Em seis anos a prefeitura foi alcançada por investigações que envolvem desde desvios de recursos federais até apuração de corrupção em obras e licitações

Entre 2021 e 2026, período que abrange as duas gestões do prefeito Antônio Furlan (MDB) à frente da Prefeitura de Macapá, a administração municipal esteve no centro de quatro operações da Polícia Federal e uma ação formal de investigação, todas relacionadas a suspeitas de irregularidades em contratos públicos ou crimes eleitorais. Levantamento realizado pelo CONECTAMAPÁ com base em comunicados oficiais da PF mostra que, em seis anos de mandato, a prefeitura foi alcançada por investigações que envolvem desde desvios de recursos federais até apuração de corrupção em obras e licitações.
Ao todo, três operações investigam supostos desvios de recursos públicos, uma apura crime eleitoral e uma ação investigativa mira suspeitas de corrupção em contratos municipais.
Operação Carburante
A primeira delas foi a Operação Carburante, deflagrada em dezembro de 2021, ainda no primeiro ano da gestão. A PF investigou um esquema de desvio de verbas federais destinadas ao combate à Covid-19, com foco na Secretaria Municipal de Saúde. Segundo a Polícia Federal, o prejuízo estimado ultrapassa R$ 1 milhão, envolvendo fraudes em gastos com combustível, diárias e logística de transporte.
No decorrer das investigações verificou-se que agentes públicos (ocupantes de cargos comissionados) lotados na Secretaria Municipal de Saúde se associaram para desviar valores, por meio de fraudes em abastecimento de veículos, em lançamentos de diárias, que são valores pagos ao servidor quando ele viaja no interesse do serviço, além de gastos com compra de água e alimentação
Operação e-Hailing
Em julho de 2022, a PF e o Ministério Público Federal deflagraram a Operação e-Hailing, voltada à apuração de compra de votos e transporte irregular de eleitores nas eleições municipais de 2020. Mandados foram cumpridos em endereços ligados à estrutura municipal. Embora a investigação tenha natureza eleitoral e não financeira, ela colocou a prefeitura no centro de apurações sobre abuso de poder político e econômico. O volume de recursos envolvidos não foi divulgado oficialmente.
Operação Plattea
Já em setembro de 2024, a PF lançou a Operação Plattea, que investiga suspeita de fraude e pagamento de propina em obra de urbanização e paisagismo custeada com recursos federais transferidos ao município. A investigação aponta a existência de repasses indevidos a agentes públicos ligados ao contrato.
A investigação revelou Contrato de Repasse da União, no valor de mais de R$ 10 milhões para o Município de Macapá, destinado à urbanização, paisagismo e aterro hidráulico da Rua Beira Rio, em que possui indícios de fraude na execução.
Conforme apurado, após a aprovação dos boletins de medição no início da obra, a empresa vencedora da licitação teria pago vantagens indevidas, em média 5% do valor a que tinha direito pelo serviço prestado, para servidores públicos municipais.

No total, mais de R$ 500 mil podem ter sido pagos indevidamente. Os investigados poderão responder pelos crimes de organização criminosa, corrupção ativa, corrupção passiva, concussão e lavagem de dinheiro
Operação Paroxismo
Em setembro de 2025, a Polícia Federal deflagrou a Operação Paroxismo, que apura fraude em licitação, desvio de verbas e lavagem de dinheiro em contrato conduzido pela Secretaria Municipal de Saúde para obras do Hospital Geral Municipal. O contrato sob investigação tem valor de R$ 69,3 milhões, sendo um dos maiores já analisados em apurações envolvendo a prefeitura no período.
De acordo com as investigações, há indícios da existência de um esquema criminoso estruturado, envolvendo agentes públicos e empresários, voltado ao direcionamento da licitação, desvio de recursos públicos e pagamento de propinas no projeto de engenharia e execução das obras do Hospital Geral Municipal da cidade. O contrato, formalizado em maio de 2024.

Ação de Investigação
Mais recentemente, no último dia 3 fevereiro de 2026, a PF realizou o cumprimento de mandados no Amapá em uma ação de investigação sobre corrupção em licitações públicas municipais, com diligências em Macapá. A corporação não divulgou o nome formal da operação nem o montante de recursos sob suspeita, mas confirmou que a investigação envolve contratos de obras públicas e possíveis práticas de corrupção.
Emendas Pix
O levantamento não levou em consideração a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino, que em 2025 mandou suspender o repasse de recursos de obras das chamadas “Emendas Pix”, em razão de uma série de irregularidades apontadas em relatório da Controladoria Geral da União (CGU). O documento apontou superfaturamento, direcionamento licitatório e irregularidades na execução das obras.
Escândalos
Em praticamente todos os casos, Antônio Furlan optou em mater silêncio sobre as investigações envolvendo escândalos como, por exemplo, o repasse de dinheiro por um empreiteiro para sua ex-esposa e a participação do motorista do prefeito em saques acima de cem mil reais em agências bancárias de Macapá.
Cenário incomum
Somadas, as investigações desenham um cenário incomum para uma gestão municipal: em seis anos de administração, a Prefeitura de Macapá acumula quatro operações federais — três delas focadas em desvio de recursos públicos —, uma operação por crime eleitoral e uma ação investigativa por corrupção, todas conduzidas pela Polícia Federal. O conjunto de apurações mantém a prefeitura no centro de investigações que atravessam praticamente todo o período do mandato.








