Sócia de ONG que recebeu milhões em emendas para projeto no Amapá é uma aposentada do Rio

Sócia de ONG que recebeu milhões em emendas para projeto no Amapá é aposentada do Rio

Por Anita Prado

No endereço da sócia do instituto fica em Vila Isabel, na Zona Norte do Rio. No local mora uma idosa em uma casa simples
Sócia de ONG que recebeu milhões em emendas para projeto no Amapá

De acordo com matéria da revista VEJA, uma investigação da Controladoria-Geral da União (CGU), requerida no âmbito da ADPF 854, colocou no centro de um esquema de emendas parlamentares no Norte do país uma entidade sediada no Rio de Janeiro — a INATOS — cuja sócia é uma mulher aposentada do Estado do Rio. O escopo dessa análise revela graves indícios de irregularidades no uso de recursos federais para a execução de projeto no Amapá. VEJA+1

O Instituto Nacional de Assistência, Trabalho, Oportunidade e Saúde (INATOS), registrado em nome da aposentada Alice Maria Neves, de 72 anos, recebeu R$ 34,5 milhões em emendas parlamentares entre 2020 e 2024.

No endereço da sócia do instituto fica em Vila Isabel, na Zona Norte do Rio. No local mora uma idosa em uma casa simples e, segundo vizinhos, ouvidos pela reportagem, “está aposentada há muitos anos”. Também nunca contribuiu para o INSS. Apesar disso, consta como única responsável pela ONG que aparece no centro das suspeitas de irregularidades na execução de emendas parlamentares.

O projeto no Amapá

Segundo o relatório citado pela VEJA, o convênio questionado envolvia cerca de R$ 19,2 milhões destinados à implementação do projeto “Conexão Norte”, que previa a criação de 81 núcleos esportivos em dez municípios do Amapá, com aproximadamente 8.000 beneficiários — entre crianças, adolescentes, adultos e idosos — para atividades como futebol, jiu-jitsu, capoeira, vôlei, dança e musculação.

Contudo, a CGU concluiu que a INATOS não comprovou capacidade operacional para executar um programa de porte desse fora do Rio de Janeiro — embora seu estatuto e CNAE fossem compatíveis, não havia indícios de estrutura no Norte para dar suporte à execução.

Em visita in loco em 13 de agosto de 2025 (sem aviso prévio), técnicos da CGU verificaram que as instalações da ONG limitavam-se a duas sedes no bairro de Vila Isabel (Rua General Zenóbio da Costa – administrativa; Rua Visconde de Santa Isabel – social) no Rio de Janeiro. A estrutura predial comportava apenas atividades administrativas ou teóricas. Foi ainda relatada a existência de “um escritório na Barra da Tijuca”, supostamente destinado à gestão de projetos de emendas parlamentares, porém seu endereço não foi informado.

Outros indícios de irregularidade

O relatório da CGU apontou ainda:

  • Os atestados de experiência prévia apresentados pela INATOS para capacidade de execução eram referentes a projetos realizados no Rio de Janeiro (qualificação profissional e envelhecimento ativo), sem replicação comprovada em regiões norte-amazônicas. Portanto, foram considerados insuficientes para justificar atuação no Amapá.
  • Empresas contratadas para frete eram sediadas no Rio de Janeiro, sem indicação do local de coleta do material, o que afeta diretamente o custo do serviço.
  • Contratos de assessoria de monitoramento também apontavam empresas fluminenses, o que para a CGU poderia elevar custos ou comprometer qualidade da execução fora da base local.
  • A ONG não respondeu a ofício da CGU, enviado em 8 de setembro de 2025 com prazo até 12 para esclarecimento sobre a prestação de contas.

Quanto aos valores e emendas vinculadas

Além do convênio de R$ 19,2 milhões para o Amapá, a VEJA apurou que a INATOS teria recebido valores adicionais via emendas parlamentares: cerca de R$ 3 milhões de um deputado fluminense e R$ 6,5 milhões de outro mandato do Rio, sendo que tais projetos até então careciam de comprovação de execução.

A pessoa no centro da ONG

A reportagem aponta que a mulher aposentada está no comando da ONG INATOS — identificada como sócia — residindo no Rio de Janeiro. Apesar do antigo vínculo com o Estado fluminense, a entidade que ela comanda atuou (ou ao menos foi destinada) a atuar em território completamente distinto: o Amapá.

Endereço da sócia do instituto fica em Vila Isabel, na Zona Norte do Rio.

Conexões entre ONGs e atores jurídicos

O levantamento da VEJA identificou que a INATOS faz parte de uma rede de ONGs fluminenses que receberam milhões de reais em emendas parlamentares e que, segundo auditores, apresentam forte interconectividade entre si — entre elas a IPGIAS e a Con‑tato (atual CPASC) — todas sob investigação da CGU.

Entre os nomes citados, aparece o advogado Carlos Eduardo Gonçalves (conhecido como “Cady”), que atua como representante jurídico da INATOS, sócio da IPGIAS e ligado à Con-tato/CPASC. VEJA Outra figura de conexão é a gestora de convênios Samira Deodato, que se apresenta nas redes sociais como gerente da Con-tato, mas também atua como gestora em convênios da INATOS e da IPGIAS.

Como a ONG reagiu

Em nota enviada à VEJA, a INATOS afirmou que as informações sobre os convênios com o governo federal são “falsas” ou “equivocadas”. A entidade alegou que o projeto “Conexão Cidadania” (emenda do deputado Carlos Jordy-PL-RJ) “ainda não teve recursos liberados” e que o projeto “Caminho Ativo” (emenda do deputado Juninho do Pneu – União-RJ) “está em fase de estruturação”, com pagamento parcial de R$ 945 mil referente à montagem dos núcleos e entrega de materiais esportivos.

Implicações para o Amapá e para o controle de emendas

O fato de uma ONG com sede no Rio, comandada por uma aposentada, ter firmado convênio para atuar no Amapá e estar sob suspeita de incapacidade de execução operacional acende alertas sobre a frouxidão dos mecanismos de fiscalização de emendas parlamentares e convênios federais em regiões distantes das sedes das ONGs. A CGU, no âmbito da ADPF 854, está ampliando auditorias justamente para projetos executados por ONGs fora de sua base tradicional de operação.

Conclusão

A reportagem revela que a ONG INATOS, sediada no Rio de Janeiro e comandada por uma aposentada, figura no centro de suspeitas envolvendo milhões de reais em emendas parlamentares destinadas a projetos no Amapá. A CGU aponta fragilidade técnica para execução no Norte do país, falta de clareza sobre estrutura local e contratos com fornecedores fora da região. A entidade nega irregularidades, mas a situação exige apuração rigorosa. Para os interesses públicos do Amapá, o caso levanta questões relevantes sobre transparência, controle de emendas e execução regional de convênios federais.

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