A floresta amazônica continua a ser rasgada como faziam os militares nos anos 1970/80
*Marco Antonio Chagas

A primeira audiência pública para discutir a construção de uma estrada na Amazônia ocorreu no Amapá, em Laranjal do Jari, no ano de 1992. A abertura da BR-156, no trecho Sul, que liga Macapá a Laranjal do Jari, era o objeto da audiência. Os movimentos sociais se uniram e cobraram do governador do Amapá, Anibal Barcellos, a elaboração de estudos ambientais e a adoção de medidas compensatórias.
A audiência pública, realizada pela Secretaria de Meio Ambiente do Amapá (SEMA), foi marcada por conflitos e tensões. Dias antes da audiência, o ambientalista e líder extrativista Pedro Ramos havia recebido ameaças de morte. Os movimentos sociais defendiam que a BR-156 fosse construída respeitando a natureza – baseada na natureza.
A defesa da floresta era um ato político. A luta dos movimentos sociais buscava mudar a maneira como os militares construíam estradas na Amazônia, rasgando a floresta com faixas de 30 metros de área de servidão de cada lado. O impacto direto dessas obras é de alta magnitude e os indiretos estão associados às altas taxas de desmatamento da Amazônia, que respondem ainda hoje por grande parte das emissões de dióxido de carbono do Brasil.
A proposta de construir uma estrada-parque surgiu como estratégia pedagógica para que o governo brasileiro deixasse de tratar a Amazônia como território de integração nacional e passasse a reconhecer que nenhum modelo pode se impor à realidade, pela simples razão de que a realidade nunca está errada, e sim o modelo. Construir na Amazônia significa mais antropologia e menos engenharia.
Nos bastidores da política local havia ainda um projeto de poder por trás da construção da BR-156. A empresa contratada foi a CR Almeida e um dos seus sócios tornou-se senador da república pelo Amapá em 1990. Desconstruir a política militar e colonial que o governo federal mantinha sobre o Amapá era também um dos objetivos dos movimentos sociais na audiência pública da BR-156.
Passados mais de 30 anos da audiência pública de Laranjal do Jari, o balanço é negativo. A floresta amazônica continua a ser rasgada como faziam os militares nos anos 1970/80, atualmente sob protocolos de licenciamentos ambientais fragilizados e subalternos; a BR-156 permanece inacabada, servindo de objeto de poder político criminoso; e o Amapá segue na trilha dos projetos-modelos impostos de cima para baixo e homogeneizadores de territórios, perdendo identidade e esperança.
*Marco Antonio Chagas, professor da UNIFAP, foi o responsável pela elaboração da ATA da audiência pública da construção da BR-156, trecho Sul, em Laranjal do Jari.








