Hospitalduto: Cerca de R$ 10 milhões foram sacados em espécie e transportados em mochilas

O episódio aparece em documentos da Polícia Federal citados na decisão do ministro Flávio Dino

Sócios da empresa Santa Rita Engenharia Ltda. realizaram 59 saques em espécie, totalizando R$ 9.892.800,00

A investigação sobre a licitação de R$ 69 milhões para construir o Hospital Geral Municipal de Macapá  mostrou um padrão incomum de movimentação financeira: quase R$ 10 milhões sacados em dinheiro em espécie e transportados em mochilas.

O episódio aparece em documentos da Polícia Federal citados na decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, no âmbito da Operação Paroxismo, que investiga suspeitas de fraude e desvio de recursos públicos no município.

Segundo a apuração, após a assinatura do contrato com a empresa responsável pela obra, começou uma sequência de saques que os peritos classificaram como “movimentação financeira sistemática e anômala”.

59 saques em menos de dois anos

Entre janeiro de 2023 e setembro de 2024, os dois sócios da empresa Santa Rita Engenharia Ltda. realizaram 59 saques em espécie, totalizando R$ 9.892.800,00.

De acordo com a análise financeira da investigação:

  • Rodrigo de Queiroz Moreira realizou 42 saques, somando cerca de R$ 7,4 milhões;
  • Fabrizio de Almeida Gonçalves efetuou 17 operações, que totalizaram R$ 2,46 milhões.

A cronologia das operações chamou a atenção dos investigadores, uma vez que os saques ocorriam logo após os repasses do contrato feitos pela prefeitura à empresa.

O dinheiro público entrava na conta da construtora e, em seguida, era retirado em espécie.

Segundo os documentos da diligência policial, os valores não retornavam ao sistema bancário e não havia registro de pagamentos relacionados à execução da obra.

O saque de R$ 850 mil na véspera de Natal

Um dos episódios destacados pela investigação ocorreu em 23 de dezembro de 2024, quando Rodrigo Moreira sacou R$ 850 mil em espécie em uma agência do Banco do Brasil. A operação foi documentada pela Polícia Federal.

De acordo com a decisão judicial, funcionários da agência retiraram da gaveta uma grande quantidade de cédulas, principalmente notas de R$ 50 e R$ 100, que foram entregues ao empresário.

Rodrigo deixou o banco acompanhado de outra pessoa – ainda não identificada.

Outro caso considerado relevante pelos investigadores ocorreu em 23 de maio de 2025, quando equipes da Polícia Federal monitoravam Rodrigo Moreira no instante em que ele chegou a uma agência bancária no centro de Macapá.

Após entrar no banco, Rodrigo saiu carregando uma mochila preta. Dados do próprio banco confirmaram que, naquele momento, havia sido realizado saque de R$ 400 mil na conta da empresa.

Rodrigo Moreira deixou a agência e seguiu para seu apartamento, onde permaneceu cerca de 10 minutos. A PF aponta que o intervalo poderia ter sido utilizado para conferência ou redistribuição do dinheiro.

Em seguida, ele foi até o Laboratório Dr. Paulo Albuquerque, também localizado no centro da capital.

A troca da mochila

Segundo o relatório policial, um homem entrou no laboratório e saiu cerca de 10 minutos depois acompanhado de outro indivíduo.

Este segundo homem carregava a mochila preta. Ele embarcou em um Fiat Cronos branco estacionado nas proximidades e deixou o local.

Os policiais iniciaram acompanhamento do veículo, mas a perseguição foi interrompida para evitar exposição da operação.

Uma consulta aos registros oficiais revelou que o carro estava em nome de Antônio Paulo de Oliveira Furlan, então prefeito da cidade

O padrão se repete

A Polícia Federal registrou novos episódios semelhantes em junho de 2025.

Em uma das diligências, agentes observaram a presença de um homem identificado como Hulgo Márcio Bispo Corrêa, ligado a uma clínica associada ao prefeito.

O indivíduo foi visto aguardando nas proximidades do laboratório enquanto novas movimentações bancárias ocorriam.

Dois dias depois, outra vigilância identificou novamente o Fiat Cronos do prefeito estacionado nas imediações de uma agência bancária enquanto os empresários investigados realizavam novos saques.

O homem visto acompanhando as movimentações funcionaria como elo logístico no transporte dos valores.

A cadeia de evidências

A decisão do Supremo descreve a sequência registrada pela apuração como uma cadeia probatória relevante.

Segundo os investigadores, o padrão se repetia:

  • entrada de recursos públicos na conta da empresa;
  • saque imediato em dinheiro;
  • transporte em mochila;
  • passagem por imóveis ligados a aliados políticos;
  • entrega a terceiros vinculados ao prefeito.

Na interpretação dos investigadores, o percurso indica possível repasse dissimulado de vantagem indevida a agentes públicos.

Fonte: Site Metrópoles

COMPARTILHE!

Comentários:

Notícias Relacionadas

error: Conteúdo protegido!!