O distrito, fundado oficialmente em 23 de janeiro de 1770 com o nome de Nova Mazagão, nasceu de uma decisão da Coroa Portuguesa

No coração do Amapá, às margens do rio Mutuacá, Mazagão Velho chega aos 256 anos como um dos símbolos mais fortes da formação histórica e cultural amazônica. O distrito, fundado oficialmente em 23 de janeiro de 1770 com o nome de Nova Mazagão, nasceu de uma decisão da Coroa Portuguesa de transferir para o Norte do Brasil famílias retiradas da antiga cidade-fortaleza de Mazagão, no atual Marrocos, desativada em 1769.
A travessia atlântica não trouxe apenas gente: trouxe memória, devoção e um modo de viver. Aproximadamente 340 a 360 famílias foram deslocadas primeiro para Belém e, depois, instaladas na nova vila no território amazônico — uma operação que a historiografia registra como parte do projeto português de ocupação e defesa da região.
Com o passar do tempo, Mazagão Velho consolidou-se como um lugar onde passado e presente se misturam em ruas, igrejas, tradições e celebrações populares. E entre essas celebrações, uma se impõe como marca identitária do povo amapaense.
Festa de São Tiago: a maior e mais antiga tradição cultural do Amapá
Considerada o maior patrimônio simbólico de Mazagão Velho, a Festa de São Tiago é apontada por instituições culturais como uma celebração secular, realizada desde o século XVIII, que combina fé católica, teatralidade popular e memória histórica. O IPHAN no Amapá descreve a festividade como uma representação da batalha entre mouros e cristãos reproduzida em diversas regiões do Brasil e registra que a festa é realizada desde 1772, com inventário patrimonial em andamento.
Na prática, a tradição ganha corpo nas ruas com encenações, cortejos e rituais que culminam na conhecida dramatização da luta simbólica entre os dois exércitos — um espetáculo a céu aberto que atrai moradores, visitantes e pesquisadores. A devoção, trazida pelos colonos da antiga Mazagão africana, atravessou continentes e séculos para se tornar, no Amapá, um dos mais fortes elementos de identidade coletiva.
A própria história da vila se confunde com a festa: fundada para recomeçar, Mazagão Velho preservou no calendário religioso a lembrança de origem e resistência. A cada julho, a comunidade reafirma que tradição não é apenas repetição — é continuidade cultural, transmissão de saberes e renovação do vínculo entre fé, território e pertencimento.

Uma cidade que “viajou”
Pesquisas acadêmicas descrevem Mazagão como uma “cidade em trânsito”: um deslocamento que levou uma comunidade do Norte da África para a Amazônia, impondo adaptação em um ambiente totalmente diferente, mas mantendo referências culturais e religiosas como forma de sustentar a própria identidade.

É essa singularidade — África, Europa e Amazônia no mesmo enredo — que faz de Mazagão Velho um território de memória viva. Em seus 256 anos, o distrito segue sendo um ponto de encontro entre história e futuro, com uma celebração que, mais do que festa, é patrimônio: a Festa de São Tiago, a tradição que há mais de dois séculos atravessa gerações e permanece como uma das maiores expressões culturais do Amapá.
Celebração
Nesta sexta-feira, 23, autoridades e comunidade celebraram juntos os 256 anos de Mazagão Velho. A programação, organizada pela própria comunidade com apoio do Governo do Estado e da Prefeitura.

“Mazagão é o berço da cultura do Amapá. Foi palco de momentos importantes que ajudaram a moldar quem somos hoje. São 256 anos de história, e a Vila de Mazagão Velho conta muito da nossa trajetória. Como política pública, o Governo do Estado apoia esses momentos históricos e os festejos, que reúnem a dimensão religiosa, histórica e festiva. Neste ano, mais uma vez, seguimos garantindo esse apoio”, destacou Clécio Luís.
A celebração iniciou às 6h, com uma corrida de 5 quilômetros. Em seguida, após a missa celebrada pelo padre Flaviano Santos, ocorreu a representação simbólica da chegada dos povos da Europa, da África e da América do Sul, seguida da execução dos hinos e do tradicional corte do bolo. Além das autoridades locais, a cerimônia contou com a presença do presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre, do senador Randolfe Rodrigues e do ministro Waldez Góes.








