Direitos conquistados por minorias depois de décadas — em alguns casos, séculos — de mobilização passaram novamente a ser questionados

Após anos de lutas e da conquista de importantes avanços sociais, jamais imaginei que estaria vivo para testemunhar algumas das contradições que hoje se apresentam diante de nós: negros defendendo e votando em quem reproduz discursos racistas; homossexuais apoiando conservadores que questionam seus direitos; mulheres ao lado de quem relativiza o machismo e a violência de gênero; trabalhadores escolhendo representantes que defendem relações de trabalho cada vez mais desiguais; e cristãos oferecendo apoio político a personagens acusados de corrupção ou de manter relações com criminosos.
Há alguma coisa profundamente inquietante acontecendo.
Em pleno século XXI, quando imaginávamos estar avançando na consolidação de direitos e na construção de uma sociedade mais justa, assistimos a movimentos que parecem nos empurrar de volta a uma espécie de nova Idade das Trevas.
Direitos conquistados por minorias depois de décadas — em alguns casos, séculos — de mobilização passaram novamente a ser questionados. Negros, indígenas, mulheres, homossexuais e outros grupos historicamente discriminados percebem que conquistas antes consideradas consolidadas podem não ser tão permanentes quanto imaginávamos.
Demarcação de terras indígenas, cotas em universidades e concursos públicos, programas sociais de redução das desigualdades, políticas de igualdade salarial entre homens e mulheres e leis mais rigorosas de proteção às mulheres e de enfrentamento ao feminicídio voltam ao centro de uma disputa que ultrapassa partidos e eleições. O que está em jogo é o modelo de sociedade que queremos construir.
E talvez esteja aí o aspecto mais preocupante deste momento.
Não foi necessário fechar o Congresso.
Não foi necessário colocar tanques nas ruas.
Não foi necessário rasgar a Constituição diante das câmeras.
O retrocesso aprendeu a disputar eleição
Aprendeu a produzir vídeos curtos, dominar redes sociais, transformar ressentimento em engajamento e preconceito em identidade política.
Aprendeu, principalmente, a convencer pessoas de que retirar direitos dos outros é uma maneira de proteger os seus.
Enquanto setores progressistas ainda discutiam como conversar com a sociedade, a extrema direita aprendeu a falar diretamente com seus medos.
O resultado está diante de nós
O controle de importantes estruturas do Estado por grupos políticos contrários a parte desses avanços deixou de ser apenas uma possibilidade eleitoral. Tornou-se realidade. Governos estaduais, assembleias legislativas, Câmara dos Deputados, Senado e espaços de poder e influência institucional passaram a contar com uma presença cada vez maior de personagens que contestam políticas construídas ao longo das últimas décadas.
Quando Executivo e Legislativo caminham na mesma direção ideológica, direitos que levaram décadas para serem conquistados podem ser modificados em muito menos tempo.
É impossível observar esse cenário sem lembrar da obra de Margaret Atwood.
Em O Conto da Aia, a autora constrói uma sociedade na qual o autoritarismo não chega necessariamente de uma única vez. Ele avança gradualmente, apoiado no medo, na religião instrumentalizada, no discurso moralista e na promessa de restaurar uma suposta ordem perdida.
Aquilo que parecia apenas uma distopia literária tornou-se, para muitos, um alerta perturbadoramente contemporâneo.
O futuro imaginado por Atwood parece menos distante quando discursos que pregam a retirada de direitos passam a ser naturalizados; quando a intolerância se transforma em estratégia política; quando a fé é utilizada como instrumento de poder; e quando preconceitos antigos recebem uma nova embalagem para parecerem aceitáveis no século XXI.
É assim que o retrocesso encontra espaço
Não necessariamente anunciando aquilo que realmente representa, mas apresentando-se travestido de moralidade, fé, tradição, família e “bons costumes”.
Negar essa realidade pode ser tão perigoso quanto o próprio avanço dela.
O fascismo contemporâneo não precisa repetir exatamente os símbolos, os uniformes ou a estética dos movimentos autoritários do século passado para representar uma ameaça. Ele pode assumir novas formas, adaptar sua linguagem às redes sociais, apropriar-se de valores religiosos e explorar ressentimentos, medos e frustrações legítimas da população.
É justamente por isso que reconhecê-lo se tornou mais difícil.
E acordar da letargia aqueles que foram capturados por discursos de ódio, intolerância e retrocesso talvez seja um dos maiores desafios desta geração.
Não se trata apenas de vencer uma eleição ou derrotar determinado grupo político. Eleições passam. Governos terminam. Lideranças surgem e desaparecem.
Direitos, porém, quando perdidos, podem levar gerações para serem recuperados.
A história já demonstrou que nenhuma conquista social é absolutamente irreversível. Democracia, liberdade, igualdade e respeito às diferenças precisam ser defendidos permanentemente.
Por isso, para aqueles que ainda acreditam nesses valores, desistir não pode ser uma alternativa.
Porque o retrocesso raramente chega dizendo que é retrocesso.
Muitas vezes, ele simplesmente bate à porta vestido de salvação.
Um futuro não tão distante bate em nossas portas e ameaça invadir nossas comunidades, nosso trabalho, nossa religião, nossas famílias e nossas vidas.








