Previsões se confirmam e incêndios florestais avançam no Amapá, ameaçando comunidades e cobrindo cidades de fumaça

Alertas de especialistas sobre os efeitos do El Niño e da estiagem começam a se materializar em diferentes regiões do estado. Oiapoque e Tartarugalzinho registram incêndios, enquanto moradores relatam fumaça intensa ao longo da BR-156 e no arquipélago do Bailique

Os alertas feitos por especialistas e órgãos de monitoramento ambiental sobre o agravamento da estiagem e o risco de incêndios florestais no Amapá estão se confirmando. Nos últimos dias, registros de queimadas, imagens de grandes áreas de vegetação em chamas e relatos de fumaça intensa em diferentes municípios mostram que o estado enfrenta um cenário de crescente preocupação ambiental e de saúde pública.

Em Oiapoque, no extremo norte do Amapá, moradores da comunidade quilombola Kulumbu do Patuazinho denunciam que enfrentam há vários dias um incêndio que ameaça o território tradicional. Em Tartarugalzinho, imagens feitas por drone mostram extensas áreas de vegetação atingidas pelo fogo, enquanto a fumaça se espalha pelas comunidades próximas.

A situação também preocupa moradores de outras localidades. Vídeos divulgados nas redes sociais mostram cortinas de fumaça em diferentes trechos da BR-156, principal ligação rodoviária entre Macapá e o norte do estado.

No arquipélago do Bailique, pertencente ao município de Macapá, moradores também relatam a presença de fumaça intensa, embora ainda não existam registros visuais ou confirmação oficial sobre a origem do fenômeno.

O cenário coincide com as previsões divulgadas desde agosto pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam).

Os órgãos alertaram que o fortalecimento do El Niño poderia reduzir as chuvas, elevar as temperaturas e criar condições favoráveis à propagação de incêndios florestais na Amazônia, especialmente no Amapá.

Incêndio em Tartarugalzinho atinge área de mata e espalha fumaça

Um incêndio de grandes proporções atinge uma área de vegetação no distrito de Aporema, em Tartarugalzinho, desde quarta-feira (5), segundo informações encaminhadas ao ConectAmapá.

Imagens registradas por drone na quinta-feira (6) mostram focos de fogo espalhados pela mata e uma extensa cortina de fumaça avançando sobre a região.

A situação preocupa principalmente as comunidades próximas, que enfrentam os efeitos da fumaça e temem o avanço das chamas.

Na sexta-feira (6), o prefeito de Tartarugalzinho, Bruno Mineiro, publicou um vídeo nas redes sociais mostrando a fumaça que atingia a cidade.

Prefeito de Tartarugalzinho, Bruno Mineiro

O município já vinha enfrentando os efeitos da estiagem. Em outubro, a Defesa Civil Nacional reconheceu a situação de emergência em Tartarugalzinho devido à escassez de chuvas.

No início de novembro, a prefeitura anunciou medidas para reforçar a rede municipal de saúde diante do aumento dos problemas relacionados à seca e à fumaça das queimadas.

As providências incluem ampliação de equipes, insumos e suporte às unidades de atendimento, especialmente para pacientes com sintomas respiratórios.

Um incêndio de grandes proporções atinge uma área de vegetação no distrito de Aporema

Comunidade quilombola pede socorro em Oiapoque

Em Oiapoque, a situação também é preocupante.

Moradores da comunidade quilombola Kulumbu do Patuazinho divulgaram vídeos denunciando um incêndio que, segundo os relatos, permanece fora de controle há vários dias.

As famílias afirmam que estão tentando impedir o avanço das chamas praticamente sem apoio especializado.

Em publicação divulgada pelo portal Oiapoque na Mídia, integrantes da comunidade relataram dificuldades para conseguir atendimento do Corpo de Bombeiros Militar do Amapá.

Segundo os moradores, o incêndio ameaça áreas de vegetação e coloca em risco a segurança das famílias e a preservação do território quilombola.

Também foram divulgadas imagens aéreas de incêndios nas proximidades do aeroporto de Oiapoque e de áreas residenciais.

Em um dos vídeos uma moradora afirma que viu pessoas queimando áreas de mato para provocar os  incêndios. Segundo o relato, duas pessoas em um carro teriam provocado incêndios próximo ao aeroporto de Oiapoque.

Os registros indicam que a preocupação com o fogo no município não está restrita às queimadas na área utilizada para descarte de resíduos.

