Facções criminosas estão em quase metade do território amazônico

Ao todo, são 17 facções com atuação na Amazônia Legal, incluindo siglas nordestinas

Segundo a pesquisa, além do domínio do CV, o Primeiro Comando da Capital (PCC), hegemônico em São Paulo, está em 90 cidades
Segundo a pesquisa, além do domínio do CV, o Primeiro Comando da Capital (PCC), hegemônico em São Paulo, está em 90 cidades

Mais de um quarto das cidades da Amazônia Legal hoje são dominadas pelo Comando Vermelho (CV), alvo de megaoperação recente que deixou 121 mortos no Rio de Janeiro. A Região Norte do País é considerada estratégica pela possibilidade de importar rapidamente cargas de cocaína e skunk de nações vizinhas, como Peru e Colômbia, além de permitir que as mesmas rotas sejam usadas para crimes como o garimpo ilegal, em fenômeno conhecido como o “narcogarimpo”.

– O domínio do CV, facção fundada há mais de quatro décadas no Rio, se estende por 202 cidades da região, incluindo locais estratégicos na área de fronteira, como Tabatinga (AM);

– A facção está presente em 286 municípios da Amazônia Legal, mais de um terço das 772 cidades da região – em 84 delas, como em Santana (AP), há um cenário de disputa com outros grupos.

Isso é o que aponta a 4.ª edição do Cartografias da Amazônia, divulgado nesta quarta-feira, 19, durante Cúpula do Clima das Nações Unidas (COP-30), em Belém. O estudo, um dos mais robustos sobre o avanço do crime organizado na região de floresta, é produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com entidades como os institutos Mãe Crioula e Clima e Sociedade.

Segundo a pesquisa, além do domínio do CV, o Primeiro Comando da Capital (PCC), hegemônico em São Paulo, está em 90 cidades. A leitura de pesquisadores é de que, depois de dominar a chamada “rota caipira”, que liga a fronteira da Bolívia a Estados do Sudeste, a facção tem buscado se estabilizar na Amazônia, mesmo que lá tenha a presença massiva do Comando Vermelho, seu principal rival.

Ao todo, são 17 facções com atuação na Amazônia Legal, incluindo siglas nordestinas, como o Bonde do Maluco (BDM), da Bahia, e os Guardiões do Estado (GDE), do Ceará. A lista inclui ainda três organizações estrangeiras: o Estado Maior Central (EMC) e a Ex-Farc Acácio Medina, da Colômbia, além do Trem de Aragua, da Venezuela.

“A expansão das facções criminosas constitui um dos principais desafios à segurança pública, à governança territorial e à soberania nacional na Amazônia. Observa-se, nos últimos anos, um processo de interiorização e diversificação das dinâmicas criminais, com a consolidação de rotas estratégicas para o tráfico de drogas, armas, minérios e madeira, conectando a região aos mercados nacional e internacional”, diz trecho do estudo. O levantamento aponta que as 17 facções ativas na Amazônia são:

  1. Comando Vermelho (CV)
  2. Primeiro Comando da Capital (PCC)
  3. Amigos do Estado (ADE)
  4. Bonde dos 40 (B40)
  5. Primeiro Comando do Maranhão (PCM)
  6. Família Terror do Amapá (FTA)
  7. União Criminosa do Amapá (UCA)
  8. Comando Classe A (CCA)
  9. Bonde dos 13 (B13)
  10. Bonde dos 777 (dissidência do CV)
  11. Tropa do Castelar
  12. Piratas do Solimões
  13. Bonde do Maluco (BDM)
  14. Guardiões do Estado (GDE)
  15. Trem de Aragua
  16. Estado Maior Central (EMC)
  17. Ex-Farc Acácio Medina.

O estudo também constata que a facção carioca Amigos dos Amigos (ADA) também age de forma associada ao B40 em municípios maranhenses. Porém, por não atuarem de forma autônoma em nenhuma localidade, os ADA não são contabilizados como facção ativa na Amazônia. “Essa configuração, no entanto, deve ser vista com atenção, pois pode indicar o aumento da atuação da ADA na região no futuro”, diz o estudo.

Facções estão em quase metade das cidades da Amazônia

O Cartografias aponta que, dos 772 municípios amazônicos, 344 (44,6%) apresentam alguma evidência da presença de facções, “demonstrando um processo de capilarização que transcende os grandes centros urbanos”. Ao todo, 258 municípios deles (33,4%) registram a atuação de apenas uma facção, enquanto 86 (11,1%) veem disputas entre duas ou mais organizações criminosas.

É um crescimento expressivo em relação à 2.ª edição do estudo, de 2023, que apontou facções em 178 municípios. Na época, o CV já era considerado hegemônico, com presença em 128 cidades.

Mas o número corresponde a menos do que a metade da quantidade de cidades sob influência da facção carioca (286). Os números do PCC na região variaram pouco na região, com presença em 93 cidades, em 2023, e em 90 na última edição da pesquisa.

Taxa de assassinatos na região é 31% maior do que média nacional

No ano passado, a Amazônia Legal teve 8.047 pessoas vítimas de mortes violentas intencionais (MVI), que incluem homicídio doloso e feminicídio,. A taxa de 27,3 assassinatos por 100 mil habitantes é 31% superior à média nacional.

Entre os nove Estados da Amazônia Legal, Maranhão foi o único que apresentou aumento nas taxas de homicídio entre 2023 e 2024, com crescimento de 11,5%. Segundo o Cartografias, o Estado vê intensa disputa territorial pelo controle do tráfico, que envolve especialmente o Bonde dos 40, o CV e o PCC.

Em geral, as cidades listadas entre as mais violentas da Amazônia Legal são estratégicas para o tráfico. Seja para a entrada de cargas de droga, como no caso de Tabatinga, na fronteira, ou para a exportação dessa droga, como no caso de Santana, que tem um dos maiores portos da região.

COMPARTILHE!

Comentários:

Notícias Relacionadas

error: Conteúdo protegido!!