Mais que espaços de resistência cultural, os quilombos do Amapá se revelam como territórios-chave para a preservação de um dos biomas mais importantes do planeta

Um novo estudo divulgado pelo Instituto Socioambiental (ISA) e pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) revela, com precisão inédita, o papel estratégico dos territórios quilombolas na Amazônia Legal — e coloca o Amapá entre os estados onde essas comunidades exercem maior impacto na conservação ambiental.
Segundo o levantamento “Amazônia Quilombola: Ampliando a Cartografia sobre os Quilombos na Amazônia Legal”, o Amapá possui 44 territórios quilombolas já mapeados, representando 4,9% do total existente na Amazônia Legal. Esses territórios ocupam 150.356 hectares, o equivalente a 1,06% da área total do estado, um percentual elevado considerando sua extensão territorial.

Dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) disponibilizou dados por meio do Acervo Fundiário registra, em 08.08.2025, a existência de 1.937 processos de regularização fundiária, sendo 603 na Amazônia Legal. Dos processos abertos no território nacional, o INCRA registra 201 territórios titulados integralmente e 580 territórios em fases anteriores à titulação integral .

Mais que números, o estudo evidencia uma realidade que a população amapaense já conhece de perto: os quilombos são barreiras naturais contra o avanço da degradação ambiental.
Proteção ambiental: o Amapá na vanguarda da preservação
A análise do uso e cobertura da terra mostra que os territórios quilombolas amapaenses são áreas onde a floresta está mais preservada.
De acordo com os dados apresentados:
- 84.921 hectares desses territórios são de cobertura florestal primária;
- 58.119 hectares possuem vegetação herbácea e arbustiva, igualmente protegida;
- Há ainda 2.926 hectares de corpos d’água, como igarapés, lagos e áreas de várzea.
O percentual de áreas degradadas ou convertidas para agropecuária é mínimo — fato que coloca o Amapá entre os estados com maior integridade ambiental dentro dos territórios quilombolas.
Essas informações reforçam o papel dos quilombos na manutenção de serviços ecossistêmicos essenciais, como regulação climática, proteção de nascentes, conservação da biodiversidade e resiliência frente às mudanças climáticas.
Mapeamento histórico e participação ativa das comunidades

O levantamento foi possível graças a um amplo processo de validação participativa que contou com a colaboração direta da Coordenação Estadual das Comunidades Negras Rurais Quilombolas do Amapá (CONAQ-AP). As lideranças quilombolas prestaram apoio técnico, forneceram informações territoriais, revisaram mapas e ajudaram a construir a cartografia mais atualizada já elaborada sobre quilombos na Amazônia.
Pela primeira vez, dados do IBGE, Fundação Cultural Palmares, Ministério Público Federal e projetos independentes foram integrados em uma única base, permitindo visualizar a abrangência real das comunidades tradicionais.
Para realizar esse trabalho, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), as coordenações estaduais de representação das comunidades quilombolas e o Instituto Socioambiental (ISA) contaram com parte expressiva dos quadros institucionais de colaboradores, nas diversas áreas de conhecimento, e estabeleceram diálogos com diversos órgãos e entidades, como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), a Fundação Cultural Palmares (FCP), o Ministério Público Federal, o Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos (IMESC), o Projeto Conexão Povos da Floresta, o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), entre outros.
Com esta publicação, a CONAQ amplia o retrato dos quilombos e territórios quilombolas na região que reúne mais de 30% da população quilombola do país, enriquecendo, assim, o conhecimento sobre a diversidade territorial na Amazônia. O conjunto das informações produzidas nesta iniciativa está disponibilizado no painel “Amazônia Quilombola”1, que permite visualizações geoespaciais interativas dos dados
Territórios que guardam a floresta

O estudo aponta que apenas 5,5% de toda a área quilombola mapeada na Amazônia Legal sofre algum tipo de impacto de agropecuária ou ausência de vegetação — e o Amapá se destaca justamente por estar entre os estados com menor índice de transformação humana em seus territórios quilombolas.
Isso significa que o modo de vida tradicional — baseado no extrativismo sustentável, agricultura de pequena escala, pesca artesanal e uso comunitário dos recursos naturais — desempenha um papel silencioso, mas poderoso, na contenção do desmatamento e na proteção das florestas.
Um patrimônio socioambiental para o futuro do Amapá

Mais que espaços de resistência cultural, os quilombos do Amapá se revelam como territórios-chave para a preservação de um dos biomas mais importantes do planeta.
Eles garantem:
- proteção de áreas de alta biodiversidade;
- manutenção de corredores ecológicos;
- conservação de recursos hídricos;
- estabilidade climática regional.
Além disso, reforçam a identidade, a história e a presença de um povo que há séculos protege a floresta enquanto dela vive — e que agora ganha visibilidade por meio do maior levantamento cartográfico já produzido sobre quilombos na região.
O Amapá, que já se destaca nacionalmente pela elevada cobertura florestal, vê nos territórios quilombolas uma das principais fortalezas de sua política natural de preservação.








