Com previsão de chuvas abaixo da média e intensificação do El Niño, comunidades que dependem dos rios, da pesca e da agricultura estão entre as mais vulneráveis aos efeitos da estiagem. Correta aplicação de recursos será fundamental para reduzir impactos a população afetada

O Amapá enfrenta um cenário de agravamento da estiagem, com impactos sobre o abastecimento de água, a produção agrícola, a pesca e o cotidiano de comunidades rurais e ribeirinhas. A situação levou o governo federal a reconhecer, nesta terça-feira (20), estado de emergência em 14 dos 16 municípios amapaenses, enquanto especialistas alertam para a possibilidade de intensificação dos incêndios florestais durante novembro e dezembro.
O reconhecimento foi oficializado pela Portaria nº 3.595 da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, publicada no Diário Oficial da União. A medida considera o decreto estadual editado diante da redução das chuvas e dos riscos associados à estiagem.
O cenário é especialmente preocupante porque o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) prevê precipitações abaixo da média em grande parte da Região Norte durante o trimestre de outubro a dezembro de 2026.
Além disso, pesquisadores da agência espacial norte-americana NASA identificaram condições favoráveis à propagação de incêndios na Amazônia e apontaram o Amapá entre as regiões que poderão enfrentar uma intensificação do fogo nos próximos dois meses.
Emergência atinge 87,5% dos municípios amapaenses
O reconhecimento federal abrange os municípios de Amapá, Calçoene, Ferreira Gomes, Itaubal, Laranjal do Jari, Macapá, Mazagão, Oiapoque, Pedra Branca do Amapari, Porto Grande, Pracuúba, Santana, Serra do Navio e Vitória do Jari.
Isso significa que 87,5% dos municípios do estado tiveram a situação de emergência reconhecida pela União.
O reconhecimento permite que as administrações municipais solicitem recursos federais para ações de resposta aos desastres, mediante apresentação de planos de trabalho à Defesa Civil Nacional.
A medida não significa que todas as comunidades desses municípios estejam sofrendo os mesmos impactos. A intensidade da estiagem pode variar conforme a localização, as condições dos rios, a disponibilidade de água e a infraestrutura de cada localidade.

Quais comunidades podem sofrer os maiores impactos da seca?
A principal preocupação envolve populações que dependem diretamente dos recursos naturais para garantir abastecimento, alimentação, transporte e renda.
Entre os grupos mais vulneráveis estão as famílias que vivem em comunidades ribeirinhas, áreas rurais e localidades com acesso limitado aos serviços de abastecimento de água.
No município de Amapá, os prejuízos já foram reconhecidos oficialmente pela prefeitura.
Em comunicado publicado após a decretação de emergência, em 9 de outubro, a administração municipal informou que a estiagem estava provocando impactos significativos principalmente sobre pescadores, agricultores e suas famílias.
A prefeitura declarou que buscava apoio dos governos estadual e federal para prestar assistência à população e reduzir os prejuízos provocados pela falta de chuvas.
Essa informação confirma impactos sobre atividades produtivas no município de Amapá, mas não identifica nominalmente as comunidades mais atingidas.
Comunidades ribeirinhas e localidades dependentes do transporte fluvial
A redução prolongada das chuvas pode comprometer a navegabilidade de rios, igarapés e canais, especialmente em trechos mais rasos.
Quando os níveis da água diminuem, embarcações podem enfrentar dificuldades para transportar moradores, alimentos, medicamentos e outros produtos essenciais.
Esse risco exige atenção em municípios com populações distribuídas ao longo de rios e áreas de acesso predominantemente fluvial, como Laranjal do Jari, Vitória do Jari, Mazagão e Oiapoque.
Entretanto, não foram encontrados, nas fontes oficiais consultadas, levantamentos atualizados que permitam afirmar quais comunidades desses municípios já estão isoladas ou quais rios atingiram níveis críticos em outubro de 2026.
A identificação dessas localidades depende de informações hidrológicas e relatórios específicos das Defesas Civis municipais.
Agricultores familiares e pescadores
A estiagem também representa ameaça às atividades econômicas que dependem diretamente das condições ambientais.
A agricultura familiar pode sofrer com a redução da umidade do solo, dificuldades de irrigação e diminuição da disponibilidade de água.
Na pesca, alterações no nível dos rios e nas condições dos ambientes aquáticos podem afetar o deslocamento dos trabalhadores e suas atividades.
Esses efeitos não são necessariamente uniformes. Sua intensidade depende da duração da estiagem, das características dos corpos d’água e das condições locais de produção.
No município de Amapá, a prefeitura já reconheceu oficialmente prejuízos envolvendo pescadores e agricultores.
Nos demais municípios, embora o reconhecimento federal de emergência demonstre a gravidade regional da situação, ainda são necessários dados específicos para quantificar perdas na agricultura e na pesca.
Novembro e dezembro poderão ser os meses mais críticos para os incêndios