Ainda não há confirmação oficial sobre a extensão total das áreas atingidas, a origem dos incêndios ou o número de famílias diretamente afetadas.

Moradores da comunidade quilombola Kulumbu do Patuazinho divulgaram vídeos denunciando um incêndio

Randolfe Rodrigues afirma ter acionado órgãos estaduais e federais

A situação em Oiapoque também motivou manifestação do senador Randolfe Rodrigues (PT).

Em vídeo divulgado nas redes sociais, o parlamentar afirmou ter recebido um pedido de apoio do município diante dos focos de incêndio.

Segundo Randolfe, o problema está sendo encaminhado aos órgãos competentes do Governo do Amapá e do governo federal, com o objetivo de mobilizar apoio para o enfrentamento da situação.

A manifestação ocorre em meio à preocupação dos moradores com o avanço das chamas e com as dificuldades de atendimento às comunidades mais afastadas.

Até o fechamento desta matéria, não havia confirmação independente sobre o envio de novas equipes ou equipamentos em decorrência da articulação anunciada pelo senador.

Senador Randolfe Rodrigues (PT)

Fumaça também preocupa moradores do Bailique e motoristas da BR-156

Os relatos de fumaça não estão restritos a Oiapoque e Tartarugalzinho.

Motoristas que trafegam pela BR-156 têm divulgado vídeos mostrando extensas áreas encobertas por fumaça em diferentes trechos da rodovia.

A redução da visibilidade representa um risco adicional para os usuários da estrada, especialmente em locais próximos a áreas de vegetação atingidas pelo fogo.

A fumaça também pode atingir comunidades situadas ao longo da rodovia, prejudicando a qualidade do ar.

No arquipélago do Bailique, moradores relatam episódios de fumaça intensa que associam a possíveis incêndios florestais na região.

Entretanto, ainda não há imagens ou informações oficiais que permitam identificar a localização exata dos focos ou confirmar se a fumaça observada no arquipélago tem origem em incêndios próximos.

A circulação de fumaça pode ocorrer a grandes distâncias, dependendo da intensidade dos incêndios e das condições dos ventos.

Órgãos ambientais já haviam alertado para o agravamento da situação

O avanço dos incêndios ocorre em um cenário previsto por instituições responsáveis pelo monitoramento climático e ambiental.

Em agosto, o Censipam alertou para a possibilidade de redução das chuvas e aumento das temperaturas no Amapá em decorrência do fortalecimento do El Niño.

O fenômeno climático, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, pode alterar os padrões de circulação atmosférica e reduzir a precipitação em áreas da Amazônia.

Em setembro, o Cemaden identificou sinais de agravamento da seca e antecipação da temporada de incêndios no Amapá.

No boletim divulgado em 1º de outubro, o órgão informou que o estado apresentava sinais de antecipação da sazonalidade do fogo, enquanto a estiagem avançava em diferentes regiões do país.

O alerta foi reforçado em 29 de outubro, quando o Painel El Niño 2026-2027 divulgou novas projeções para o trimestre de novembro a janeiro.

Segundo o levantamento, o fenômeno poderá atingir intensidade muito forte, mantendo a tendência de chuvas abaixo da média e temperaturas elevadas em grande parte da Região Norte.

O mapa de risco de fogo elaborado pelo Cemaden colocou áreas do Amapá entre aquelas classificadas em alerta alto para incêndios florestais.

Os episódios registrados nos últimos dias são compatíveis com o cenário de risco previsto pelos especialistas. Entretanto, a atribuição de cada incêndio especificamente ao El Niño depende de investigação sobre suas causas e condições locais.

Amapá já havia registrado mais de mil focos de incêndio

O crescimento das queimadas não começou em novembro.

Dados do Inpe, divulgados pelo Governo do Amapá e publicados pelo ConectAmapá em 27 de outubro, apontavam 1.027 focos de incêndio entre 1º de agosto e 26 de outubro de 2026.

Tartarugalzinho, Calçoene e Oiapoque estavam entre os municípios mais afetados.

O levantamento demonstrava que o aumento da atividade do fogo já vinha ocorrendo antes dos episódios registrados nesta primeira semana de novembro.

Outro dado divulgado pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) mostra a dimensão do problema.

Entre 1º de agosto e 1º de setembro de 2026, o Amapá registrou 67 focos de calor, contra 14 no mesmo período de 2025, crescimento de 378,6%.

Calçoene concentrou 36 registros, seguido por Tartarugalzinho, com 13.

