BR-156: a obra que nunca termina

Há 93 anos em construção a estrada ainda segue inacabada

A BR-156, rodovia federal que deveria ligar o sul ao extremo norte do Amapá, ligando também o estado ao chamado Platô das Guinas, permanece como um dos maiores símbolos de descaso. Iniciada em 1932, a estrada está há 93 anos em construção e ainda segue inacabada. Com seus 823 quilômetros de extensão, ligando Laranjal do Jari, ao Oiapoque, grande parte do trajeto ainda é sinônimo de lama, poeira e sofrimento.

Apesar dos bilhões investidos ao longo das décadas, apenas o trecho entre Macapá e Calçoene está pavimentado. O restante – especialmente a ligação Laranjal do Jari/ Macapá e o trecho Calçoene/Oiapoque – é um desafio constante, onde atoleiros e pontes precárias testam a paciência e a coragem de quem precisa trafegar nos respectivos trechos, sobretudo durante o inverno amazônico.

Promessas não cumpridas e obras abandonadas

Ao longo dos anos, a BR-156 foi palco de incontáveis promessas políticas. Governos federais e estaduais se alternaram anunciando a retomada das obras, mas o que se viu foram contratos interrompidos, licitações anuladas, e empresas abandonando o canteiro de obras. Em 2023, uma nova tentativa foi lançada pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), porém a obra deve paralisar novamente.

O mais recente escândalo envolvendo a estrada veio à tona com a Operação Route 156, deflagrada nesta terça-feira, 22 julho, pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União (CGU). A operação revelou um esquema de fraudes em licitações e desvios de recursos públicos em contratos que somam R$ 60 milhões, com foco justamente nas obras da BR-156. Investigações apontam o envolvimento de empresários, servidores do DNIT no Amapá.

Consequências para a população e economia

A precariedade da BR-156 afeta diretamente a vida dos amapaenses. A rodovia é vital para o transporte de produtos agrícolas e mercadorias. Sua má conservação encarece o custo logístico, prejudica o desenvolvimento regional e limita o acesso a serviços básicos de saúde, educação e turismo. Quando concluída irá conectar o Amapá ao mercado internacional via fronteira com a Guiana Francesa.

Para as comunidades mais isoladas, o impacto é ainda mais cruel. Falta de transporte regular, dificuldades em emergências médicas, e isolamento em períodos de chuva são problemas constantes. A ausência de infraestrutura adequada não apenas restringe o crescimento do Amapá, mas reforça o sentimento de exclusão histórica em relação ao restante do país.

Uma ferida aberta no mapa do Brasil

A BR-156 é mais do que uma estrada inacabada. Ela é o reflexo de promessas vazias, corrupção e falta de continuidade administrativa. Enquanto outras regiões debatem trens de alta velocidade e mobilidade urbana inteligente, o Amapá ainda espera por uma rodovia de chão batido ser finalmente concluída.

O Brasil deve uma estrada ao Amapá

A conclusão da BR-156 não pode mais ser tratada como um plano de governo ou uma bandeira eleitoral. É uma dívida histórica do Brasil com o povo do Amapá. Transformar a BR-156 de um símbolo de fracasso em um caso de sucesso é possível — mas exige compromisso político, fiscalização rigorosa, e respeito aos cidadãos que há quase cem anos esperam pela mesma estrada.

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