Seis anos depois, apagão no Amapá ainda deixa traumas e é alvo de ação de R$ 70 bilhões do MPF

Reportagem do Projeto Colabora reúne depoimentos de moradores que enfrentaram 22 dias de crise energética, com falta de água, alimentos perdidos, prejuízos financeiros e medo. Ministério Público Federal aponta falhas e omissões de empresas e órgãos públicos e cobra reparação pelos danos causados à população

Nesta terça-feira, 3 de novembro de 2026, completam-se seis anos do apagão que atingiu o Amapá

Nesta terça-feira, 3 de novembro de 2026, completam-se seis anos do início de uma das maiores crises energéticas da história do Brasil. O apagão que atingiu o Amapá em 2020 deixou mais de 90% da população sem fornecimento regular de eletricidade, provocou desabastecimento de água, interrompeu serviços essenciais, comprometeu o atendimento à saúde e causou prejuízos a milhares de famílias e comerciantes.

Seis anos depois, as consequências daquela tragédia permanecem na memória dos amapaenses. Uma reportagem especial do Projeto Colabora, publicada em junho deste ano, pela jornalista Clarice Candido, resgatou depoimentos de moradores que enfrentaram o colapso energético e ainda convivem com o medo de uma nova interrupção prolongada.

Além das marcas sociais e psicológicas, o episódio tornou-se objeto de uma ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público Federal (MPF), que pede indenização de quase R$ 70 bilhões pelos danos provocados à população.

A ação, apresentada em fevereiro de 2025, atribui a crise a uma sucessão de falhas de manutenção, fiscalização, planejamento e operação do sistema elétrico. O processo busca responsabilizar empresas privadas e instituições públicas envolvidas no fornecimento e na segurança energética do estado.

A noite em que o Amapá mergulhou na escuridão

Era aproximadamente 21h do dia 3 de novembro de 2020 quando um curto-circuito em um transformador da Subestação Macapá, na zona norte da capital, provocou uma explosão seguida de incêndio.

O acidente comprometeu o funcionamento da instalação responsável por receber e distribuir energia do Sistema Interligado Nacional (SIN), deixando 13 dos 16 municípios amapaenses sem eletricidade.

A crise se prolongou por cerca de três semanas, inicialmente com interrupção generalizada e, posteriormente, com um sistema de racionamento e rodízio de energia.

O episódio aconteceu em um dos momentos mais delicados da história recente do país: a pandemia de Covid-19, quando a população enfrentava restrições sanitárias, dificuldades econômicas e a sobrecarga dos serviços de saúde.

Sem eletricidade, o abastecimento de água foi comprometido, sistemas de comunicação deixaram de funcionar e estabelecimentos comerciais tiveram de suspender suas atividades. Hospitais precisaram recorrer a sistemas emergenciais para manter equipamentos essenciais em funcionamento.

A gravidade da situação também provocou o adiamento das eleições municipais de 2020 em Macapá.

Moradores relatam medo, desespero e sensação de abandono

Na reportagem intitulada Amapá entre o apagão e o apagamento, o Projeto Colabora ouviu moradores que testemunharam o início da crise e enfrentaram as consequências da interrupção no fornecimento de energia.

A designer gráfica Dayanne Farias estava na casa da namorada, acompanhada de uma criança de três anos, quando a energia acabou.

A designer Dayanne Farias relembra os dias de caos durante o apagão: “as pessoas realmente achavam que o mundo ia acabar” (Foto: Ricardo Beda)

Inicialmente, a família acreditou que se tratava de uma interrupção passageira, provocada pela tempestade que atingia Macapá naquela noite. Com o passar das horas, entretanto, a preocupação aumentou.

Dayanne relatou que os primeiros dias foram marcados pela falta de informações e pela sensação de que a situação estava completamente fora de controle.

A designer descreveu os três primeiros dias como cenas de apocalipse. Segundo ela, o medo era agravado pela pandemia, em um período em que ainda não havia perspectiva concreta de vacinação contra a Covid-19.

O guia turístico Antonio Carlos, que morava próximo à subestação atingida, contou que ouviu uma forte explosão e correu até a janela para descobrir o que havia acontecido.

