Artigo : O JUIZ COVARDE

No meio universitário, no curso de Direito, havia um ensinamento que dizia que um Juiz não pode ser duas coisas: corrupto, por razões óbvias, e ingênuo

*Por Paulo César do Vale Madeira

O estádio municipal estava lotado no dia da decisão do torneio de futebol. A cidade de Maravilha tinha aproximadamente sessenta mil habitantes, e a capacidade do estádio era para vinte mil pessoas. Tirando crianças e os não simpatizantes do futebol, era como se toda a cidade estivesse no Maravilhão para assistir a partida final entre Elite Football Club e Operário de Maravilha.

Havia uma distância abissal entre as equipes que chegaram à grande final. O Elite Footbal Club, fazendo jus ao nome, era dotado de rica estrutura de treinamento e tinha no elenco jogadores de altíssimo nível, alguns com passagens por times de ponta no futebol nacional. O Operário era quase um improviso, sem sede própria e composto por jogadores de várzea e um ou outro jogador mais qualificado. Seguindo a máxima de que futebol não tem lógica, o Operário deixou pelo caminho as três equipes que se aproximavam em estrutura do Elite Football Club e chegou à grande final.

Por razões que a psicologia social explica, o número de torcedores do Elite Footbal Club no estádio era imensamente maior do que o de torcedores do Operário de Maravilha. O Elite tinha sede onde promovia eventos, veiculava propagandas em rádio e TV, e com esses mecanismos de influência arrebatava torcedores. O Operário, um time quase amador, contava com os familiares dos jogadores na torcida, além de minguados torcedores contestadores, que viam na disputa uma forma de protestar contra a elitização do futebol, pois entendiam que o esporte deveria manter o romantismo de outrora, nivelando os competidores.
No plano ideal, seguindo as 17 regras do jogo de futebol, era possível que o Operário vencesse, embora fosse sabidamente improvável, tal a distância entre os elencos.

Fora dos olhares públicos houve uma conversa entre os dirigentes do Elite e o árbitro da partida.

  • Bom dia meritíssimo (de forma pândega o presidente do Elite dirigiu-se ao árbitro), isso na véspera do jogo, e na casa do juiz de futebol.
    Surpreso com a visita, o árbitro Tenório mandou o presidente entrar e puxar uma cadeira.
  • Pois não, Seu Raposão. A que devo a honra da visita?
    O presidente Arnaldo Bezerra, rico empresário da cidade, que todos conheciam pelo apelido de Raposão desde a infância, foi direto ao ponto:
  • Seu Tenório, nunca ouvi falar que o senhor era corrupto, então não se preocupe que não vim oferecer dinheiro. Vim apenas dizer que amanhã nós teremos no Maravilhão em torno de 18 mil torcedores do nosso Elite, contra uma meia dúzia de baderneiros do Operário. Há um risco real de tumulto se ocorrer uma zebra e o Operário ganhar. O senhor me entende?
    Atordoado, Seu Tenório balbuciou:
  • Pre…pre.. presidente, não se preocupe que eu vou usar as regras do jogo.
  • Quando a multidão tem desejos, as regras devem ser olhadas com carinho. Pense nisso. Disse Raposão e saiu.
    No dia da grande final os dirigentes do Elite, do camarote, conversavam sobre o encontro com Seu Tenório, e sobre o que poderia ocorrer durante o jogo.
    O Diretor Mundeco perguntou para Raposão:
  • E aí? Achas que o meritíssimo vai apitar dentro das regras do jogo?
    Raposão respondeu:
  • Acho que vai mitigar as regras. Corrupto ele não é, mas pela gagueira na hora que falei, acho que é covarde.
  • No meio universitário, no curso de Direito, havia um ensinamento que dizia que um Juiz não pode ser duas coisas: corrupto, por razões óbvias, e ingênuo, pois sempre deve analisar os casos levando em conta as possibilidades de vieses e manipulações. Não há santo na parada. Tem uma terceira coisa que um Juiz não deve ser, seja ele um Juiz das Cortes de Justiça ou um meritíssimo árbitro de futebol: covarde. Um juiz covarde é um agente indigno, que, premido pelo medo, faz leituras heterodoxas das regras, e por sua covardia acaba favorecendo quem aparenta mais poder, seja o poder da grana ou o poder da pressão popular.
    O jogo foi disputado até o final, com chances claras de gols para os dois lados, e aos 45 minutos do segundo tempo, o jogo em zero a zero, o lateral do Operário faz um arremesso e a bola cai direto no pé do centroavante Filuca, que acerta um tirambaço e estufa a rede do Elite. O estádio vem abaixo, com os torcedores do Elite pedindo a anulação do gol por impedimento, pois Filuca, claramente, estava sozinho próximo à trave quando houve o arremesso.
    Tenório ameaçou correr para o centro do gramado e confirmar o gol, seguindo a regra 11 (não há impedimento quando o jogador recebe a bola diretamente de um arremesso lateral). Os gritos dos 18 mil aumentaram, de forma ensurdecedora. Tenório nem deu dois passos e lembrou do alerta feito por Raposão. Fez um gestual caricato, rodopiou, levantou a mão esquerda e marcou o impedimento.
  • Professor! Professor! Gritou o capitão do Operário, e a regra 11? Foi um arremesso direto do lateral para o Filuca!
  • A decisão está tomada. Impedido.
    Não deu acréscimos, o jogo foi para os pênaltis e o Elite Football Club sagrou-se campeão.
    No camarote Raposão ergueu uma taça, e brindou com os Diretores:
  • Viva a covardia do nosso meritíssimo!

*Paulo César do Vale Madeira/Magistrado

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