É madeira que guarda memórias, é ponte que nos liga ao horizonte, é varanda sobre as águas onde o passado encontra o futuro
Por João Capiberibe*

Na foto, eu e Janete curtindo o privilégio de um fim de tarde único, na cabeça do Trapiche Eliezer Levy, em Macapá. O garçom, gentilmente, fez o clique. Depois da foto, Janete olhou para mim, rindo, comentou:
— “O tempo passou, Capi, mas estamos bem na foto!”
Ri junto e concordei. Ela lembrou que trocamos juras de amor passeando de mãos dadas, sonhando com o futuro, aqui neste cenário de encantamento.
Pouco depois, o garçom retornou com nosso pedido, abriu a cerveja e serviu os copos. Aproveitei e perguntei:
— Quando foi inaugurado o restaurante?
— Em abril — respondeu.
— E o trapiche?
— Ah, isso não sei.
Consultei o Google e encontrei a resposta: “O Trapiche Eliezer Levy foi reinaugurado em 27 de dezembro de 2024, após uma revitalização completa, ficando cerca de 10 anos fechado.”
Dez anos? Sim, dez anos de portas cerradas pela segunda vez! Dava dó ver o trapiche abandonado, o cartão-postal da cidade fechado, e as famílias sem trabalho. Janete, então, recordou da minha alegria na festa de reinauguração de 1998 — eu governador, ela deputada estadual. Foi um dia de felicidade em meio às tensões políticas. Entregar o trapiche era, para nós, um acerto de contas com nossa adolescência e, ao mesmo tempo, um aceno para esse futuro em que estamos tomando cerveja, sentindo no rosto a brisa com cheiro de floresta, e enchendo os olhos de paisagem.
Pena ter passado tanto tempo parado, disse Janete, lembrando da primeira vez que o trapiche fechou, que o bondinho parou, e que esse restaurante e a sorveteria da entrada baixaram as portas, deixando tanta gente sem sustento. “Vamos, Capi, faça as contas” — me sugeriu — “de 1998 a 2025, já se foram 27 anos, quantos deles o trapiche ficou fechado?”
Vamos lá!
Depois de inaugurado em julho de 1998, o trapiche funcionou normalmente até o final do meu segundo mandato de governador, em 2002. Meu sucessor, Waldez Góes, assume o governo em janeiro de 2003, manteve o trapiche funcionando até julho daquele ano e, sem razão aparente, resolveu fechá-lo prometendo reabrir seis meses depois. Mas o tempo foi passando… passando… e o trapiche não voltou. Reeleito, governou por mais quatro anos sem que o trapiche fosse reaberto — somando sete anos e meio de abandono.
A história é longa, mas já que chegamos até aqui, seguimos. Em 2011, Camilo Capiberibe assumiu o governo e, seis meses depois, devolveu o trapiche revitalizado ao povo de Macapá e a quem nos visita. Assim ficou até 2014. Mas, em 2015, Waldez Góes voltou a governar o Amapá, dessa vez foi mais rápido: fechou o trapiche em janeiro, no primeiro mês do seu novo mandato, anunciando reformas. Concluiu o terceiro mandato e nada do trapiche. Reeleito, cumpriu o quarto mandato e o trapiche permaneceu fechado. Em resumo: dos dezesseis anos de governo Waldez Góes, o Trapiche Eliezer Levy ficou quinze anos e seis meses fechado.
E, no entanto, aqui estamos outra vez.
O trapiche renasce como renasce o sol ao amanhecer sobre o Amazonas. É madeira que guarda memórias, é ponte que nos liga ao horizonte, é varanda sobre as águas onde o passado encontra o futuro. Cada tábua que range debaixo dos nossos pés parece sussurrar histórias de amor, de encontros, de despedidas, de sonhos adiados e retomados.
Ver o trapiche de volta faz um bem danado!
*Ex-preso político, ex-prefeito, ex-governador, ex-senador, autor da Lei Complementar 131/2009, a Lei da Transparência. Atualmente, empresário da bioeconomia. Ambientalista sempre!








