
Em um terreno de circulação restrita, o equipamento de saúde conhecido como “Carreta da Mulher”, unidade móvel construída para dar assistência ginecológica e exames preventivos a mulheres, encontra-se literalmente parado e em avançado estado de deterioração.
Imagens aéreas capturadas nesta sexta-feira, 9, revelam que a estrutura metálica apresenta corrosão severa no teto, com pontos de ferrugem que se expandem pela lataria. O cenário contrasta com a informação divulgada pela Prefeitura Municipal de Macapá (PMM) em setembro de 2025, quatro meses atrás, que justificava a retirada do veículo de circulação para a realização de “reparos”.
No entanto, o local onde a carreta foi flagrada não é uma oficina mecânica ou pátio logístico da administração pública, mas sim uma das sedes da Coordenadoria de Assistência Farmacêutica (CAF). O imóvel em questão possui conexões diretas com a base de apoio político do Executivo municipal: informações colhidas em campo indicam que a propriedade pertence ao deputado federal Vinícius Gurgel, cuja esposa, Luciana Gurgel, é a atual secretária municipal de Assistência Social da gestão do prefeito Dr. Furlan.

A localização, a cerca de 5 km do município vizinho de Santana e distante dos movimentados centros urbanos de Macapá, dificulta a fiscalização por órgãos de controle e pela própria população. O isolamento do equipamento público em uma propriedade privada alugada pelo município levanta questões sobre os custos de armazenamento e a real intenção de retorno da unidade ao serviço ativo.
A Carreta da Mulher é um instrumento de política pública de saúde preventiva. Sua função é oferecer exames de Papanicolau (PCCU), inserção de DIU, consultas ginecológicas e testes rápidos em áreas de vulnerabilidade social, onde o acesso às Unidades Básicas de Saúde (UBS) é limitado.

Em setembro passado, a PMM transferiu os atendimentos para o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) Igualdade, no bairro Marabaixo, zona oeste – considerada muito distante de outras zonas. Só com esta medida, a equipe responsável perdeu um dos seus principais objetivos que beneficiavam as mulheres que moram em Macapá: a itinerância. Contudo, a denúncia aponta, ainda, outros dois pontos críticos:
• Inadequação Técnica: O CRAS é um equipamento de assistência social, não de saúde. A realização de procedimentos invasivos (como inserção de DIU e coletas ginecológicas) em ambientes que não foram projetados para tal finalidade ignora protocolos de biossegurança previstos pela Vigilância Sanitária.
• Inexistência de Reforma: Apesar do anúncio de “manutenção preventiva”, as imagens atuais comprovam que nenhum serviço de funilaria, pintura ou reparo estrutural foi executado nos últimos quatro meses. Não há registros de processos licitatórios ou contratos de manutenção específicos para a unidade móvel disponíveis no Portal da Transparência que justifiquem a paralisação prolongada.
Enquanto a prefeitura mantém silêncio sobre o cronograma de reparos, o equipamento apodrece ao relento, e as mulheres de Macapá perdem um serviço essencial de prevenção. Enquanto a ferrugem avança, a ausência de transparência sobre o destino do equipamento segue agora como uma questão aberta para os órgãos de fiscalização, como o Ministério Público do Estado (MP-AP).








