Indicadores mostram grave déficit em saneamento e infraestrutura básica enquanto investimentos estiveram focados em obras de apelo eleitoral

Em meio a um dos períodos chuvosos mais intensos dos últimos anos, a realidade enfrentada pela população de Macapá expõe um contraste cada vez mais evidente entre discurso político e necessidades reais da cidade.
Nesta terça-feira (14/04) o vereador Marcelo Dias, que há 16 anos ocupa uma cadeira como representante da população macapaense na Câmara de Vereadores da capital, resolveu “fazer palanque” para a gestão do ex-prefeito de Macapá, Antônio Furlan.
Marcelo Dias “confundiu” a construção de praças e passeios públicos com o crescimento de Macapá. O vereador afirmou que, em 16 anos, nunca viu a cidade crescer tanto. No entanto, não apresentou dados que comprovem o suposto crescimento.
Dados do IBGE mostram o crescimento urbano de Macapá revela um dado alarmante: a expansão acelerada dos assentamentos precários na última década. Entre 2010 e 2022, a população vivendo em áreas precárias de serviços públicos praticamente dobrou, passando de 63 mil em 2010 para 127 mil em 2022, aumento de 101%.
Enquanto o vereador tenta vender a construção de praças e espaços de lazer como sinônimo de crescimento urbano, a capital amapaense segue convivendo com problemas estruturais históricos — muitos deles agravados justamente pela ausência de investimentos prioritários.
A confusão entre obras de impacto visual e melhorias efetivas na qualidade de vida revela um equívoco recorrente na gestão pública: tratar intervenções superficiais como solução para problemas profundos.
Indicadores escancaram a realidade
Dados recentes mostram que a situação de Macapá está longe de refletir avanço estrutural. Levantamento do Instituto Trata Brasil aponta que menos de 15% da população tem acesso à coleta de esgoto, colocando a capital entre os piores índices do país.
Além disso, apenas cerca de 14% do esgoto coletado recebe tratamento, evidenciando um sistema precário e insuficiente.
O cenário é ainda mais preocupante quando se observa o abastecimento de água: pouco mais de 40% da população tem acesso adequado, índice muito abaixo da média nacional.
Esses dados ajudam a explicar por que Macapá aparece com frequência entre as cidades com piores indicadores de saneamento do Brasil.

Chuva revela ausência de obras estruturantes
O período de inverno amazônico tem sido implacável ao expor a fragilidade da infraestrutura urbana. Alagamentos recorrentes, ruas intrafegáveis e bairros isolados demonstram, na prática, a falta de investimentos em drenagem urbana e galerias pluviais, pavimentação adequada e sistema de esgoto eficiente.
A ausência dessas obras estruturantes impacta diretamente a saúde pública, o transporte e a mobilidade urbana — problemas sentidos diariamente pela população.
Crescimento não se mede por praças
Embora espaços de lazer tenham sua importância, especialistas em urbanismo e gestão pública são unânimes: qualidade de vida está diretamente ligada a serviços essenciais.
Indicadores como acesso à saúde, transporte coletivo eficiente, saneamento básico e infraestrutura urbana são os verdadeiros parâmetros de desenvolvimento.
Nesse contexto, a priorização de praças e obras estéticas levanta questionamentos sobre o caráter dessas intervenções. Para críticos, trata-se de medidas com forte viés eleitoreiro, que geram visibilidade imediata, mas não resolvem os problemas estruturais da cidade.

O que dizem os números sobre qualidade de vida
Apesar de possuir um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) considerado médio (0,733), Macapá ainda enfrenta desafios significativos como alta incidência de pobreza, superior a 36% da população; desigualdade social relevante; e deficiência em serviços básicos essenciais
Ou seja, os números mostram que o problema não é apenas urbano — é social, econômico e estrutural.
Entenda o problema
A insistência em tratar obras de baixo impacto estrutural como avanço urbano mascara a realidade enfrentada pela população.
Sem investimentos consistentes em saneamento, mobilidade, saúde e drenagem, a cidade segue vulnerável — especialmente em períodos críticos, como o inverno amazônico.

Problemas reais
A situação atual de Macapá deixa claro que desenvolvimento não pode ser medido por obras visíveis, mas sim pela capacidade do poder público de resolver problemas reais.
Enquanto praças são inauguradas, a cidade segue alagada. Enquanto calçadas eram reformadas, o esgoto continua a céu aberto. Enquanto discursos falam em crescimento, os indicadores mostram atraso.
Para a população, a diferença entre propaganda e realidade é sentida — literalmente — na porta de casa.








