Entre esperança e preocupação: Petróleo divide opinião de moradores de Oiapoque , aponta Folha

Descoberta de petróleo na costa do Amapá alimenta expectativa de empregos, investimentos e royalties, mas indígenas e pescadores manifestam preocupação com possíveis impactos ambientais

A expectativa também começa a produzir efeitos concretos sobre a cidade

A descoberta de petróleo na costa do Amapá já provoca mudanças e divide opiniões entre moradores de Oiapoque, município mais próximo da área onde a Petrobras realiza trabalhos exploratórios. De acordo com reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, enquanto parte da população enxerga no petróleo uma oportunidade histórica de desenvolvimento, indígenas e pescadores demonstram preocupação com eventuais impactos ambientais e sociais.

A reportagem mostra uma cidade vivendo entre a esperança de uma transformação econômica e o receio das consequências que uma futura produção em larga escala poderá provocar na região.

A Petrobras anunciou em agosto a identificação de petróleo no poço localizado a cerca de 175 quilômetros da costa do Amapá. A descoberta, entretanto, ainda está em fase de avaliação e não significa que a produção comercial esteja garantida.

Esperança de emprego e desenvolvimento

Entre os moradores favoráveis ao avanço da atividade petrolífera, a expectativa está concentrada principalmente na possibilidade de criação de empregos, aumento da movimentação econômica e futura arrecadação de royalties.

A Folha cita estudo do Observatório Nacional da Indústria segundo o qual mais de 50 mil empregos poderiam ser criados no Amapá a partir do desenvolvimento da atividade.

O otimismo já contribui para atrair novos moradores para Oiapoque. A reportagem relata o caso de pessoas que retornaram do exterior ou escolheram a cidade justamente por acreditarem nas oportunidades relacionadas ao petróleo.

A pastora Jacqueline Cadete, por exemplo, mudou-se para Oiapoque no final de 2025 depois de viver na Guiana Francesa e na França. Para ela, a movimentação em torno do petróleo representa uma oportunidade de recomeço.

Petróleo já pressiona estrutura de Oiapoque

A reportagem mostra uma cidade vivendo entre a esperança de uma transformação econômica e o receio das consequências

A expectativa também começa a produzir efeitos concretos sobre a cidade.

Segundo o prefeito Inácio Monteiro Maciel, ouvido pela reportagem, Oiapoque tem recebido novos moradores e poderá precisar praticamente reconstruir sua infraestrutura e ampliar políticas sociais para suportar esse crescimento.

O município tinha cerca de 28 mil habitantes no Censo de 2022, mas a estimativa apresentada pelo prefeito à reportagem é de que atualmente a população possa estar entre 40 mil e 45 mil pessoas.

Esse crescimento também vem acompanhado de problemas. A especulação imobiliária elevou os preços dos imóveis e dos aluguéis, levando famílias de menor renda para bairros periféricos ainda carentes de serviços básicos.

Mesmo assim, parte dos moradores acredita que uma futura produção de petróleo poderá mudar esse cenário.

Indígenas temem consequências ambientais

Se para uma parcela da população o petróleo representa esperança, entre comunidades indígenas existe preocupação.

O cacique Wagner Karipuna, da aldeia Manga, localizada a aproximadamente 20 quilômetros do centro de Oiapoque, disse temer as consequências de um eventual vazamento de petróleo.

A preocupação é que um acidente em alto-mar possa provocar impactos sobre rios e comunidades que dependem diretamente desses recursos naturais.

O cacique também relata mudanças provocadas pelo aumento da circulação de aviões e helicópteros utilizados nas operações, afirmando que o barulho estaria afastando aves e animais utilizados na caça pelas comunidades.

A Petrobras informou que mantém diálogo com comunidades indígenas e com a sociedade civil e que realizou ajustes relacionados ao tráfego aéreo depois de consultas com lideranças locais.

Pescadores também demonstram preocupação

Os pescadores aparecem entre os grupos que acompanham com maior cautela a expansão da atividade.

Joelso Mendonça, vice-presidente de uma entidade que reúne aproximadamente 400 pescadores tradicionais, manifestou preocupação com os possíveis reflexos de um acidente ambiental sobre a comercialização do pescado.

O temor é que até mesmo a percepção de contaminação provocada por um eventual vazamento possa comprometer a venda dos peixes e atingir diretamente famílias que dependem da atividade.

A Petrobras, por sua vez, afirma que seus estudos não apontam probabilidade de o petróleo alcançar a costa em uma eventual ocorrência de vazamento.

Produção ainda pode demorar

Apesar da expectativa criada em Oiapoque e em outras regiões do Amapá, uma eventual produção comercial ainda não deverá ocorrer imediatamente.

A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, afirmou que a produção poderá levar cerca de seis a sete anos para começar.

Além disso, a presença de petróleo no poço Morpho não significa automaticamente que haverá exploração comercial. A Petrobras ainda precisa determinar o volume existente e avaliar a viabilidade econômica da descoberta.

Enquanto essas respostas não chegam, Oiapoque já experimenta transformações provocadas pela expectativa.

A própria presidente da Associação Comercial e Industrial de Oiapoque, Lilma Campos, reconhece a perspectiva de mudanças profundas, mas alerta para expectativas exageradas de enriquecimento rápido.

Assim, a reportagem da Folha retrata uma cidade dividida entre dois sentimentos: a esperança de que o petróleo possa representar empregos, investimentos, royalties e uma nova etapa de desenvolvimento para o extremo norte do Amapá e o temor de que esse crescimento venha acompanhado de impactos ambientais, pressão sobre a infraestrutura e consequências para comunidades tradicionais.

COMPARTILHE!

Comentários:

Notícias Relacionadas

erro: Conteúdo protegido!!