têm ofacilitado o acesso a fundos de desenvolvimento europeus.

Riqueza verde
Aos poucos, o Amapá pavimenta um caminho alternativo ao alinhamento incondicional com o modelo norte-americano. Na rede pública de ensino, o francês é a segunda língua aprendida pelos estudantes. Convênios com o Conselho Nacional de Pesquisa Científica da França e com a Universidade de Montpellier semeiam inúmeros projetos de cooperação técnica e financeira em busca do desenvolvimento sustentável. Dezenas de fármacos estão em fase de pesquisa, experiência ou uso comercial. O mapeamento da riqueza florestal já demonstrou que o açaí, sozinho, gera mais retorno à população (25 milhões de dólares por ano) do que o arremedo de Zona de Livre Comércio herdada de administrações anteriores. A idéia de criar um novo Paraguai na boca do Amazonas foi atropelada pela desvalorização do real, em 1998. “Somos um estado pobre (0,16% do PIB brasileiro). Se medirmos a riqueza pelo conceito convencional de concentração de capitais e tecnologia, temos pouco a oferecer. Mas, se olharmos a coisa de outro ângulo, veremos que o Amapá está cercado por uma densa rede de biodiversidade. É a riqueza do futuro. Nosso desafio é encontrar um atalho aí. Viabilizar o salto do extrativismo para cadeias de produção que agreguem valor ao que se extrai da floresta, sem destruí-la. Em essência, é o que estamos conseguindo com a castanha. Em lugar de vender amêndoas apenas, exportamos o óleo, tão saudável quanto o azeite de oliva”, resume a voz anasalada, quase pedagógica (leia “O óleo da esperança”). Capi sabe que está desafiando ceticismo domesticado pela lógica convencional. É preciso persuadir a enxergar; os resultados são lentos.

Escolas nas boates
O peso do passado é um forte argumento a favor dessa estratégia de futuro. Até hoje, todos os grandes projetos convencionais formatados pelo mercado tiveram efeito devastador no Amapá. A amputação da natureza não fortaleceu a sociedade. O estado teve a sorte, se é que se pode contrapor isso ao azar, de sediar megainvestimentos pedagógicos nos últimos anos. A Icomi — Indústria e Comércio de Minérios S.A. extraiu manganês da Serra do Navio por quase meio século — era o minério de melhor teor já encontrado no planeta. Há cinco anos soou o esgotamento comercial das minas. Sobrou um rastro de desemprego, prostituição e favelas. Onde antes havia um morro parecido com o Pão de Açúcar, restou o “Grande Buraco”. Toneladas de ouro extraídas do Calçoene e do São Lourenço propiciaram igual retorno. E o sonho faraônico do empresário norte-americano Daniel Ludwig, que investiu 1 bilhão de dólares na região, nos anos 70, não trouxe melhor resultado. A Jari Florestal, um projeto de arroz e celulose, previa a ocupação de 1 milhão de hectares na margem direita do rio do mesmo nome, que divide o Pará do Amapá. Florestas imensas cravejadas de castanheiras foram derrubadas para ceder espaço à gemelina, que prometia crescimento rápido e fibra longa. Não deu certo. A árvore exótica foi derrotada pelo solo e clima tropicais. Quando o eucalipto chegou, o negócio já havia fracassado. Navegar hoje pelo Jari, subindo em direção à foz do Iratapuru, propicia um confronto esclarecedor entre duas concepções de desenvolvimento regional. Na margem direita, paraense, o desastre ecológico do projeto florestal que descartou a floresta; na margem esquerda, do Amapá, a exuberância preservada da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Iratapuru — 800 mil hectares de verde e de futuro.

O Amapá porém não ficou imune ao efeito desestabilizador dessa aventura. O sonho de Daniel Ludwig semeou um pesadelo de palafita bem rente à água, na margem esquerda do Jari. O Beiradão é a contra face desagregadora da assepsia social e autoritária que orientou toda a concepção desse projeto, inclusive a urbanização da sua sede, em Monte Dourado, distrito de Almeirim, PA, margem direita do rio. Com o fracasso da Jari Florestal, a favela de palafita inchou de desempregados. Ganhou vida própria, emancipou-se e mudou de nome: Laranjal do Jari é hoje o terceiro maior município do Amapá, com mais de 32 mil habitantes. Para reinventar o que funcionava como anexo do pecado do puritanismo calvinista, Capiberibe foi direto ao ponto. Comprou vários bordéis locais. Alguns dos maiores e mais famosos como Veterano, Arco-Íris, Sonho Meu, La Bamba e Santarém. Transformou-os em escolas públicas limpas, arejadas, cheias de vida. Dentro delas, os filhos do Beiradão reinventam seu destino.

