A exploração de minerais críticos pode afetar áreas protegidas e comunidades tradicionais

Ao menos 31 territórios Quilombolas na Amazônia Lrgal estão na rota da exploração dos chamados minerais críticos — essenciais para tecnologias avançadas, energia renovável e indústria bélica. Essas terras somam 653 mil hectares, área superior à do Distrito Federal e equivalente a 24% da área quilombola na região.
Os achados integram o Observatório da Transição Energética, projeto de jornalismo de dados da Repórter Brasil, em parceria com o Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos) e o PoEMAS (Grupo de Pesquisa e Extensão Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade, de diferentes universidades), lançado nesta quinta-feira (26). A iniciativa tem a colaboração da Rainforest Investigations Network (Pulitzer Center) e apoio da Fundação Ford.
Segundo o estudo requerimentos de exploração na Amazônia Legal se sobrepõem ou estão em um raio de 10 km de territórios quilombolas no Amapá. As informações divulgadas não especificam quais são as áreas, o tipo de minério e quantas comunidades podem ser afetadas no estado.
A plataforma monitora empreendimentos ligados à transição energética no Brasil — como usinas eólicas, usinas solares, linhas de transmissão de alta tensão e áreas de exploração de minerais usados na eletrificação, também chamados de minerais críticos — e mostra seus impactos sobre unidades de conservação, terras indígenas, territórios quilombolas e assentamentos de reforma agrária.
Na Amazônia Legal, a plataforma identificou 7.233 requerimentos de minerais críticos — como lítio, cobre, níquel, estanho, manganês e terras raras — registrados na base da ANM (Agência Nacional de Mineração) desde 1953. A maior parte deles (2.563, ou 35%) foi protocolada nos últimos cinco anos (2021–2025), um sinal do crescente interesse em torno desses recursos. O Observatório monitora 27 elementos ao todo (veja a lista completa).
MINERAIS CRÍTICOS NA AMAZÔNIA

Essenciais para baterias, turbinas eólicas, painéis solares, ligas metálicas e carros elétricos, esses minerais vêm sendo impulsionados por políticas associadas à transição energética, para reduzir a dependência de combustíveis fósseis. O consumo dessas matérias-primas cresce também com a indústria bélica, já que são fundamentais para equipamentos militares, em meio a gastos globais recordes com defesa.
Contudo, a exploração de minerais críticos também afeta áreas protegidas e comunidades tradicionais. Segundo o Observatório, ao menos 128 requerimentos na Amazônia Legal se sobrepõem ou estão em um raio de 10 km de 31 territórios quilombolas, nos estados do Amapá, Pará, Rondônia, Tocantins e Maranhão. A plataforma cruza a localização dos processos minerários com os mapas das áreas quilombolas fornecidos pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária).
“Essa transição energética é para quem? Será que os povos e comunidades tradicionais estão sendo consultados?”, questiona Hilário de Moraes, coordenador da Conaq (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas) no Pará e coordenador executivo da Malungu, a associação quilombola no estado.
Dos 128 processos minerários, 45 estão em operação — as pesquisas já foram finalizadas e as lavras foram concedidas pela ANM ou requeridas pelas mineradoras —, impactando três territórios quilombolas. Os demais processos (83) estão na etapa de planejamento, o que indica uma expansão das atividades nos próximos anos. Se todos saírem do papel, pelo menos 31 terras quilombolas serão afetadas.
A pressão é maior em Oriximiná, município no oeste do Pará cuja área é maior que a do estado de Pernambuco e a de países como Portugal e Coreia do Sul.
A região abriga diversas comunidades e territórios quilombolas ao longo dos rios Trombetas, Erepecuru e afluentes. O Território Quilombola Alto Trombetas II é o mais afetado, com 58 processos dentro de suas terras ou a 10 km de distância. Na sequência está o vizinho Alto Trombetas I, com 14 registros.








