Artigo: O Carimbó na COP 30

O carimbó, que nasceu para celebrar boas colheitas e pescarias entre familiares e amigos, com o passar dos séculos virou expressão de toda uma região

*Paulo Madeira

Não deu no The New York Times que o carimbó estará dentre os temas principais da Conferência das Partes, a COP 30, que ocorrerá em Belém do Pará no mês de novembro do corrente ano. A notícia também não saiu no Liberal, que circula em Marapanim e Curuçá. Não há qualquer falha jornalística nisso. O carimbó não estará dentre os assuntos principais da COP 30. Deveria estar.

A evolução do processo civilizatório, ao menos sob o ponto de vista ocidental, passa pela criação e consolidação da Organização das Nações Unidas – ONU, que implementa, em cooperação com os países signatários, diversas políticas que visam debater e encontrar soluções para problemas que afetam o planeta, e assim buscam construir um mundo melhor para as presentes e futuras gerações. No caso das COPs, que teve a primeira edição em Berlim, na Alemanha, e agora está na 30ª edição, o tema central são as mudanças climáticas, com o propalado fim de diminuir as emissões de gases do efeito estufa e conter o aquecimento global. E o que que isso tem a ver com o carimbó? Tudo.

Para compreender a assertiva é preciso um pensamento mais fundo do que um igarapé, e não precisa ser o Amazonas.
O carimbó, manifestação cultural, ritmo, dança e alma do povo paraense, para ficarmos nas anotações do “Glossário Paraense de 1905” (Miranda, Vicente Chermont de), deriva de um instrumento percussivo indígena, um tambor de madeira oca, coberto de couro de animal, afinado ao calor do fogo, o curimbó, que por sua vez deriva de uma denominação tupi, o “korimbó”.

Sendo indígena quanto à origem do nome e às celebrações iniciais, parece fora de dúvida que os componentes da mãe África, através dos negros arrancados pela escravidão, influenciaram diretamente na construção da expressão cultural, com seus instrumentos, evoluções da dança e vestimentas de um colorido vibrante e encantador, que remetem a memórias ancestrais da capulana africana. A Amazônia, no que tem de humano, foi forjada por alianças afro-indígenas, numa composição de resistência e culto a orixás ligados a elementos da natureza. O carimbó é uma síntese perfeita desse processo de encontros, e deve ser incluído nos debates para alcançarmos o sentido da preservação.

O carimbó, que nasceu para celebrar boas colheitas e pescarias entre familiares e amigos, com o passar dos séculos virou expressão de toda uma região, e desde 2014 é um patrimônio imaterial do Brasil, e por sua força intensa, com uma linguagem que todos da região entendem, é um fio condutor que pode levar as complexas tecnicidades sobre efeito estufa, ciclo de carbono e tantos outros, para o homem comum de Marapanim, de Curuçá e mesmo de Belém, com informações processadas, gerando conhecimento acessível. O aquecimento global começa a fazer sentido quando tem conexão com a vida real, e não é difícil compreender que a construção dos curimbós, das maracas e dos demais instrumentos artesanais extraídos da natureza fica ameaçada quando o planeta arde.

A proposta aqui não é a mudança da pauta da COP 30, ao contrário, é a reafirmação de que a pauta é relevantíssima, mas não pode ser apenas um fórum de debates entre cientistas, acadêmicos, intelectuais e militantes da causa ambiental, deixando o componente humano local, com suas expressões que dão sentido à vida, como meros figurantes para receberem visitantes no aeroporto, com evoluções, coreografias e cantos.

Os representantes do carimbó de hoje, que pegaram o bastão de passagem da geração anterior, que por sua vez havia pegado de outra geração, numa sucessão de passagens desde o século XVII, sabem muito sobre resistência cultural, e instintivamente compreendem que precisam cuidar da natureza para que possam sobreviver com suas identidades. Precisam ser inseridos nos debates para que possam ouvir, e ser ouvidos, não apenas sobre as consequências catastróficas do péssimo uso do planeta. Precisam saber sobre o Acordo de Paris e o pacto que foi firmado para que os países desenvolvidos forneçam assistência financeira aos países menos desenvolvidos e mais vulneráveis. Compreendendo, poderão cobrar pelo que preservam e poderão trazer o assunto para as rodas de conversa ao longo de um plantio, de uma pescaria ou de uma celebração, e esse envolvimento, com o conhecimento de causa, pode ser um diferencial na hora de escolher os representantes da política.

Dar o protagonismo a uma expressão popular durante uma COP não é favor, é simplesmente a materialização da cooperação, que não existe sem alma. É preciso que o caldo de cultura seja despejado sobre a aridez da tecnicidade, para convencer e envolver, permitindo que um encontro na Amazônia fale com a linguagem do carimbó e de suas coirmãs, Tambor de Crioula do Maranhão e Marabaixo do Amapá, para que o mundo perceba o jeito de ser do povo daqui, como prega o poeta “paramapaense” Joãozinho Gomes. COP sem o nosso jeito, sem a nossa alma, não faz sentido. Alcançando o sentido, aí sim, podemos dançar, cantar e celebrar ao final da Conferência, ribeirinhos, agricultores e cientistas, reproduzindo o que faziam nossos ancestrais, agora numa nova dimensão, que tem em comum com o passado a louvação da vida na Terra.

*Paulo Madeira/ Magistrado – Juiz titular da 2ª Vara de Fazenda Pública

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