Currículos regionais
Casos como esse explicam a postura inflexível do governador que recentemente recusou espaço na agenda para receber madeireiros da Malásia. Eles prometiam investir até 200 milhões de dólares no estado. Mas tinham um alvo cobiçado: a quase intacta floresta do Amapá, que mantém 97% do seu território preservados. “Nem houve conversa. Esse caminho não leva a nada. São atividades que encaram um território apenas como substrato. Quase 7% do Amapá são de cerrados. Agroindústrias de soja também gostariam de se instalar aqui. Mas a soja não nos interessa. Que futuro ela nos traria?”, questiona num tom que já embute a resposta.

A própria geografia às vezes ajuda a delinear o caminho que o Amapá procura. Nos igarapés a economia do automóvel é inútil. O trânsito se faz pela água e dispensa vultosos investimentos no fluxo de veículos. Passarelas de pracuuba, espécie de madeira, dão um toque caribenho ao calçadão movimentado dos ribeirinhos. São bonitas, baratas, funcionais. Os recursos maiores podem ser concentrados em saneamento e educação. É o que ocorre no Arquipélago do Bailique, um conjunto de 38 comunidades com 6 mil habitantes, distante 10 a 12 horas de barco de Macapá. Para alcançá-lo na estação seca, viaja-se uma noite e uma manhã. Sempre contornando a costa norte pelo braço do Amazonas. Numa clareira entre a floresta e o rio, desponta a antecipação do futuro preconizado por Capiberibe: 39 hectares ocupados pela Escola Bosque. Os alunos são filhos de ribeirinhos. A arquitetura de módulos circulares lembra uma aldeia indígena. Integra-se harmonicamente à estética local, tanto quanto a pedagogia inovadora. O material didático gira em torno da floresta e do saber nativo.

A Escola Bosque foi inaugurada em 1998. É o primeiro de quatro centros irradiadores de pedagogia regional em implantação no estado. No seu caso, os exercícios de matemática, por exemplo, incorporam problemas colocados pela carpintaria naval, especialidade nativa. Campeonatos esportivos incluem torneios de escalada de açaizeiros — o açaí é outra fonte de renda do Bailique. O projeto no entanto não confunde identidade com nostalgia pastorial. Ao contrário. O barco-escola Navegar, equipado com computadores ligados à rede mundial, está atracado ao Bailique para formar monitores. Eles vão orientar o acesso da juventude local à efervescência globalizada. Em pé de igualdade (leia “Vila Progresso”).

O barco-escola Navegar percorre as vilas ribeirinhas para ensinar aos jovens a língua da Internet.
Mercado da floresta
Sempre se poderá dizer que no governo Capiberibe o magnífico jorro de idéias suplanta o repertório ainda modesto das realizações. Pode ser, mas isso não reflete um desvio de rota. A multiplicação de projetos-piloto e a ênfase na capacitação humana são etapas indispensáveis no percurso de quem precisa, ao mesmo tempo, reinventar produto e processo. Mas a massa crítica acumulada até agora cobra a inauguração de um novo ciclo: o da escala. É aí que reside o grande teste dos dois últimos anos de mandato do governador.
Existe hoje no Amapá uma luta prévia e renhida pelo poder. Um jogo marcado por forte antagonismo. Capiberibe acusa a oposição, majoritária na Câmara dos Deputados, de tentar paralisar seus projetos manipulando verbas em benefício próprio. Há sinais. E não são de fumaça. O presidente afastado da casa — o deputado Fran Junior (PMDB), indiciado pela CPI do Narcotráfico com mais dois políticos oposicionistas — inclui em seu generoso patrimônio uma pista de aviação. Construída em uma das fazendas de sua propriedade, a obra foi paga com dinheiro público. “É desconcertante, mas Fran Junior assegura não ter aviões nem piloto. É só a ponta do iceberg de uma rede de corrupção e tráfico de drogas”, reafirma o governador, que fez a mesma denúncia à CPI, em Brasília. A oposição rebate e acusa o governo de desviar verbas do Fundef — Fundo de Desenvolvimento do Ensino Fundamental, para aplicação em segurança escolar. O conflito já derivou para pedidos de impeachment e pode gerar uma intervenção federal no estado.

