EXCLUSIVO: inquérito revela como atuava uma das maiores organizações criminosas do estado

Inquérito mostra estrutura sofisticada da FTA, nomes, funções e conexões entre tráfico, lavagem de dinheiro e corrupção pública

Com base em meses de investigação, análise técnica e robusto conjunto probatório, a Polícia Civil concluiu que a FTA mantinha uma das maiores e mais estruturadas redes de crime
Com base em meses de investigação, análise técnica e robusto conjunto probatório, a Polícia Civil concluiu que a FTA mantinha uma das maiores e mais estruturadas redes de crime no Amapá

A Polícia Civil do Amapá deflagrou no último dia 18/11, uma das maiores ações de combate ao crime organizado já registradas no estado, desmantelando a engrenagem interna de uma organização criminosa associada à facção Família Terror do Amapá (FTA). O inquérito policial conduzido pela DRACO/CECCOR, e obtido com exclusividade pelo CONECTAMAPÁ, revela uma rede complexa que unia tráfico de drogas, lavagem de dinheiro em larga escala, corrupção, e — em um dos pontos mais graves — desvio de recursos públicos municipais para financiar atividades criminosas.

As investigações, fundamentadas em quebras de sigilo autorizadas judicialmente, análises financeiras do COAF e extrações completas de celulares de lideranças do grupo, mostram que a facção possuía uma hierarquia bem definida, ramificações em vários municípios e conexões com áreas de fronteira conhecidas por intensa circulação de entorpecentes, como Tabatinga (AM).

A seguir, veja quem são os envolvidos, suas funções dentro da ORCRIM e como cada um participava das engrenagens ilícitas.

O núcleo duro da organização criminosa

Marcelo Henrique da Silva Vilhena — “boca de lata” / “carioca”

Papel: Líder do núcleo operacional da ORCRIM
Marcelo é apontado como comandante central da estrutura criminosa, atuando no topo da pirâmide ao lado de outros operadores experientes. Seu nome aparece no início das investigações como uma das principais referências da facção.

Peter Mayer Silva Nascimento

Papel: Distribuidor direto de drogas
Responsável por entregar entorpecentes a traficantes intermediários, como Rosinaldo “Caco”. Possui histórico criminal por tráfico. Age como peça-chave no abastecimento da rede.

José Rene Fernandes — “suruca”

Papel: Traficante e financiador do núcleo
Mesmo cumprindo pena em regime aberto domiciliar, Suruca continuava ativo na compra e venda de drogas, além de financiar operações internas, incluindo aquisição de cocaína.

Leomar Teixeira dos Santos

Papel: Fornecedor de drogas e articulador financeiro
Atuava principalmente na Zona Sul de Macapá, fornecendo drogas para Rosinaldo e utilizando contas de terceiros — como a de José Diercirlei — para recebimento de valores ilícitos.

Jean Cassio Braga Barbosa

Papel: Integrante do núcleo principal
Listado pela Polícia Civil como parte da formação central da ORCRIM, atuando junto ao grupo de liderança operacional.

A alta cúpula da facção FTA

Jéssica de Sousa Rodrigues — “moranguinho / iraquiana”

Papel: Líder da ala feminina, “geral do Oiapoque”
Figura central do inquérito, Jéssica exercia funções de comando, disciplinamento, articulação do tráfico, gestão de conflitos e circulação de ordens da facção.
Ela enviava salves, administrava “caixinhas” financeiras, controlava o território de Oiapoque e manejava armas pertencentes a líderes.

Além disso, mantinha relacionamento direto com diversos líderes, negociava grandes quantidades de drogas e resolvia conflitos internos entre faccionadas.

Degravações telefônicas comprovam o vinculo da acusada com a facção criminosa.

Luiz Fernando Costa de Carvalho — “hebraico”

Papel: Líder masculino; padrinho de novos membros; articulador de dívidas e compras de drogas
Considerado pela Polícia Civil um dos homens mais influentes da FTA em Oiapoque, Hebraico apadrinhou Jéssica na facção e determinava cobranças, negociações e resoluções de problemas.

