(Artigo) Brasil: nação erguida sobre cemitérios negros — inclusive na Amazônia

“Se a escravatura não é má, nada é mau…”

*Por Carlos Lobato

O Cais do Valongo no Rio de Janeiro é hoje símbolos desse crime

O Brasil gosta de repetir que nasceu da mistura e da conciliação. Mas basta escavar o solo — do Rio de Janeiro à Amazônia — para que a farsa desmorone. A nação brasileira foi construída sobre corpos negros escravizados, enterrados sem nome, sem rito e, muitas vezes, sem sequer o direito à memória.

O Cais do Valongo e o Cemitério dos Pretos Novos, no Rio de Janeiro, são hoje símbolos desse crime fundador. Mas tratá-los como exceção é outro modo de mentir. Eles são regra. A mesma engrenagem que transformou o Atlântico em tumba operou também na Amazônia, onde negros escravizados foram arrastados para sustentar o projeto colonial português.

No Amapá, a história é clara e brutal. A Fortaleza de São José de Macapá, celebrada em folders turísticos e solenidades oficiais, foi erguida sob o açoite do chicote colonizador, com trabalho forçado de negros escravizados. Muitos deles, quando puderam, romperam as correntes e se refugiaram em quilombos da região, fazendo da floresta não esconderijo, mas território de liberdade. Ali, longe da pedra e do canhão, reinventaram a vida que o Império lhes negara.

Florestan Fernandes advertiu que a abolição brasileira libertou juridicamente, mas manteve intacta a estrutura do racismo. Na Amazônia, isso significou exploração, esquecimento e silêncio. Os cemitérios desses homens e mulheres foram engolidos pela terra, pela mata e pela conveniência histórica. Morreram duas vezes: no corpo e na memória.

Os quilombos do Amapá foram resposta prática a esse horror

Achille Mbembe chamaria isso de necropolítica. Castro Alves, um século antes, já havia gritado. Em O Navio Negreiro, o poeta não descreve: acusa. O mar, ali, é juiz; o céu, testemunha; e a humanidade, ré. A pergunta que ecoa do porão do navio atravessa os séculos e chega intacta ao Brasil de hoje: “Senhor Deus dos desgraçados, dizei-me vós, Senhor Deus, se é loucura… se é verdade tanto horror perante os céus?”

Os quilombos do Amapá foram resposta prática a esse horror. Como lembrava Beatriz Nascimento, o quilombo é gesto político radical: negação da ordem colonial e afirmação de humanidade. Cada quilombo amazônico foi um “basta” lançado contra o chicote, contra o forte, contra o cemitério sem nome.

Walter Benjamin escreveu que todo monumento de cultura é também monumento de barbárie. No Brasil, essa frase tem endereço certo. A Fortaleza de São José se ergue como pedra triunfante, enquanto os ossos negros que a sustentaram seguem sem nome, sem placa, sem luto nacional.

Castro Alves termina seu poema exigindo que o mar apague os vestígios da infâmia. O Brasil fez o contrário: soterrou a memória e manteve a infâmia viva. Persistir no mito da democracia racial, como denunciou Abdias do Nascimento, é prolongar esse crime sob novas formas.

A Amazônia também é cemitério.

O Amapá também é porão.

E enquanto o país não escutar o grito que vem desses ossos — o mesmo grito que ecoou nos navios negreiros — continuará navegando, soberbo e cego, sobre um mar de mortos que se recusam a ficar em silêncio.

*Carlos Lobato /Sociólogo e Jornalista

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