Artigo – Araguari: o rio que perdeu a pororoca, o Bailique que perde a água doce e o veneno que chega pelo ar

Por João Capiberibe*

O rio Araguari já foi sinônimo de espanto e encantamento. Na sua foz, a pororoca erguia paredes de água barrenta de até cinco metros, atraindo surfistas do mundo inteiro e equipes de televisão que vinham registrar o estrondo do encontro entre o rio e o Atlântico. Hoje, esse rugido calou. O que era espetáculo passou a ser alerta: um rio desfigurado por barragens, canais artificiais, criação de búfalos e, agora, pressionado por um clima em rápida mudança.

O Araguari é o principal rio genuinamente amapaense. Nasce nas serras do norte do estado e descia com força até o oceano, ajudando a empurrar a cunha de água salgada para longe das ilhas do Bailique, onde vivem cerca de 7 mil pessoas. Nas últimas décadas, porém, esse equilíbrio foi rompido. Estudos mostram que a foz do Araguari foi assoreada e que parte considerável de suas águas foi “capturada” por um novo canal, o Urucurituba, que as desvia em direção ao Amazonas. Sem o choque direto entre o rio e o mar, a pororoca deixou de existir.

Ao mesmo tempo, três grandes usinas hidrelétricas foram construídas em sequência no curso médio do Araguari: Coaracy Nunes, Ferreira Gomes e Cachoeira Caldeirão. Elas regularam vazões, retiveram sedimentos, alteraram pulsos de cheia e vazante, transformando trechos de rio correntoso em grandes seções de água represada. Pesquisas indicam que essa combinação – barragens, canais de drenagem abertos para a pecuária bubalina e desmatamento nas margens – está por trás da morte da pororoca e de mudanças profundas na dinâmica hídrica e ecológica da região.

Do outro lado desse processo, está o arquipélago do Bailique, na foz do Amazonas. As ilhas, que sempre conviveram com marés fortes e uma paisagem em constante movimento, passaram a sofrer uma erosão acelerada: casas, escolas, trapiches e até cemitérios vêm sendo literalmente engolidos pelas águas. Moradores e pesquisadores relatam o fenômeno das “terras caídas”, com centenas de residências já destruídas. A isso se soma uma salinização crescente dos rios e igarapés que cercam as comunidades.

Hoje, em pleno estuário do maior rio de água doce do planeta, famílias ribeirinhas do Bailique precisam que se decrete situação de emergência para receber água potável em barcos-pipa. A água que sai das torneiras e poços ficou salobra, imprópria para beber e até para lavar roupa em boa parte do ano. Estudos do IEPA e de universidades brasileiras apontam duas engrenagens se somando: de um lado, a elevação do nível do mar e a alteração dos ventos e correntes provocadas pelo aquecimento global; de outro, a perda do “empurrão” de água doce que o Araguari dava no encontro com o oceano.

Pesquisas recentes identificaram que a intrusão da água salgada consegue avançar dezenas de quilômetros para dentro do estuário, em períodos de estiagem mais severa. A estiagem histórica que atingiu a Amazônia em 2023–2024 agravou esse quadro, com rios mais baixos e o mar avançando cada vez mais. Na prática, o que os gráficos mostram em laboratório é exatamente o que as famílias do Bailique sentem no corpo: mais calor, menos chuva, mais sal na água, mais doenças e mais incerteza sobre o futuro.

Nesta viagem de retorno ao Bailique, uma nova camada desse drama se revelou diante dos nossos olhos. Ao longo de grandes extensões das margens do Furo do Urucuri – braço que se conecta ao sistema Araguari–Urucurituba – não vimos os aviões, mas vimos vastas áreas de vegetação queimada e faixas de mata abatida de forma homogênea, típicas de pulverização aérea com herbicidas. Do convés do barco, diante daquele rastro de destruição recente, era impossível não imaginar a cena: a névoa fina se espalhando, o cheiro do veneno no ar, a chuva química caindo sobre a água, a floresta, os peixes, os açaizais e as casas ribeirinhas.

A pulverização aérea de agrotóxicos é alvo de polêmica em todo o país. Embora exista uma norma federal que fixe distâncias mínimas para aplicação em relação a cidades, povoados e mananciais, reportagens e organizações ambientais vêm denunciando repetidamente que a deriva do veneno atinge escolas, comunidades inteiras e fontes de água. Em pelo menos um estado, o Ceará, a prática foi proibida por lei e essa proibição foi confirmada pelo Supremo Tribunal Federal, abrindo caminho para que outras unidades da federação sigam o mesmo caminho.

No estuário amazônico, onde rios e igarapés são a própria rua, a própria estrada e a própria despensa de alimentos, permitir aeronaves despejando herbicidas sobre as margens é multiplicar riscos. Em uma região já fragilizada pela intrusão salina, pela erosão, pela perda da pesca e pela insegurança hídrica, o veneno lançado pelo ar é mais um golpe sobre populações que pouco ou nada contribuíram para a crise climática, mas que estão na linha de frente de seus efeitos.

O Araguari agoniza em silêncio, mas sua história não é um caso isolado. Ela condensa, num único cenário, as contradições brasileiras diante da Amazônia: construímos barragens sem compreender totalmente seus efeitos cumulativos; abrimos canais e drenagens para a pecuária sobre campos alagáveis; permitimos o avanço de atividades de alto impacto em zonas sensíveis; e continuamos tratando o estuário amazônico como fronteira de expansão, não como coração de um sistema que sustenta o clima do país.

As ilhas do Bailique, que se desfazem pouco a pouco, são o lembrete mais dramático de que a crise climática não é uma abstração. Ela tem endereço, rosto, nome e sobrenome: o pescador que perde o ponto de pesca, a catadora de açaí que vê o pé morrer na água salgada, a criança que cresce aprendendo que a água do rio que passa em frente de casa não pode ser bebida.

Diante desse quadro, o mínimo que se espera é uma reação à altura da gravidade da situação. Isso significa, entre outras medidas, revisar os impactos cumulativos dos barramentos no Araguari, restaurar a conectividade hídrica que protege o estuário, estabelecer uma moratória imediata da pulverização aérea de agrotóxicos em toda a zona estuarina do Amapá e implementar, com urgência, um plano de adaptação aclimática para o Bailique, construído com as comunidades.

O destino do Araguari e das ilhas do Bailique não é apenas um problema regional: é um teste da capacidade do Brasil de cuidar da sua porção amazônica num planeta em aquecimento. Se deixarmos que um rio perca a voz, que um arquipélago perca a água doce e que o veneno caia do céu sem reação, estaremos dizendo ao mundo – e a nós mesmos – que aprendemos pouco com os estrondos da pororoca que um dia ecoou naquele encontro violento t entre rio e mar. Hoje, o estrondo vem de outro lugar: da urgência de mudar de rota enquanto ainda há tempo.

Macapá 30 de novembro de 2025

*João Capiberibe, ex-preso político, ex-prefeito de Macapá, ex-governador e ex-senador do Amapá, artesão da bioeconomia amazônica ao lado de Janete.

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