Novo peixe encontrado no sul do Amapá já enfrenta ameça de extinção

O Laimosemion laranja, é conhecido em apenas três áreas e pode estar ameaçado por garimpo e urbanização

Uma espécie de peixe que acaba de ser reconhecida pela ciência já entrou no radar dos pesquisadores por outro motivo: a possibilidade de desaparecer antes mesmo de ser plenamente conhecida. O Laimosemion laranja foi identificado em somente três pontos do sul do Amapá, todos na drenagem do Rio Cajari, em Laranjal do Jari, onde atividades humanas já modificam parte dos ambientes ocupados pelo animal.

A situação chamou atenção porque a área atualmente conhecida é muito pequena. Os autores calcularam 25 km² de extensão de ocorrência e 12 km² de área efetivamente ocupada, números que, combinados à deterioração do habitat, levaram a equipe a propor enquadramento como “Em Perigo” pelos critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

Novo peixe apareceu durante pesquisa que buscava outros animais

A descoberta não começou com uma expedição dedicada ao gênero Laimosemion. Os pesquisadores estavam no Amapá estudando peixes da família Poeciliidae, grupo que inclui os chamados barrigudinhos, quando um exemplar de coloração incomum chamou a atenção durante o trabalho de campo.

O aspecto visual levou a uma investigação mais aprofundada. Depois das coletas, a equipe reuniu informações anatômicas e resultados de DNA para determinar se estava diante de uma população já conhecida ou de uma linhagem diferente das espécies descritas anteriormente.

A conclusão foi que o animal possuía características suficientes para receber um nome próprio. A descrição combinou diferenças genéticas com elementos como escamas, nadadeiras, estruturas ósseas e padrão de cores, evitando que a identificação dependesse apenas da aparência externa.

DNA separou Laimosemion laranja de espécies já conhecidas

As comparações moleculares apresentaram divergências que variaram de 5,3% a 12,3% em relação a outros representantes avaliados pelos pesquisadores. A menor diferença apareceu quando o novo peixe foi comparado com Laimosemion agilae e Laimosemion strigatus.

Em outros confrontos, a distância genética aumentou. A diferença chegou a 9,2% diante de L. dibaphus e atingiu 12,3% na comparação com L. geayi. Esses resultados foram analisados em conjunto com as particularidades morfológicas encontradas nos exemplares.

Entre os sinais físicos utilizados estavam a disposição das escamas, a quantidade de raios nas nadadeiras e detalhes do esqueleto. O conjunto permitiu posicionar a espécie dentro do grupo relacionado a Laimosemion geayi, mas mantendo características próprias suficientes para sua separação taxonômica.

Machos têm coloração que inspirou parte do nome da espécie

O pequeno tamanho não impede que o animal se destaque visualmente. Nos machos, pontos alaranjados aparecem distribuídos longitudinalmente na região anterior do corpo, enquanto o setor posterior apresenta barras oblíquas com a mesma tonalidade.

O maior macho examinado alcançou 27,8 milímetros de comprimento padrão. Entre as fêmeas, o maior indivíduo mediu 20,6 milímetros, mostrando que a espécie permanece com dimensões reduzidas mesmo na fase adulta.

Novo peixe do Amapá, o Laimosemion laranja, é conhecido em apenas três áreas e pode estar ameaçado por garimpo e urbanização.
Fêmea da espécie Laimosemion laranja. Fonte: Yuri Abrantes.

O exemplar escolhido como holótipo, referência formal utilizada na descrição científica, também é um macho. Ele mede 26,8 milímetros e foi coletado em junho de 2025 no Igarapé Massaranduba, integrante da drenagem do Rio Cajari.

Nome homenageia cor e município de Laranjal do Jari

A denominação Laimosemion laranja carrega duas referências diferentes. Uma delas é facilmente observada nos machos, cuja coloração alaranjada aparece entre os elementos mais evidentes da espécie.

A outra está ligada diretamente ao território onde o peixe foi encontrado. Laranjal do Jari abriga a localidade-tipo e, até o momento, todos os registros conhecidos estão concentrados nessa parte do sul do Amapá.

Assim, o nome não funciona apenas como descrição visual. Ele também preserva a ligação geográfica entre a nova espécie e o único município onde sua presença foi confirmada pela ciência até agora.

Os três registros ocorreram em áreas florestadas associadas à parte inferior da drenagem do Rio Cajari. Os animais foram encontrados em poças próximas aos canais principais de riachos, ambientes que apresentam características muito específicas.

A profundidade observada variava aproximadamente de meio metro a um metro. Havia trechos com substrato lodoso ou arenoso, presença de vegetação aquática flutuante e água clara submetida a correnteza moderada.

