Chuvas escancaram crise estrutural e levantam questionamentos sobre gestão Furlan após anos de asfalto, praças e pouca solução para alagamentos

A decretação de situação de emergência em Macapá e Santana pelo governador Clécio Luís não é apenas uma resposta às fortes chuvas que atingem o Amapá — é, sobretudo, o retrato de uma crise anunciada.
Com bairros inteiros alagados, famílias desalojadas e água invadindo casas, a população vive, mais uma vez, o drama recorrente do inverno amazônico. Mas desta vez, o cenário vem acompanhado de um ingrediente político inevitável: o colapso urbano reacende críticas diretas à gestão do ex-prefeito Antônio Furlan.
Emergência decretada, cidade colapsada
Diante do agravamento das chuvas, o Governo do Estado mobilizou forças emergenciais para atender famílias atingidas e tentar minimizar os impactos, especialmente em Santana e em áreas críticas da capital.
Mas a medida expõe um problema maior: Macapá não está preparada para a chuva — e isso não é novidade.
Seis anos de gestão e o mesmo problema
Após quase seis anos à frente da Prefeitura de Macapá, Furlan deixa um legado que agora vem sendo duramente questionado.
Durante sua gestão, houve forte investimento em asfaltamento de ruas, revitalização de espaços públicos e construção de praças e obras de apelo visual.
No entanto moradores apontam que faltou prioridade no essencial: drenagem de águas pluviais; rede de esgoto; infraestrutura de saneamento.

Obras novas, problemas antigos
Em vários pontos da cidade, inclusive onde houve obras recentes da prefeitura, o cenário é de revolta: ruas recém-asfaltadas viraram rios, sistemas de drenagem não suportam as chuvas e água invadindo residências e destruindo bens.
Moradores denunciam que, em alguns locais, a chuva se mistura com esgoto, ampliando o risco sanitário. A sensação é de abandono.
Em reportagem publicada nesta semana, moradores do condomínio Florência, construído pela prefeitura na gestão Furlan, relataram que o sistema de drenagem não consegue escoar a água quando chove forte; segundo os relatos, a chuva se mistura com o esgoto e invade apartamentos térreos, causando prejuízos materiais e revolta entre as famílias.
Dados confirmam atraso estrutural
A tragédia das chuvas recolocou em debate uma pergunta incômoda: por que, depois de anos de obras e anúncios, Macapá continua afundando a cada temporal? O próprio material institucional da prefeitura mostra que, nos últimos anos, a gestão municipal concentrou forte vitrine em pavimentação, requalificação de vias, reconstrução de praça e pacote de 40 obras em áreas como esporte, lazer, turismo, habitação e mobilidade. Em fevereiro de 2025, a prefeitura anunciou investimento de mais de R$ 144 milhões em 40 obras. Na ocasião Furlan disse que além das obras que integram o pacote apresentado, a previsão era de que outras também fossem entregues, como as obras de pavimentação e a reconstrução de passarelas.

Cerca de dois anos depois o problema não é apenas perceptível — ele é mensurável. Macapá possui um dos piores índices de saneamento do país, com cobertura de esgoto inferior a 15%, segundo levantamentos recentes do setor. Na prática, isso significa que a cidade cresce sem base estrutural — e paga o preço a cada inverno.
O Ranking do Saneamento 2026, do Instituto Trata Brasil com base em dados do SINISA de 2024, aponta que Macapá tem taxa de esgotamento sanitário de apenas 14,94%, patamar inferior a 15% e citado entre os gargalos mais graves entre capitais brasileiras. O estudo reforça que, sem planejamento, investimento contínuo e boa gestão, não há mudança estrutural consistente no setor.
Crise urbana encontra crise política
O agravamento da situação ocorre em meio a um contexto político delicado. Furlan deixou o cargo após ser afastado por decisão do STF em investigação sobre suspeitas de desvio de recursos públicos. Agora, tenta viabilizar candidatura ao Governo do Estado.
Mas a realidade nas ruas impõe um contraste duro: enquanto o discurso político avança a cidade afunda
O preço da prioridade errada
A crise atual levanta uma discussão central: Macapá foi preparada para a eleição — ou para a chuva?
Enquanto obras de impacto visual avançaram, a infraestrutura invisível — aquela que evita tragédias — ficou em segundo plano. E agora, com a força da natureza expondo as falhas da gestão, quem paga a conta é o cidadão.








