A revelação contraria parte do discurso adotado anteriormente pela estatal, que sustentava que as correntes marítimas empurrariam qualquer derramamento para longe da costa brasileira

Um relatório técnico da própria Petrobras reacendeu o debate sobre os riscos da exploração de petróleo na Margem Equatorial brasileira. De acordo com documento apresentado ao Ibama, um eventual vazamento de óleo no bloco FZA-M-59, na chamada Foz do Amazonas, poderia atingir diretamente a costa do Amapá, especialmente os municípios de Calçoene e Oiapoque.
A revelação contraria parte do discurso adotado anteriormente pela estatal, que sustentava que as correntes marítimas empurrariam qualquer derramamento para longe da costa brasileira. Agora, as novas modelagens indicam que o impacto pode alcançar o extremo norte amapaense, colocando em risco ecossistemas sensíveis, comunidades tradicionais, áreas de pesca e reservas ambientais estratégicas.
Segundo o estudo, as simulações consideraram dois períodos distintos do ano — de dezembro a junho e de julho a novembro — justamente por conta das variações de correntes, ventos e marés. Em ambos os cenários, há possibilidade concreta de avanço das manchas de óleo em direção ao litoral do Amapá.
O documento também aponta que os impactos não se restringiriam ao Brasil. Países como Venezuela, Suriname, Guiana, Guiana Francesa e várias ilhas do Caribe também poderiam ser afetados em diferentes níveis, dependendo da época do acidente.
A preocupação ganha peso ainda maior diante de um episódio recente: em janeiro deste ano, durante a perfuração inicial do poço Morpho, houve o vazamento de 18 mil litros de fluido de perfuração. Embora o material não seja petróleo bruto, o caso levantou questionamentos sobre a segurança operacional da atividade.
No Amapá, o debate divide opiniões. De um lado, setores políticos e econômicos defendem a exploração como vetor de desenvolvimento e arrecadação. De outro, ambientalistas, pesquisadores e comunidades tradicionais alertam para os riscos irreversíveis a uma das regiões mais biodiversas do planeta.
A possibilidade de Calçoene e Oiapoque estarem na rota de um eventual desastre ambiental reforça a pressão sobre os órgãos reguladores e amplia o peso político da decisão sobre a continuidade da exploração petrolífera na costa amapaense. Em um estado cuja economia depende fortemente dos recursos naturais, a discussão ultrapassa a esfera econômica e passa a envolver soberania ambiental, segurança territorial e proteção de populações costeiras.







