Comunidade tradicional de Macapá relata incêndios criminosos, presença de homens armados e escalada de ataques; denúncias apontam violação de direitos humanos e cobram ação urgente das autoridades

Um dos maiores símbolos culturais e históricos do Amapá, o quilombo do Curiaú, localizado em Macapá, vive um cenário de tensão crescente. Lideranças e moradores denunciam uma escalada de violência marcada por ameaças, intimidações e ações criminosas dentro do território reconhecido como área tradicional protegida.
Território oficialmente titulado desde 1999, a região é reconhecido nacionalmente como símbolo da resistência negra e da ancestralidade amazônica.
Nos últimos meses, relatos vindos da comunidade apontam para uma rotina de medo. Segundo as denúncias, episódios de incêndios criminosos, circulação de homens armados e tentativas de invasão têm se tornado cada vez mais frequentes, alterando profundamente o cotidiano de famílias que historicamente residem na região.
Entenda o caso
O Curiaú é um dos quilombos mais emblemáticos do estado, reconhecido não apenas pela sua importância cultural, mas também por sua relevância histórica na formação social do Amapá. A área é protegida por legislação específica que assegura o direito à terra às comunidades tradicionais.
Mesmo assim, lideranças denunciam que o território vem sendo alvo de pressões externas.
De acordo com os relatos, em razão das tentativas de ocupação irregular da área, famílias estão sendo ameaçadas, há registros de incêndios suspeitos de ações criminosas coordenadas e presença de homens armados, reforçando o clima de intimidação.

Pressão econômica e racismo estrutural
Para as lideranças quilombolas, os episódios não são isolados. Eles apontam que a escalada de violência estaria ligada a interesses econômicos sobre a área, somados a práticas de racismo estrutural que historicamente atingem populações negras e tradicionais.
Na avaliação de representantes da comunidade, há uma tentativa deliberada de enfraquecer a resistência local para viabilizar a ocupação do território.
O cenário, segundo os moradores, configura uma grave violação de direitos humanos, atingindo diretamente o direito à terra, a segurança das famílias e a a preservação cultural e histórica da comunidade.
Cobrança por respostas
Diante da gravidade das denúncias, as lideranças do Curiaú cobram uma atuação imediata do poder público.
Entre as principais reivindicações estão investigação rigorosa e célere dos crimes; identificação e responsabilização dos envolvidos; reforço na segurança da área; e implementação efetiva de políticas públicas de proteção aos territórios quilombolas.
Patrimônio sob risco
O Curiaú não é apenas um território. É um espaço de memória, identidade e resistência que atravessa gerações. A comunidade preserva tradições, modos de vida e manifestações culturais que ajudam a contar a história do povo amapaense.
A escalada de violência registrada na região coloca em risco não apenas a integridade física dos moradores, mas também um patrimônio coletivo de valor incalculável.
Caso
No último dia 25 de fevereiro moradores da comunidade quilombola do Curralinho, situada em território pertencente à Área de Proteção Ambiental (APA) do Curiaú, em Macapá, denunciaram uma tentativa de invasão irregular da área tradicionalmente ocupada pela comunidade.

De acordo com relato divulgado pelos próprios moradores foram identificadas cercas instaladas com o objetivo de demarcar área que estaria sendo alvo de ocupação indevida
Repercussão
Em 2025 a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) manifestou profundo repúdio à ação de desapropriação e despejo forçado realizada no dia 7 de outubro daquele ano contra o Quilombo do Curiaú.
Segundo a Conaq, a operação foi realizada de forma arbitrária, sem diálogo com a comunidade e com violência física e psicológica, deixando dezenas de famílias desabrigadas.
Na última sexta-feira (28/03) a Coordenação Nacional de Direitos Humanos do Partido dos Trabalhadores emitiu nota manifestando sua mais profunda solidariedade às famílias do Quilombo do Curiaú, “diante da grave escalada de violência denunciada recentemente por suas lideranças e por organizações do movimento quilombola”, diz o texto.
” É inadmissível que, em pleno século XXI, comunidades quilombolas ainda vivam sob ameaça constante, privadas do pleno exercício de seus direitos territoriais garantidos pela Constituição Federal e por tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário” defende a nota do PT.
O que dizem as autoridades
Até o momento, não há informações detalhadas sobre investigações concluídas ou ações concretas para conter os episódios denunciados.
O silêncio institucional, na avaliação de lideranças, amplia a sensação de insegurança e reforça a urgência de medidas efetivas.
Um alerta que ultrapassa o Curiaú
O que ocorre no Curiaú expõe um problema maior: a vulnerabilidade de comunidades tradicionais diante de disputas territoriais e da ausência de proteção contínua do Estado.
Para os moradores, a situação chegou a um ponto crítico.
Sem respostas rápidas e firmes, o que hoje é denúncia pode se transformar em tragédia anunciada.
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