Do imóvel, conseguiu observar um clarão e uma coluna de fogo. O barulho assustou moradores da região, que saíram às ruas sem compreender a dimensão do acidente.

Nos dias seguintes, Antonio enfrentou o racionamento de energia e acumulou prejuízos domésticos.

Segundo seu depoimento ao Projeto Colabora, perdeu dois ventiladores, uma televisão, seis bandejas de frango e quatro quilos de carne armazenados no congelador.

A dificuldade para conservar alimentos levou moradores a recorrer a métodos improvisados, como salgar carnes para evitar que estragassem.

Falta de água, alimentos e dinheiro agravou a crise

O professor Andrew Costa, da Universidade Federal do Amapá (Unifap), também relatou à reportagem os efeitos da interrupção prolongada dos serviços essenciais.

Segundo ele, a população enfrentou uma situação que ultrapassou os limites de uma crise de infraestrutura e assumiu características de emergência humanitária.

Sem energia, alimentos armazenados em geladeiras e congeladores começaram a estragar. A interrupção dos serviços bancários dificultou o acesso ao dinheiro, enquanto postos de combustíveis registraram grande procura.

Produtos básicos, como água potável e gelo, tornaram-se difíceis de encontrar.

Moradores de Macapá à noite na rua durante o apagão para tentar se refrescar: crise climática agrava problemas de energia (Foto: Rudja Santos / Amazônia Real – 07/11/2020)

O estudante universitário Walinson Bezerra destacou outro aspecto da crise: a perda de contato entre familiares e amigos.

Estudantes que haviam deixado municípios do interior para frequentar a universidade em Macapá ficaram impossibilitados de manter comunicação regular com suas famílias.

Além das dificuldades materiais, a população precisou conviver com a ansiedade, a insegurança e a incerteza sobre quando o fornecimento seria restabelecido.

O apagão também evidenciou a vulnerabilidade das famílias de baixa renda, especialmente daquelas que dependiam de compras mensais de alimentos e não tinham condições financeiras de substituir os produtos perdidos.

Trauma permanece mesmo depois de seis anos

Uma das revelações da reportagem do Projeto Colabora é que o restabelecimento da energia não significou o fim das consequências do apagão.

Dayanne Farias relatou que muitos moradores passaram a sentir medo sempre que uma tempestade atingia Macapá.

A designer contou que um amigo enfrentou crises de ansiedade durante aproximadamente dois anos, especialmente em períodos de chuvas intensas, por receio de que a situação de 2020 se repetisse.

Os depoimentos mostram que o impacto psicológico da crise se somou aos prejuízos materiais e à sensação de abandono vivenciada por parte da população.

O especial jornalístico também discute a desigualdade energética na Amazônia, onde as dificuldades de infraestrutura, as elevadas temperaturas e as condições socioeconômicas tornam a população particularmente vulnerável às interrupções do fornecimento.

A ausência de ventiladores e aparelhos de ar-condicionado durante o apagão agravou o desconforto térmico, especialmente em residências com pouca ventilação e construídas com materiais que acumulam calor.

Para especialistas ouvidos pelo Projeto Colabora, a tragédia demonstrou que o acesso à eletricidade está diretamente relacionado a direitos fundamentais, como saúde, segurança, alimentação, educação e condições dignas de moradia.

Apagão que atingiu o Amapá em 2020 deixou mais de 90% da população sem fornecimento regular de energia

Ministério Público Federal cobra quase R$ 70 bilhões de indenização

As consequências do apagão também chegaram à Justiça Federal.

Em fevereiro de 2025, o Ministério Público Federal ajuizou uma ação civil pública para responsabilizar instituições e empresas pelas falhas que contribuíram para a crise energética.

Conforme informações divulgadas pelo MPF e reproduzidas pelo portal especializado Canal Solar, o órgão pede uma indenização estimada em quase R$ 70 bilhões, destinada à reparação dos danos morais coletivos e sociais provocados à população.

A ação foi assinada pela procuradora da República Sarah Teresa Cavalcanti de Britto, então titular da Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão no Amapá.

