Da rua à dignidade: histórias de superação revelam impacto do Pop Rua Jud no Amapá

Projeto do TJAP transforma vidas, leva Justiça às ruas e mostra que acolhimento pode romper ciclos de abandono, dependência e invisibilidade social

O Pop Rua Jud é uma iniciativa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), criada para garantir acesso rápido, simplificado e efetivo à Justiça

Em meio à dura realidade das ruas de Macapá, histórias como a de “Marina” e “Rafael” revelam que, quando o Estado se aproxima de quem mais precisa, o resultado pode ser a reconstrução de vidas inteiras.

Marina — nome fictício — viveu por anos em situação de rua e dependência de crack. Teve 14 filhos, todos encaminhados para adoção em razão da sua condição. Um histórico marcado por perdas, vulnerabilidade extrema e ausência de perspectivas.

Mas a trajetória começou a mudar. Hoje, após ser acolhida por um projeto institucional, Marina mora em uma área de baixada, trabalha, participa de cursos e se tornou símbolo de superação. Seu 15º filho, diferente dos anteriores, permaneceu sob seus cuidados — um marco que traduz uma ruptura concreta com o passado.

A transformação também alcançou Rafael, outro exemplo emblemático. Desempregado e vivendo nas ruas de Macapá, ele tinha um desejo simples, porém distante: voltar para a casa da mãe, no Rio de Janeiro. Com apoio institucional, conseguiu retornar, reatar vínculos familiares e hoje trabalha em um shopping na capital fluminense.

Ambos são resultados de uma mesma política pública: o programa Pop Rua Jud, executado pelo Tribunal de Justiça do Estado do Amapá (TJAP).

Justiça que sai do gabinete

Coordenado pelo juiz Marconi Pimenta, o projeto atua há três anos diretamente com pessoas em situação de rua. Mais do que uma iniciativa jurídica, trata-se de uma atuação humanizada, que rompe com a lógica tradicional do Judiciário.

Juiz Marconi Pimenta (centro), coordenadoer do programa Pop Rua Jud no Amapá

“Com 33 anos de magistratura, finalmente minha carreira ganhou outro sentido. Saímos dos gabinetes para conhecer e conviver com a realidade de brasileiros que precisam ser ouvidos”, afirmou o magistrado.

A proposta vai além do atendimento formal: é presença, escuta e intervenção direta.

Gabinete por cozinha

Uma das imagens mais simbólicas do programa ocorre semanalmente: juízes, desembargadores, servidores e voluntários trocam as togas por aventais.

Em vez de despachos e audiências, panelas e alimentos. A ação inclui preparo e distribuição de refeições. As pessoas também são atendidas com emissão de documentos, atendimentos de saúde e apoio psicológico, oferta de cursos e capacitação e encaminhamento social e familiar.

Foi nesse contexto que histórias como a de Rafael ganharam desfecho — com o projeto atuando diretamente para viabilizar seu retorno ao convívio familiar.

Em vez de despachos e audiências, panelas e alimentos. A ação inclui preparo e distribuição de refeições. As pessoas também são atendidas com emissão de documentos, atendimentos de saúde e outrosserviços

Entre conquistas e perdas

Apesar dos resultados positivos, a realidade ainda impõe limites duros. Segundo Marconi Pimenta, muitos atendidos chegam em estado crítico de saúde.

Há registros frequentes de mortes, principalmente associadas ao HIV — resultado do uso de drogas com seringas contaminadas e de relações sexuais sem proteção.

“Ganhamos a confiança dessas pessoas. Sem isso, nada acontece. Mas nem sempre conseguimos salvar todos”, reconhece o magistrado.

O que é o Pop Rua Jud

O Pop Rua Jud é uma iniciativa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), criada para garantir acesso rápido, simplificado e efetivo à Justiça para pessoas em situação de rua.

O programa tem como diretriz eliminar barreiras burocráticas; garantir documentação básica; promover inclusão social e assegurar direitos fundamentais.

Na prática, funciona como uma política de resgate de cidadania para uma população historicamente invisibilizada

Expansão e mutirão em Oiapoque

Ainda pouco conhecido por grande parte da população amapaense, o programa vem ampliando sua atuação. No próximo dia 17 de abril, o TJAP realizará, em Oiapoque, o 4º Mutirão Nacional Pop Rua Jud, juntamente com a 4ª Semana do Registro Civil.

A ação ocorrerá no campus do Instituto Federal do Amapá (Ifap), das 8h às 17h, reunindo mais de 30 instituições.

O objetivo é ampliar o acesso à documentação civil, combater o sub-registro, oferecer serviços essenciais, fortalecer políticas de inclusão.

“O trabalho em Oiapoque está alinhado para o êxito do mutirão. Vamos fortalecer a cidadania e ampliar o acesso à Justiça”, destacou Marconi Pimenta.

A juíza auxiliar da Corregedoria, Liége Gomes, reforçou o caráter coletivo da iniciativa:

“A mobilização demonstra o compromisso de garantir acolhimento, escuta qualificada e encaminhamento adequado.”

Muito além da Justiça

O Pop Rua Jud evidencia que o acesso à Justiça, quando aliado à ação social efetiva, pode ir além de decisões judiciais — pode reconstruir trajetórias.

Histórias como as de Marina e Rafael mostram que, mesmo após anos de abandono, é possível reescrever destinos.

No Amapá, o Judiciário vem mostrando que, em determinados contextos, fazer Justiça também é cozinhar, ouvir, acolher — e, sobretudo, não desistir de quem a sociedade já invisibilizou.

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