Uma das informações mais importantes para o planejamento das ações de prevenção vem da NASA.
Em análise publicada em outubro, a agência espacial norte-americana alertou que a Amazônia entrou em uma fase de aumento da atividade de incêndios associada à estiagem e ao fenômeno El Niño.
O cientista Douglas Morton, pesquisador do Centro de Voos Espaciais Goddard, explicou que os incêndios vêm avançando por diferentes regiões tropicais, acompanhando alterações nos padrões de precipitação.
Segundo a análise, a primeira intensificação ocorreu em áreas da Amazônia central e oriental, incluindo regiões próximas de Manaus e Santarém.
A expectativa dos pesquisadores é que uma nova fase de aumento da atividade do fogo alcance áreas mais ao norte da Amazônia.
Entre os territórios apontados estão o Amapá, Roraima, o norte do Pará e regiões da Venezuela, Guiana e Suriname, principalmente durante novembro e dezembro de 2026.
A previsão coloca o Amapá em uma situação que exige atenção especial das autoridades ambientais e de Defesa Civil.
É importante esclarecer que a projeção da NASA se refere principalmente à intensificação dos incêndios, e não a uma data exata para o nível mínimo dos rios amapaenses.
Para determinar o período de maior redução dos níveis fluviais, seriam necessárias previsões hidrológicas específicas das bacias do estado.
El Niño poderá manter chuvas abaixo da média até o fim do ano

O Cemaden também divulgou projeções preocupantes para o último trimestre de 2026.
Segundo o Boletim do Painel El Niño nº 4, publicado em outubro, os modelos climáticos indicam a permanência do fenômeno pelo menos até o início de 2027.
O documento aponta probabilidade superior a 95% de ocorrência de um evento de El Niño muito forte no trimestre de outubro a dezembro.
O fenômeno é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial e pode alterar os padrões de circulação atmosférica, influenciando as chuvas em diferentes regiões do planeta.
Para grande parte da Região Norte, a previsão sazonal indica maior probabilidade de precipitações abaixo da média.
As temperaturas também deverão permanecer acima dos valores considerados normais em grande parte do território brasileiro.
Essas condições podem favorecer a persistência da estiagem e aumentar a vulnerabilidade da vegetação ao fogo.
O Cemaden ressalta que o Amapá já apresenta sinais de antecipação da sazonalidade dos incêndios.
O boletim também registra avanço das condições de seca extrema em diferentes regiões brasileiras, incluindo áreas do território amapaense.
Quando a estiagem deverá terminar?
As informações científicas disponíveis não permitem estabelecer uma data exata para o fim da estiagem no Amapá.
A previsão sazonal do Cemaden indica risco de chuvas abaixo da média até dezembro, enquanto os modelos climáticos apontam que o El Niño poderá persistir pelo menos até o início de 2027.
Isso não significa que o estado permanecerá sem chuvas durante todo esse período.
Previsões sazonais apresentam tendências para intervalos de meses e não determinam a ocorrência ou ausência de precipitações em dias específicos.
Focos de calor aumentaram no Amapá em 2026

Segundo informações divulgadas após a publicação do decreto estadual de emergência, com base em dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Amapá registrou 798 focos de calor entre 1º de janeiro e 16 de outubro de 2026.
No mesmo período de 2025, haviam sido registrados 245 focos.
A comparação representa um aumento de aproximadamente 226%.
O crescimento é relevante porque indica maior atividade térmica detectada por satélites em um período de condições climáticas desfavoráveis.
Entretanto, um foco de calor não corresponde necessariamente a um incêndio florestal individual. A interpretação dos registros depende das características da detecção por satélite e da análise das ocorrências.
O decreto estadual nº 7.183, assinado em 16 de outubro pelo governador Clécio Luís, estabeleceu situação de emergência em todo o território amapaense pelo prazo de 180 dias.
A medida prevê o reforço das ações de assistência humanitária, abastecimento de água potável, proteção de comunidades vulneráveis e prevenção e combate aos incêndios em vegetação.
Governo federal autoriza R$ 4,1 milhões para enfrentar os efeitos da estiagem
Além do reconhecimento da situação de emergência, o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional autorizou a transferência de R$ 4.125.928 para ações de Proteção e Defesa Civil no Amapá. Correta aplicação de recursos será fundamental para reduzir impactos a população afetada.
Os recursos foram distribuídos da seguinte forma:
| Destinatário | Valor autorizado |
|---|---|
| Governo do Estado do Amapá | R$ 3.180.100 |
| Prefeitura de Tartarugalzinho | R$ 945.828 |
| Total | R$ 4.125.928 |
Os valores foram autorizados por portarias publicadas em 19 de outubro e serão transferidos em parcela única.
O prazo previsto para utilização dos recursos é de até 180 dias.
Segundo o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, o dinheiro será destinado a ações de resposta à estiagem e a outros desastres.
O reconhecimento federal permite que municípios afetados solicitem apoio por meio do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD).
As solicitações são analisadas pela Defesa Civil Nacional, que avalia as metas, as necessidades apresentadas e os valores previstos nos planos de trabalho.
A autorização dos recursos não comprova, por si só, que os valores já tenham sido efetivamente depositados ou executados.







