Dois salva-vidas para dezenas de pessoas, numa viagem longa, em um dos rios mais imponentes do planeta
Por João Capiberibe*

Tomamos o barco no Porto do Jandiá quando faltavam três dias para o Natal. Eu e Janete seguíamos rumo à comunidade do Arraiol, no arquipélago do Bailique. Íamos para compartilhar conhecimento e tecnologia: ministraríamos uma aula demonstrativa de como fazer AçaíTinto em casa para um grupo de trinta moradores, vindos de uma dezena de comunidades.
A viagem: o risco normalizado
Ao entrar no barco, bati os olhos nos salva-vidas e fui tomado por um choque. Parei. Olhei de novo. Não era possível.
Pensei na nossa idade — eu com setenta e oito anos, Janete com setenta e seis — e nas mais de trinta pessoas que viajavam conosco, todas confiando naquele transporte para uma travessia de quatorze horas pelo rio Amazonas.
Pensei em desembarcar. Era a decisão prudente. Mas pensei também no Arraiol, que aguardava ansiosamente o segundo módulo da oficina — aquele que completa a aprendizagem e torna as pessoas aptas a produzir AçaíTinto em casa. E isso, para quem vive longe de tudo, é renda, autonomia e esperança.
Então veio a pergunta que não quer calar:
O que eu vi no barco? Apenas dois salva-vidas.
Dois salva-vidas para dezenas de pessoas, numa viagem longa, em um dos rios mais imponentes do planeta. Isso não é “descuido”. Isso é abandono. É a naturalização do risco.
E assim seguimos — entre a prudência e o compromisso — enquanto o barco se soltava do porto e o Amazonas abria, diante de nós, o seu caminho longo.
A fronteira entre quem é visto e quem é ignorado
Fazia tempo que eu e Janete não acessávamos o Bailique pelo Amazonas. Nossas idas recentes tinham sido pelo Araguari ou pelo Gurijuba. Dessa vez, ao seguir pelo Amazonas, tive a sensação nítida de atravessar uma fronteira silenciosa: de um lado, o mundo onde o Estado regula e fiscaliza; do outro, o mundo de quem vive nas beiradas dos rios e igarapés amazônicos — onde a lei raramente chega, e a fiscalização quase nunca aparece.
Vejam o Porto do Jandiá. Ali embarcam e desembarcam, todos os dias, centenas de ribeirinhos. Gente real, trabalhadora, que movimenta a economia do rio e sustenta famílias. Mas ali tudo parece invisível — o porto e as pessoas — até para as estatísticas oficiais.
No dia da nossa viagem, não vi uma única autoridade municipal, estadual ou federal para acompanhar e fiscalizar o embarque de tanta gente. Não vi ninguém para exigir segurança. Não vi ninguém para cobrar o mínimo.
No barco, armamos nossas redes e fomos ao passadiço observar o movimento. À nossa frente, estava ancorado um barco de linha regular. Zarpou lotado, superlotado. Perguntei ao piloto do nosso barco quantas pessoas ele estimava que iam ali. Ele respondeu, depois de pensar: “Umas cento e cinquenta”. Um absurdo à vista de todos — e, mesmo assim, sem fiscalização.
E não faltavam só salva-vidas. Quando procurei uma lixeira, não encontrei. Some-se a lotação do nosso barco à do barco de linha: eram mais de duzentas pessoas produzindo lixo, sem qualquer estrutura para o descarte adequado. O destino do lixo, na prática, vira o próprio rio.
E no porto — repito — não apareceu um único fiscal para perguntar por lixeiras, por salva-vidas, por lotação, por rádio, por qualquer coisa que lembrasse cuidado com a vida humana e com o Amazonas.
Isso não é detalhe administrativo. Isso é política pública ausente. É o Estado faltando no lugar onde ele deveria estar.
Quando havia Estado, o rio respirava melhor
E não me venham dizer que “não dá” ou que “é assim mesmo”. Já foi diferente. Lembrei da coleta fluvial do tempo do PDSA*, quando governamos o Amapá. Um barco exclusivo percorria as comunidades do Bailique recolhendo lixo e levando-o para a lixeira de Macapá. As partidas eram acompanhadas por fiscais: registravam lotação, impediam embarque irregular de combustíveis, testavam rádios de comunicação, contavam salva-vidas e conferiam lixeiras.
No desembarque, a fiscalização recebia o lixo produzido na viagem de ida e volta — protegendo o rio da poluição.
Ou seja: há precedente, há exemplo, há caminho. O que falta hoje não é solução. Falta vontade, prioridade e presença.
Eu escrevo este relato como denúncia, porque é assim que ele deve ser tratado. O que está acontecendo no Porto do Jandiá e nas viagens para o Bailique é a institucionalização do “cada um por si”. E isso, no Amazonas, não é apenas negligência: é uma fábrica silenciosa de tragédias.
Não aceito que a vida ribeirinha seja tratada como vida de segunda classe. Não aceito que se embarque gente como se embarca carga. Não aceito que um rio do tamanho do Amazonas vire lixeira por ausência de estrutura e fiscalização. E não aceito, sobretudo, que a omissão vire rotina.
Por isso, deixo aqui um apelo direto às autoridades competentes — Prefeitura de Macapá, Governo do Estado, Marinha/Capitania, órgãos ambientais e de vigilância:
• fiscalização regular e ostensiva de embarque e lotação;
• salva-vidas em número compatível com o total de passageiros;
• lixeiras obrigatórias a bordo e estrutura de descarte no porto;
• recolhimento do lixo nas comunidades com logística fluvial;
• checagem de comunicação e requisitos mínimos de segurança.
O Amazonas não pode continuar pagando o preço da omissão.
Quando o Estado desaparece do rio, o risco vira cotidiano — e o cotidiano, cedo ou tarde, vira luto.
*PDSA: Programa de Desenvolvimento Sustentável do Amapá.
(*) Prefeito de Macapá, governador e senador do Amapá. Autor da Lei Complementar nº 131/2009 (Lei da Transparência). Empreendedor da economia verde.








