
Conflitos internacionais envolvendo grandes produtores de petróleo têm potencial para provocar impactos indiretos, mas significativos, na Amazônia brasileira. Embora distantes geograficamente, essas crises afetam o mercado global de energia, elevando preços e gerando instabilidade no fornecimento de combustíveis, com reflexos no cotidiano da população amazônica.
A avaliação é do professor Paulo Gustavo Pellegrino Corrêa, doutor em Ciência Política e especialista em segurança internacional da Universidade Federal do Amapá (Unifap), e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Fronteira.
De acordo com análise do especialista, guerras em regiões estratégicas, como o Oriente Médio, historicamente provocam oscilações no preço do petróleo. Esse cenário aumenta a especulação internacional e encarece combustíveis, afetando países como o Brasil — especialmente áreas mais dependentes de fontes fósseis.
Na Amazônia, prossegue o professor, essa dependência é ainda mais evidente. Muitas cidades, sobretudo as mais isoladas, utilizam o diesel tanto para transporte quanto para geração de energia elétrica. Com isso, qualquer aumento no preço do combustível impacta diretamente serviços essenciais, como mobilidade, abastecimento e fornecimento de energia.
Para Paulo Gustavo, comunidades ribeirinhas e indígenas estão entre as mais afetadas. Nessas regiões, o transporte fluvial é a principal forma de deslocamento, utilizado para acesso à saúde, educação e comércio. A elevação no custo do diesel encarece viagens e dificulta o acesso a serviços básicos, agravando desigualdades sociais.
Além dos efeitos imediatos, o professor acrescenta que, o cenário evidencia uma vulnerabilidade estrutural da região. Apesar de ser uma grande produtora de energia, especialmente hidrelétrica, a Amazônia ainda enfrenta dificuldades para garantir que essa produção beneficie diretamente suas populações locais. Como resultado, muitas comunidades seguem dependentes de fontes caras e instáveis.
O contexto internacional também influencia o debate sobre novas fronteiras de exploração energética, como a Margem Equatorial. Em momentos de crise, cresce a pressão por ampliar a produção de petróleo, mas o especialista da Unifap alerta para a necessidade de equilibrar interesses econômicos com impactos sociais e ambientais.
Como alternativa, ele aponta a ampliação do uso de energias renováveis como caminho para reduzir a vulnerabilidade da Amazônia. O Brasil já possui potencial em fontes como solar, eólica e hidrelétrica, o que pode favorecer uma transição energética mais sustentável. Mas destaca que políticas públicas precisam garantir que esses avanços cheguem efetivamente às comunidades locais.
O professor Paulo Gustavo lembra que iniciativas já começam a ser implementadas. Projetos no Amapá, desenvolvidos em parceria com instituições de ensino, apostam em sistemas de energia solar, inclusive com soluções móveis e armazenamento, buscando ampliar a autonomia energética de comunidades ribeirinhas e quilombolas.
Apesar dos avanços, o desafio permanece amplo. A superação da dependência de combustíveis fósseis na Amazônia exige mudanças estruturais no modelo energético brasileiro, além de planejamento integrado entre diferentes níveis de governo e cooperação internacional entre países da região, concluiu.
(reportagem produzida a partir de uma entrevista concedida pelo professor Paulo Gustavo Pellegrino Corrêa, ao Portal Amazônia Vox)








