Na prática, caberia ao delegado se declarar suspeito e solicitar afastamento da investigação

O inquérito policial que apura a agressão do prefeito de Macapá, Antônio Furlan (MDB), contra o jornalista Heverson Castro e sua equipe, ganhou novo contorno político e jurídico. O delegado Raphael Paulino, responsável pela investigação, concluiu os autos e encaminhou o procedimento ao Juizado Especial Criminal. No entanto, sua postura pessoal e recente movimentação nas redes sociais colocam a imparcialidade da apuração sob forte questionamento.
Delegado era apoiador de Furlan
Internautas resgataram publicações nas quais o delegado exaltava e defendia publicamente a candidatura de Furlan ao governo do Amapá em 2026. Em um dos posts, agora excluídos, Paulino escreveu:
“O povo não esquece quem cuida, quem respeita, quem representa. E mais do que isso… o povo já escolheu. E quando o povo escolhe não há força que reverta. Parabéns, prefeito Furlan. O senhor não precisa prometer – basta aparecer. A resposta está nas ruas.”

Pouco após o episódio de agressão ganhar repercussão nacional, o delegado apagou suas contas nas redes sociais, mas as mensagens já haviam sido salvas e compartilhadas por usuários.
Questionamentos sobre imparcialidade
A vinculação explícita de Paulino ao grupo político de Furlan levanta sérias dúvidas sobre a lisura da condução do inquérito. Na prática, caberia ao delegado se declarar suspeito e solicitar afastamento da investigação, justamente para preservar a credibilidade das apurações. Ao não fazê-lo, manteve-se à frente do caso mesmo tendo histórico público de apoio ao investigado.
A postura reforça críticas de juristas e entidades ligadas à imprensa, que enxergam risco de parcialidade no relatório final e possível comprometimento da confiança da sociedade no trabalho da Polícia Civil.
O que dizem os documentos oficiais

Nos autos obtidos pela reportagem, o delegado descreve versões de testemunhas ligadas à equipe do prefeito, que acusam os jornalistas de desacato e agressões físicas. O documento apresenta Castro e outros dois envolvidos como supostos autores de crimes de menor potencial ofensivo, como vias de fato e ofensas verbais, ao passo que as imagens em vídeo mostram Furlan desferindo agressões contra o jornalista — elemento que a defesa da vítima afirma estar sendo minimizado.
Um inquérito sob suspeição
A exclusão das redes sociais do delegado e a contradição entre seu posicionamento público anterior e sua função como condutor da investigação reforçam o clima de desconfiança. No meio jurídico, já se avalia a possibilidade de questionar a validade do inquérito por suspeição, o que pode levar o caso a ser reavaliado por outra autoridade policial.
O episódio revela não apenas um caso de violência contra profissionais de imprensa, mas também expõe a fragilidade institucional quando a imparcialidade de quem investiga é posta em xeque.