Uma mistura de duas ervas com nome de peixe, a sucuriju e o pirarucu, tem conseguido evitar que a tensão política ressuscite uma antiga úlcera no principal estuário dessas pressões: o estômago do governador. “Curei-me com elas”, propagandeia Capi, que ainda capitaliza a favor da sua política de desenvolvimento. Segundo ele, o Iepa — Instituto de Estudos e Pesquisas do Amapá desenvolveu mais de 35 fármacos com base na fitoterapia tradicional de ribeirinhos, indígenas e castanheiros. Alguns compostos começam a ser utilizados na rede pública de saúde. Outros, como a vela de andiroba (para espantar pernilongo), xampus e cremes de beleza, estão disponíveis e sendo repassados à iniciativa privada. No centro de Macapá, o Mercado de Produtos da Floresta reúne dezenas de itens já disponíveis ao consumidor.

O Amapá investe 1% do orçamento em pesquisa. A taxa de crescimento do PIB nos últimos quatro anos exibe níveis há muito esquecidos pelos brasileiros: média de 7% ao ano. A arrecadação cresceu 40% no ano passado frente a 1999. “Simples: passei a cobrar dos ricos que não pagavam e destinei o recurso aos pobres, que mais precisavam. Normalmente ocorre o inverso, não é, daí as reações”, ironiza. Capiberibe expõe suas idéias com a certeza de que elas não estão fora de lugar, nem seus pés distantes do chão. “Gastei o primeiro mandato saneando as finanças públicas. Cortei todos os gastos. Durante dois anos, não bati um prego numa barra de sabão. Se saísse na rua, era vaiado. Mas fiz o que era preciso”, esclarece. “Agora poderíamos avançar mais depressa, se não atrapalhassem tanto.”

O desafio agora é injetar escala nas vendas de produtos da floresta.
Enredo de filme
A voz serena lamenta mas não acusa desânimo, apenas cansaço. Capi tem prática no ramo. Ele viveu todos os principais movimentos políticos da América Latina nos anos de chumbo (60/70). Pavimentou uma trajetória de tirar o fôlego.
Jovem ainda, foi encarregado pelo guerrilheiro Carlos Mariguella de abrir uma frente armada de oposição à ditadura, em pleno coração da Amazônia. Foi preso. Auxiliado pelo amigo Almir Gabriel, atual governador do Pará, fugiu de barco pelos rios da floresta, com Janete grávida. Alcançou a Bolívia em plena efervescência do governo nacionalista do general Juan José Torres (1970/ 1971). Escapou do golpe contra Torres asilando-se no Chile, de Salvador Allende (1971/1973). Viveu ali como camponês. Aprendeu a plantar, ajudou a organização dos sindicatos rurais. No golpe de 1973, conseguiu escapar dos esquadrões de Pinochet pedindo exílio no Canadá, onde viveu por cinco anos. Formou-se em zootecnia em Quebec. Em 1978 trocou a neve pelo sol da África e foi trabalhar para a Frelimo — Frente de Libertação de Moçambique.

De volta ao Brasil, graças à anistia de 1979, engajou-se na luta dos seringueiros do Acre, liderados por Chico Mendes. Em 1984 foi designado subsecretário de Agricultura no remoto alto Juruá, AC, onde organizou associações de produtores rurais. Em 1985 voltou ao Amapá como secretário da agricultura do então PMDB. Iniciou uma carreira meteórica: em 1988 foi eleito prefeito de Macapá; em 1994 ganhou o pleito para governador; em 1998 foi reeleito; em 2000 seu candidato venceu as eleições municipais da capital. Capi não ostenta a biografia de herói de cinema.

Dura travessia
Ao contrário, até ri de alguns percalços. Mesmo os inimigos porém admitem que ele representa a consolidação de um novo tipo de liderança que emergiu na Amazônia a partir dos anos 70/80. Em 1976 Chico Mendes surpreendeu o mundo — e só depois o Brasil — com a prática do empate, uma forma de resistência pacífica contra o desmatamento da floresta na região de Xapuri, AC. Seu movimento transformou o Acre no centro mundial de discussão da ecologia e plantou uma semente: a idéia de que era possível extrair riqueza da floresta mantendo-a de pé. Era uma semente perigosa. Custou a vida a Chico Mendes, que foi assassinado com um tiro de escopeta em dezembro de 1988.

Agora, tornou-se uma idéia poderosa: o Amapá transformou-a em política de governo. Capi enfrenta resistências brutais por isso. Mas, se conseguir superá-las, talvez o estado rompa definitivamente os limites da cartografia para se transformar numa referência histórica — uma ponte entre o sonho seringueiro e o futuro sustentável.

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