Segundo especialistas ouvidos pelo ConectAmapá, na prática o ponto central da retórica é a transferência do alvo

Em dois vídeos publicados nas redes sociais ainda nesta quarta-feira, logo após a Polícia Federal deflagrar a segunda fase da Operação Paroxismo que levou ao afastamento do chefe do executivo municipal, o prefeito de Macapá, Antônio Furlan (PSD) e a primeira dama de Macapá, candidata ao senado, Rayssa Furlan, alegaram está sofrendo perseguição política.
“ Olá pessoal diante dos últimos acontecimentos quero me declarar pré-candidato a Governador do Estado. Tudo que a gente esperava está acontecendo: ataques, perseguições, atrasos e a gente sabiam que isso ia acontecer. Mas eles não estão indo contra o Furlan. Estão indo contra a vontade do povo contra a população de Macapá e de todo o estado do Amapá” declarou Furlan no vídeo.
A Vitimização como Linha de Defesa
A fala do prefeito utiliza termos como “ataques” e “perseguições” de forma genérica. Segundo especialista em marketing político ouvidos pelo ConectAmapá, na análise do discurso essa técnica é chamada de “Inimigo Oculto”. Ao não nomear quem persegue (se é o Ministério Público, a Polícia Federal ou a Justiça), o emissor evita o confronto direto com as provas e tenta colocar o processo legal sob suspeição ideológica.
Ainda segundo especialistas a estratégia serve para blindar a imagem pública: se há uma perseguição, qualquer prova apresentada passa a ser vista por seus apoiadores como “fruto de manipulação“.
A Coletivização do Problema: “Contra a População”
“Oi gente! Passando aqui pra falar pra vocês que o que a gente tá vivendo hoje, não passa de perseguição. Mas nós sabíamos que isso poderia acontecer. Quando você decide defender o que é certo, cuidar das pessoas e defnder os interesses que realmente representam o povo, reações como essas de hoje acontecem” disse Rayssa Furlan
Na prática o ponto central da retórica é a transferência do alvo. “O discurso sugere que o avanço das investigações não atinge apenas o gestor, mas sim a população de Macapá e de todo o estado. O objetivo é criar um senso de unidade onde o povo deve “defender” o líder para defender a si mesmo”, afirma o especialista.
O Silêncio sobre os Fatos: O “Elefante na Sala”
As declarações do prefeito e da primeira dama apontam uma lacuna crítica no discurso: a ausência de respostas objetivas. Tanto o prefeito quanto a esposa nada disseram nos vídeos sobre as investigações da Policia Federal que aponta a existência de um esquema criminoso, envolvendo agentes públicos e empresários, voltado ao direcionamento da licitação, ao desvio de recursos públicos e à lavagem de dinheiro no projeto de engenharia e de execução das obras do Hospital Geral Municipal da cidade.
Segundo as investigações, empresas ligadas ao prefeito e à primeira-dama teriam recebido cerca de R$ 3 milhões em depósitos realizados pelo próprio motorista do gestor.
Ao declarar-se pré-candidato imediatamente após o escândalo, o prefeito tenta mudar o assunto da página policial para a página política, ignorando os valores citados e a origem dos depósitos.
“É uma tática para evitar a produção de provas contra si mesmo e manter o debate no campo da “luta pelo poder“, declarou um adversário de Furlan nas redes sociais
Conclusão dos fatos
“O movimento é uma aposta alta na popularidade. Ao se colocar como um “mártir” que sofre para proteger o Amapá, o pré-candidato tenta transformar o desgaste jurídico em capital político. No entanto, essa estratégia depende da capacidade de manter a narrativa emocional mais forte do que a materialidade das provas apresentadas pelos órgãos de controle” analisa o especialista em marketing, já citado.








