Na Colônia Agrícola funcionou um verdadeiro campo de concentração de prisioneiros políticos durante a década de 1920

Dois lançamentos editoriais recentes da Gráfica do Senado reacenderam o debate sobre um dos episódios mais sombrios da história brasileira: o uso da Colônia Agrícola de Clevelândia do Norte, no extremo norte do Amapá, como um verdadeiro campo de concentração de prisioneiros políticos durante a década de 1920.
A história brutal da Colônia Agrícola de Clevelândia do Norte — transformada pelo Estado num campo de degredados e presos políticos — voltou à luz graças a pelo menos duas obras importantes. O livro Clevelândia, de Alexandre Samis, lançado em 2024, e História de Oiapoque escrito pela jornalista Sonia Zaghetto e lançado em 2019.
As obras, produzidas a partir de extensa pesquisa documental, revelam as engrenagens políticas, militares e sociais que transformaram a fronteira Brasil–Guiana Francesa em palco de repressão, morte e sofrimento humano e trazem à tona os horrores vividos no que muitos chamam a “Sibéria brasileira.
História de Clevelândia: da colônia agrícola ao “inferno verde”
A localidade que hoje é Clevelândia do Norte começou como o “Núcleo Colonial Cleveland”, fundado oficialmente em 1922 com a proposta de ser uma colônia agrícola — parte de uma estratégia estatal de “povoamento” da fronteira Brasil–Guiana Francesa.
Entretanto, em meio ao contexto de repressão política da chamada “República Velha”, sob o governo de Artur Bernardes, a colônia foi rapidamente convertida num local de degredo: em dezembro de 1924 chegou o primeiro grupo de presos enviados pelos governos de Rio de Janeiro, São Paulo, Pará, Amazonas e outros — majoritariamente tenentistas, operários sindicalistas, anarquistas, militantes políticos, além de presos comuns.
Estimativas indicam que, no pico, entre 946 e 1.630 pessoas foram confinadas.

Sofrimento, morte e resistência: o cotidiano no campo de concentração
As condições de vida eram extremamente precárias: alojamentos inadequados, clima equatorial hostil, trabalho forçado em serrarias, plantações e extração de pau-rosa — tudo sem remuneração, sob regime de vigilância militar.
Entre os prisioneiros, muitos adoeceram e morreram por doenças tropicais: malária, disenteria bacilar, beribéri, desidratação — agravadas pela falta de assistência médica adequada. Relatórios oficiais apontam que dos 946 presos, 491 morreram e 262 conseguiram fugir.
As descrições dos sobreviventes e de observadores da época falaram em “inferno verde”, “Sibéria tropical” — marca de violência de Estado, repressão política e tentativa de aniquilar opositores.
Apesar do trauma, muitos detentos resistiram: houve relatos de alfabetização, de organização política dentro da colônia e de fugas dramáticas, denunciando a brutalidade e a arbitrariedade do regime prisional imposto.
“Clevelândia”: o campo de concentração ocultado pela história oficial

Lançado em 2024, o livro Clevelândia, de Alexandre Samis, reconstrói a trajetória da colônia que, embora criada oficialmente como “agrícola”, foi convertida rapidamente em um complexo aparelho de confinamento de opositores do governo durante a República Velha.
A partir de investigação em arquivos brasileiros e estrangeiros, o autor mostra que para o local foram enviados trabalhadores e operários imigrante, lideranças políticas e sindicalistas, tenentes rebelados do movimento tenentista e militantes e opositores do regime político da época
Os números dão dimensão da tragédia: centenas de prisioneiros morreram de doenças tropicais, fome e exaustão. Entre os sobreviventes, muitos carregaram sequelas físicas e psicológicas por toda a vida.
A historiadora Marly Viana define a obra como o resgate de “uma triste história, parte da permanente repressão aos trabalhadores brasileiros”.

Já o professor Amir el Hakim de Paula pergunta:
“Colônia penal? Campo de concentração? Eliminação de oponentes? Será possível que tudo isso existiu no Brasil?”
E ele próprio responde ao destacar que o livro evidencia a violência de Estado da época, mas também a resistência dos que lutaram por um país mais justo e humanizado.
Com 480 páginas de documentos, fotos raras, relatos de sobreviventes e material inédito, a obra de Samis já é considerada uma das pesquisas mais completas sobre a repressão política no Norte do Brasil.
“História de Oiapoque”: a fronteira esquecida e o passado apagado

Escrito pela jornalista Sonia Zaghetto e lançado em 2019, História de Oiapoque apresenta uma jornada de cinco séculos pela região marcada pelo rio Oiapoque — fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa.
A obra revela o conflito secular pela posse da região, disputada por Portugal, França e, mais tarde, pelo recém-independente Brasil; A decisão arbitral de 1900, feita pelo governo suíço, que incorporou definitivamente o território ao Brasil; As tentativas do Estado brasileiro de povoar e controlar a fronteira; O uso da área como local de degredo, inclusive para os rebelados tenentistas dos anos 20 e a vida dura e quase invisível dos moradores de uma região distante dos centros do poder.
A pesquisa se baseia em mais de 600 documentos — muitos pertencentes ao arquivo de Rocque Pennafort, avô da autora, localizado nos Estados Unidos — e inclui entrevistas com antigos moradores, fotografias históricas, mapas e gravuras.
O livro remove “a poeira do tempo” e revive episódios que vão desde expedições coloniais até o início da Colônia Agrícola de Clevelândia do Norte, que mais tarde seria convertida no campo de confinamento.
Quando dois livros se encontram: o horror e a fronteira
Embora distintas em abordagem, as duas obras se complementam:
- “História de Oiapoque” mostra o pano de fundo geopolítico e a ocupação da fronteira.
- “Clevelândia” aprofunda o capítulo mais trágico dessa história: o momento em que a região foi usada pelo Estado para punir, isolar e exterminar opositores políticos.
Os livros recolocam o Oiapoque — muitas vezes lembrado apenas pelo marco geográfico do “Brasil começa aqui” — no centro de uma narrativa sobre repressão, resistência e apagamento histórico.

Por que a história de Clevelândia importa hoje
- Memória histórica: Ao revisitar documentos, testemunhos e fotografias, as obras resgatam a memória dos perseguidos políticos, trazendo à tona uma página sombria da história brasileira marcada por repressão, sofrimento e apagamento.
- Justiça histórica e reparação simbólica: Reconhecer Clevelândia como campo de concentração é um passo para valorizar a memória das vítimas e alertar contra a repetição de práticas autoritárias.
- Conscientização social e política: A história demonstra como regimes democráticos, mesmo no início da República, recorreram a métodos draconianos para silenciar opositores — um alerta permanente às ameaças contra direitos civis e liberdades.
- Identidade regional: Para a população de Oiapoque e do Amapá, conhecer essa história contribui com uma visão crítica sobre as origens sociais e políticas da região, e ajuda a preservar a memória coletiva de sofrimento e resistência.
Ao revelar documentos inéditos e relatos de sobreviventes, as publicações do Senado reforçam a urgência de preservar a memória de Clevelândia do Norte para honrar as vítimas, para compreender os mecanismos de repressão da República Velha, e para que episódios como esse jamais voltem a ocorrer.
A história do Oiapoque, marcada por luta, dor e sobrevivência, finalmente ganha o a importância que durante décadas lhe foi negado.








