Proposta da USP para Margem Equatorial ressoa o Brasil Colônia

Cláudia Chelala e Antônio Batista afirmam que é direito dos habitantes da região definirem o futuro de seu próprio território, sem tutelas disfarçadas de boas intenções

Por Cláudia Chelala e Antônio Batista

A recente divulgação do documento “Cenários Estratégicos para a Ampliação do Conhecimento Científico e Proteção da Biodiversidade da Foz do Rio Amazonas” (PDF – 9 MB), assinado pelo Instituto de Estudos Avançados da USP (Universidade de São Paulo) em parceria com o Museu Goeldi, surpreendeu, pela audácia, a comunidade científica e social do Amapá.

Não pelo tema –proteger a Margem Equatorial é pauta antiga e vital para nós–, mas pela ousadia de uma universidade, a mais de 3.000 km de distância, propor as linhas mestras de como devemos conduzir nossa ciência e organizar nossa relação com o nosso próprio território.

A proposta, que fala em criar um Infa (Instituto Nacional da Foz do Rio Amazonas) e um mosaico de áreas marinhas protegidas, soa como mais um capítulo de uma longa história em que vozes externas ditam regras a regiões periféricas –algo que já é visto no Brasil há 5 séculos!

Há algo profundamente incômodo quando, em pleno século 21, ainda se reproduz o gesto colonialista de ignorar os sujeitos locais, como se fôssemos apenas figurantes a serem “consultados” para legitimar projetos já desenhados em outros gabinetes a milhares de quilômetros.

Não faltam no Amapá universidades, centros de pesquisa, líderes indígenas, ribeirinhos, pescadores e cientistas locais que conhecem a Margem Equatorial como ninguém. Nossa gente não só habita a região, mas também estuda, vive, sente no corpo e na história. Como, então, aceitar que instituições distantes digam quais devem ser nossas prioridades, quais caminhos devemos seguir, o que deve nos alimentar, quais modelos de conservação aplicar ou como equilibrar uso sustentável e proteção?

É impossível não lembrar dos colonizadores que, ao chegarem, ignoraram as formas de manejo da floresta, desconsideraram cosmologias indígenas, silenciaram comunidades inteiras e impuseram formas externas de ver e explorar o território. 

O paralelo é inevitável! Lamentavelmente, trocar a cruz e a espada pelos artigos publicados em fóruns internacionais ou relatórios com assinatura de nomes respeitáveis não elimina a mesma lógica de desconsideração e desapreço daquele passado inolvidável.

Não se trata de negar a importância de colaborações ou do peso que instituições nacionais podem ter. Mas é preciso inverter o lugar de fala: as comunidades e universidades locais devem ser protagonistas –e não coadjuvantes– na construção de políticas de ciência e conservação. Propostas como a da USP só terão legitimidade se forem desenhadas a partir daqui, com decisão e comando real de quem mora, pesquisa, vive, convive e resiste no Amapá.

O que está em jogo não é só a biodiversidade, nem a soberania científica: é o direito das pessoas de definir o futuro de seu próprio território, sem tutelas disfarçadas de boas intenções –afinal, já conhecemos o velho ditado. 

Enfim, diante da imensidão da Margem Equatorial, não cabe mais aceitar que certas propostas venham de fora como decreto ou mandamento. O Amapá não é território vazio a ser preenchido por relatórios, nem pessoas silenciosas à espera de tutela: é voz, é memória, é rio que fala mais alto que qualquer gabinete distante.

Como as marés que sobem e descem, nossa gente aprendeu a conviver com a abundância e com a adversidade, guardando saberes tão antigos quanto as estrelas refletidas nas águas dos rios Araguari e Oiapoque, ou no brilho dos rios Jari e Amazonas. 

É aqui, desta voz, deste chão e deste corpo coletivo, que deve nascer a ciência que protege e sustenta –não como eco do tambor terrível da marcha dos colonizadores, mas como canto novo, insurgente, que afirma, intenso: aqui decidimos nós, porque esta foz é também nossa voz do futuro!

(Artigo publicado no Jornal Eletrônico Poder360)

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