Entre os réus estão a União, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a Linhas Macapá Transmissora de Energia Elétrica (LMTE), a Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA) e a Empresa de Pesquisa Energética (EPE).

Também foram incluídas empresas controladoras de concessionárias envolvidas na operação do sistema elétrico.

Segundo o Ministério Público, a tragédia não pode ser atribuída exclusivamente ao incêndio ocorrido na subestação.

A investigação identificou uma sucessão de falhas e omissões que, na avaliação dos procuradores, comprometeram a segurança e a confiabilidade do abastecimento energético.

MPF aponta negligência na manutenção e falhas de fiscalização

Entre os problemas identificados pelo Ministério Público Federal está a ausência de manutenção adequada dos transformadores da Subestação Macapá.

De acordo com a investigação, a LMTE deixou de realizar procedimentos periódicos necessários para garantir o funcionamento seguro dos equipamentos.

O MPF também apontou que o Operador Nacional do Sistema Elétrico tinha conhecimento de problemas relacionados à indisponibilidade de equipamentos e ao adiamento de manutenções, mas não teria adotado providências suficientes para reduzir os riscos.

Em relação à Aneel, a ação questiona a fiscalização exercida sobre a concessionária responsável pela transmissão.

Segundo o órgão ministerial, desde 2019 a subestação operava sem um transformador reserva, situação que ampliava a vulnerabilidade do sistema diante de eventuais falhas.

A investigação também aponta problemas de planejamento energético e questiona a desativação antecipada da Usina Termelétrica de Santana, que poderia contribuir para a segurança do fornecimento em situações emergenciais.

As conclusões representam as alegações apresentadas pelo MPF na ação judicial. A responsabilização definitiva dos réus depende de decisão da Justiça.

um curto-circuito em um transformador da Subestação Macapá, na zona norte da capital, provocou uma explosão seguida de incêndio

Ação pede bloqueio de recursos e responsabilização solidária

Além da indenização bilionária, o Ministério Público Federal apresentou pedidos de medidas financeiras destinadas a assegurar recursos para eventual reparação.

Entre os requerimentos estão a reserva judicial de 30% do orçamento da União destinado à publicidade e propaganda, a partir de 2025, e de 20% do orçamento da Empresa de Pesquisa Energética.

O MPF também solicitou que a LMTE depositasse imediatamente R$ 70 milhões em juízo.

Outro pedido é a condenação solidária dos réus, mecanismo jurídico que, caso acolhido, poderá permitir a responsabilização conjunta dos envolvidos pelos danos reconhecidos judicialmente.

O valor de quase R$ 70 bilhões corresponde à estimativa apresentada pelo Ministério Público, não a uma indenização já concedida ou paga.

A ação tramita sob o número 1001396-65.2025.4.01.3100, na Justiça Federal.

As fontes consultadas confirmam o ajuizamento e os pedidos formulados pelo MPF, mas não permitem estabelecer, nesta reportagem, se houve decisão posterior sobre o mérito ou sobre as medidas de bloqueio.

Seis anos depois, o apagão continua exigindo respostas

O apagão de novembro de 2020 expôs problemas estruturais que ultrapassaram o funcionamento de uma subestação elétrica.

A crise revelou a dependência da população de um sistema energético vulnerável, as dificuldades de resposta a emergências de grandes proporções e os efeitos da interrupção de serviços essenciais sobre a vida cotidiana.

Também colocou em discussão a responsabilidade das empresas concessionárias e dos órgãos encarregados de fiscalizar, planejar e garantir a segurança do fornecimento.

Enquanto o Ministério Público Federal busca a responsabilização judicial pelos prejuízos, os depoimentos reunidos pelo Projeto Colabora demonstram que as consequências do apagão não podem ser medidas apenas em valores financeiros.

Para milhares de amapaenses, novembro de 2020 permanece associado à perda de alimentos, à falta de água, ao calor, à insegurança e ao medo de que uma tragédia semelhante volte a acontecer.

Seis anos depois, a memória do apagão continua presente na vida dos moradores. A reparação dos danos e a garantia de que uma crise daquela dimensão não se repita permanecem como questões centrais para o Amapá.

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