A série histórica também demonstra a concentração das ocorrências no período seco.

Segundo a Sema, entre 2003 e 2025, aproximadamente 97% dos focos de calor registrados no estado ocorreram entre setembro e dezembro.

Somente outubro e novembro concentraram 74,6% das ocorrências.

Os números reforçam que o período atual corresponde justamente à época de maior vulnerabilidade aos incêndios florestais.

1.027 focos de incêndio entre 1º de agosto e 26 de outubro de 202

Governo proibiu uso do fogo até 30 de novembro

Diante das previsões de agravamento da estiagem, o Governo do Amapá estabeleceu, em setembro, um período de proibição do uso do fogo em áreas rurais e urbanas.

A medida entrou em vigor em 1º de setembro e permanece prevista até 30 de novembro, com possibilidade de prorrogação.

A decisão foi adotada no âmbito do Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento, Queimadas e Incêndios Florestais do Estado do Amapá.

O objetivo é reduzir a ocorrência de novos focos e fortalecer a atuação integrada dos órgãos ambientais e das forças de segurança.

Apesar das medidas preventivas, os registros recentes mostram que o estado continua exposto ao avanço dos incêndios.

A situação exige não apenas fiscalização, mas também capacidade operacional para atender rapidamente comunidades ameaçadas pelo fogo.

João Capiberibe alerta para efeitos do aquecimento global

O ex-governador e ex-senador João Alberto Capiberibe também se manifestou sobre a situação ambiental do Amapá.

Em vídeo divulgado nas redes sociais, Capiberibe chamou atenção para a concretização das previsões relacionadas às mudanças climáticas, ao fortalecimento do El Niño e ao aumento do risco de incêndios florestais.

O ex-governador relacionou o cenário atual aos impactos do aquecimento global sobre a floresta, a população e as atividades econômicas do estado.

A preocupação encontra respaldo nos estudos científicos que apontam o aumento da temperatura global como um fator capaz de intensificar extremos climáticos e ampliar os riscos associados às secas.

Embora o El Niño seja um fenômeno natural, seus efeitos podem ocorrer em um ambiente já afetado pelo aquecimento global.

A combinação de temperaturas elevadas, redução das chuvas, vegetação seca e ações humanas capazes de iniciar incêndios aumenta a vulnerabilidade de áreas florestais.

Ex-governador e ex-senador João Alberto Capiberibe

Fumaça representa ameaça à saúde da população

Além da destruição ambiental, a fumaça dos incêndios representa um problema de saúde pública.

A exposição às partículas liberadas pela queima da vegetação pode provocar irritação nos olhos, nariz e garganta, além de agravar doenças respiratórias e cardiovasculares.

Crianças, idosos, gestantes e pessoas com asma ou outras doenças respiratórias estão entre os grupos mais vulneráveis.

Em municípios onde a fumaça permanece por períodos prolongados, pode ocorrer aumento da procura por atendimento médico devido a sintomas como tosse, falta de ar e irritação das vias respiratórias.

A situação exige monitoramento da qualidade do ar e orientação à população, especialmente nas comunidades próximas aos incêndios.

Previsões se confirmam e Amapá enfrenta desafio ambiental

Os incêndios registrados em Oiapoque e Tartarugalzinho, associados aos relatos de fumaça em outras regiões, mostram que os riscos previstos pelos órgãos ambientais já se manifestam no território amapaense.

O cenário reforça a necessidade de atuação integrada entre Corpo de Bombeiros, Defesa Civil, órgãos ambientais, prefeituras e governo federal.

Além do combate às chamas, é necessário identificar as causas dos incêndios, proteger as comunidades ameaçadas e avaliar os danos ambientais.

A situação das comunidades tradicionais merece atenção especial, principalmente em áreas onde as dificuldades de acesso podem comprometer a chegada de equipes e equipamentos.

Os alertas científicos divulgados ao longo dos últimos meses indicavam que a combinação entre estiagem, temperaturas elevadas e fortalecimento do El Niño poderia favorecer a propagação do fogo.

Agora, os registros de incêndios e os relatos de moradores demonstram que o risco deixou de ser apenas uma projeção climática.

O Amapá já enfrenta as consequências de um período crítico de estiagem e incêndios florestais. O desafio das autoridades é impedir que o avanço das chamas transforme os alertas ambientais em uma crise ainda maior para as comunidades, a saúde pública e a floresta amazônica.

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