Chamado de “Pai Novo” nas conversas interceptadas, exercia autoridade superior sobre Jéssica e outros membros, chegando a declarar que, em sua ausência, “Morango é a voz que decide”.

Também confirmava adquirir cocaína com valores repassados por Suruca, Seco e Diamante, evidenciando sua centralidade no tráfico.

Ligações telefônicas obtidas pela policia comprovam o vinculo do acusado com a FTA. Na conversa Luiz Fernando questiona a indicação de mulheres no comando da fcção criminosa.

Uenderson de Souza Sales — “diamante / paizão / nem / dico”

Papel: Alta cúpula da facção; gestão de armas e tráfico
Embora não seja alvo direto desta investigação (por já integrar outros procedimentos policiais), aparece como ator estruturante da rede, financiando compras de drogas e fornecendo armas à facção.

Co-liderança feminina

Edilene de Souza Santana — “barbie”

Papel: Frente feminina; disciplina, comunicação e tráfico
Barbie dividia com Jéssica a chefia do setor feminino. Enviava mensagens estratégicas, solicitava emissão de “salves”, mediava conflitos dentro do IAPEN e negociava entorpecentes.

Sua influência é explícita: era ela quem recebia áudios internos da penitenciária, repassados por meio de um advogado, para tomada de decisões da facção.

Em conversas telefônicas obtidas pela polícia, Edilene fala com uma comparsa sobre uma suposta “reprimenda” imposta a uma integrante da facção.

Clarice Lima Pereira — “psyzinha”

Papel: Executora e operadora do tráfico
Atuava diretamente na venda e distribuição de drogas, em conjunto com Jéssica, além de envolver seu companheiro em atividades da facção. Suas conversas revelam total inserção na rotina criminosa.

Outros integrantes identificados

O documento menciona ainda nomes como:

  • José Diercirlei Nei de Souza — operador financeiro, responsável por movimentar mais de R$ 3,3 milhões e atuar como “hub” de lavagem, recebendo inclusive valores suspeitos de uma empresa contratada em Vitória do Jari.
  • Lucas Edle Miranda Neves, Yasmin Lacerda da Costa, Glaucia Camargo — recebedores de altas quantias em áreas de fronteira, indicando logística interestadual de drogas.
  • Miller Diego Borges — “Maraca”, Rosinaldo “Caco”, Laryssa Souza, Jean Martel (advogado) — relacionados às operações, embora alguns não sejam alvo direto deste inquérito por já integrarem outras investigações.

Tráfico, lavagem e corrupção: a teia financeira da facção

A investigação confirma que o grupo:

  • movimentava cifras milionárias incompatíveis com a renda dos envolvidos;
  • utilizava empresas de fachada e “laranjas” para girar valores;
  • recebia dinheiro público desviado do município de Vitória do Jari;
  • encaminhava recursos a cidades fronteiriças usadas para entrada de cocaína no país.

A empresa D.F. do Amaral EIRELI, por exemplo, transferiu R$ 100 mil a José Diercirlei enquanto simultaneamente recebia mais de R$ 1 milhão da prefeitura de Vitória do Jari, mesmo funcionando em uma casa de madeira que mais parecia uma pequena oficina.

O golpe da Draco

O inquérito revela uma facção altamente estruturada, com líderes claros, ramificações internas, divisão de funções

Com base em meses de investigação, análise técnica e robusto conjunto probatório, a Polícia Civil concluiu que a FTA mantinha uma das maiores e mais estruturadas redes de crime organizado do Amapá.

As prisões preventivas solicitadas têm como fundamento o risco de continuidade das atividades criminosas, dado que — como aponta a própria Polícia Civil — muitos dos investigados não possuem qualquer renda lícita conhecida e fazem do crime seu “modo de vida”.

Conclusão

O inquérito revela uma facção altamente estruturada, com líderes claros, ramificações internas, divisão de funções, comunicação constante, financiamento robusto e infiltração na administração pública.

A operação é considerada pela Polícia Civil um marco no combate ao crime organizado no Amapá, atingindo em cheio o núcleo financeiro, disciplinar, operacional e bélico da FTA.

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