Artigo / Quando o silêncio mata: o feminicídio que insiste em nos atravessar

Os números não deixam espaço para relativizações. Quatro mulheres são assassinadas por dia no Brasil

O caso recente de Paula, jovem que havia participado de um concurso de miss dos bairros, expôs mais uma vez a ferida aberta

Somente no último final de semana, duas mulheres tiveram suas vidas interrompidas pelo mesmo roteiro cruel que se repete diariamente no Brasil: machismo, misoginia, patriarcado — e, no seu estágio final, o feminicídio. Um câncer social que corrói famílias, comunidades e o futuro de um país inteiro. Um mal que, longe de ser combatido com a urgência necessária, foi normalizado, banalizado e até incentivado por discursos de ódio proferidos por autoridades públicas, inclusive por mulheres que, de forma estarrecedora, já se declararam favoráveis à violência contra outras mulheres.

Os números não deixam espaço para relativizações. Dados oficiais do Ministério da Justiça e Segurança Pública mostram que o Brasil registrou 1.470 feminicídios em 2025, superando o já alarmante recorde de 1.464 casos em 2024. Isso significa, na prática, quatro mulheres assassinadas por dia. Quatro. Todos os dias. Um índice que se assemelha a estatísticas de conflitos armados e cenários de guerra, mas que seguimos tratando como parte da “rotina”.

No Amapá, a situação é ainda mais chocante. Os registros saltaram de 2 casos em 2024 para 9 em 2025 — um crescimento superior a 400%. Por trás de cada número há um nome, uma história interrompida, uma família despedaçada. Há sonhos que não voltarão a ser sonhados.

O caso recente de Paula, jovem que havia participado de um concurso de miss dos bairros, expôs mais uma vez a ferida aberta. Sua morte gerou comoção, revolta, centenas de manifestações nas redes sociais. Mas, passado o choque inicial, fica a sensação amarga de que tudo termina ali: indignação digital, textos emocionados, perfis com luto temporário — e o sistema segue inalterado.

Quatro mulheres mortas por dia. E nós seguimos rolando a tela do celular.

Chegamos a um ponto em que não é mais possível fingir surpresa. Já passou da hora — passou muito — de convocarmos uma grande frente social contra o feminicídio. Sociedade civil organizada, Ministério Público, Judiciário, parlamentares, governos estaduais e municipais precisam sentar à mesma mesa. Precisamos discutir, com seriedade, políticas públicas de curto, médio e longo prazo. Precisamos sair do discurso e ir para a ação.

É necessário que esse debate se inicie dentro de cada família, das igrejas, dos sindicatos e das associações. As famílias precisam ser chamadas à responsabilidade sobre esse tema, que afeta a todos, e os pais devem ser os primeiros a cumprir o papel de promover a educação de seus filhos contra o machismo reinante na nossa sociedade. Igrejas, associações e sindicatos, por extensão, também precisam assumir essa responsabilidade e debater a questão.

Por parte do Estado esse tema precisa ser levado as escolas. É ali que se forma o caráter. Precisamos educar meninos para entenderem que “não” é não, que mulher não é propriedade, que amor não combina com controle, violência ou posse. Precisamos formar uma geração que respeite mulheres, negros, pessoas LGBTQIA+, que respeite as diferenças e compreenda que igualdade não é ameaça — é civilização.

É preciso, sim, enterrar essa cultura assassina e construir outra no lugar. Uma cultura de respeito, empatia e responsabilidade coletiva.

Ontem foi a Paula. Amanhã pode ser nossas filhas, nossas irmãs, nossas mães. Ou reagimos agora, com coragem e compromisso, ou carregaremos para sempre o peso do nosso silêncio. E da nossa indiferença diante de tantas mulheres que morreram — e continuam morrendo — sem que tenhamos feito o suficiente para impedir.

Por Dmiciano Gomes: jornalista e advogado

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