Esses pequenos ambientes podem ser importantes para espécies que passam despercebidas em levantamentos mais amplos. Peixes de dimensões reduzidas e associados a áreas sazonalmente inundadas tendem a ser menos amostrados, apesar de participarem da organização ecológica dessas comunidades.

Garimpo deixou sinais em uma das áreas de ocorrência

Uma das localidades apresentou vestígios associados à mineração. Moradores apontaram algumas das poças como remanescentes desse tipo de atividade, enquanto os pesquisadores observaram água avermelhada e grande quantidade de sólidos em suspensão.

O mesmo ponto também apresentava árvores queimadas e sinais de desmatamento. A preocupação aumenta porque essa ocorrência está próxima da Reserva Extrativista do Rio Cajari, mostrando que a proximidade de uma unidade protegida não impede automaticamente alterações no entorno.

Outra área conhecida está próxima da infraestrutura urbana de Laranjal do Jari. A localidade-tipo fica a aproximadamente 180 metros de uma subestação de energia elétrica, colocando a espécie em uma região onde paisagem natural e ocupação humana estão muito próximas.

Urbanização também pressiona habitat do peixe dentro da cidade

O terceiro registro acrescentou outro tipo de ameaça. O Laimosemion laranja foi encontrado em um riacho florestado situado na própria área urbana, onde o estudo relaciona a expansão da cidade à redução do habitat disponível.

Nesse ambiente, os pesquisadores também observaram poluição por plástico nas zonas úmidas. A combinação entre resíduos e perda de vegetação amplia o número de pressões sobre uma espécie cuja distribuição conhecida já é naturalmente limitada.

Garimpo e urbanização aparecem, portanto, como os principais fatores destacados pela equipe. A avaliação leva em conta não somente a área ocupada, mas também a tendência de degradação contínua observada durante as expedições.

Classificação como “Em Perigo” ainda é proposta científica

Os pesquisadores aplicaram critérios da IUCN para avaliar a situação do novo peixe. Com base na pequena distribuição e no declínio dos ambientes, concluíram que a espécie preencheria condições para ser considerada “Em Perigo”, categoria conhecida internacionalmente como Endangered.

Isso não significa, entretanto, que o animal já tenha sido oficialmente inserido na Lista Vermelha da organização. O enquadramento apresentado corresponde a uma avaliação proposta pelos autores do trabalho científico a partir dos critérios disponíveis.

Essa distinção é importante porque uma classificação formal depende de procedimentos próprios. Mesmo assim, a análise já fornece um alerta para políticas de conservação, sobretudo porque todos os registros atuais se concentram em uma área muito restrita.

Reserva Extrativista pode esconder populações ainda não encontradas

Uma das perguntas abertas é se a espécie realmente vive apenas nos três locais conhecidos. Um dos registros ocorreu nas margens da Reserva Extrativista do Rio Cajari, o que levanta a possibilidade de existirem populações dentro da unidade.

Nenhum exemplar foi coletado no interior da reserva durante as expedições que embasaram a descrição. Por isso, os pesquisadores defendem novos levantamentos tanto dentro quanto fora da área protegida antes de estabelecer os limites reais da distribuição.

Dependendo dos resultados, uma das medidas discutidas seria ampliar os limites da unidade de conservação para alcançar áreas adjacentes onde o animal já foi encontrado. A ideia seria garantir proteção de longo prazo para parte importante do habitat da espécie.

Descoberta eleva número de rivulídeos registrados no Amapá

Com a descrição do Laimosemion laranja, o estudo passa a reconhecer seis espécies de rivulídeos de água doce no Amapá. O número acrescenta uma nova peça ao conhecimento sobre a diversidade de pequenos peixes amazônicos.

Os próprios autores alertam, porém, que diferentes ambientes ocupados por esses animais estão sujeitos a pressões provocadas pela mineração, pela expansão das cidades e por atividades agrícolas.

Isso cria um desafio adicional: algumas espécies podem permanecer desconhecidas justamente nos locais que estão sendo transformados. Quanto menor e mais especializado for o habitat, maior pode ser a dificuldade de perceber uma perda antes que as populações sejam afetadas de maneira profunda.

Próximos testes devem ajudar a definir onde Laimosemion laranja realmente vive

Os pesquisadores pretendem ampliar o número de amostragens para compreender melhor tanto a distribuição quanto a ecologia do animal. Esse conhecimento poderá fornecer informações para avaliações futuras relacionadas ao Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Peixes Rivulídeos Ameaçados de Extinção, desenvolvido pelo CEPTA-ICMBio.

Novas buscas também podem revelar se a espécie ultrapassa os limites atualmente conhecidos no Rio Cajari. Caso apareça em outras áreas preservadas, a avaliação de risco poderá ganhar novos elementos; se continuar restrita aos mesmos poucos locais, a necessidade de proteção tende a se tornar ainda mais relevante.

Texto:  Andriely Medeiros de Araújo

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