Artigo: Os porões que habitam em mim

Porque, em mim, não mora um indivíduo — mora um edifício. E no subsolo desse edifício há porões que não aparecem na planta

*Por Carlos Lobato

O ser humano adora a palavra “eu”. Ela soa bem. Cabe num documento, numa biografia, num pedido de desculpas e até numa oração. É curta, elegante e serve para fingir unidade. Mas “eu” é, quase sempre, um atalho: uma simplificação conveniente para um fenômeno que não cabe numa frase. Porque, em mim, não mora um indivíduo — mora um edifício. E no subsolo desse edifício há porões que não aparecem na planta.

Schopenhauer entraria por ali sem acender a luz. Ele não tem interesse em autoestima, nem em discursos terapêuticos sobre “ser sua melhor versão”. A pergunta dele é mais ofensiva: quem é você quando ninguém está olhando? E a resposta vem sem afeto: você é vontade. Uma força cega, insistente, faminta, que empurra o sujeito para frente como quem empurra um animal para o matadouro. Não há heroísmo nisso, só movimento. O homem imagina que decide; na prática, ele obedece. E quando tenta ornamentar esse automatismo com sentido, Schopenhauer encerra a conversa com o cinismo calmo de quem já entendeu o esquema: a vida não se resolve, ela se repete. Ela oscila, tropeça, recomeça e termina — e pronto.

Freud, sempre mais cirúrgico do que poético, não discordaria. Apenas traduziria a tragédia com termos técnicos, como quem escreve um laudo sobre um incêndio já consumado. Para ele, o “eu” é uma administração frágil. Uma sala de controle com fios expostos. Um gerente tentando manter ordem num prédio ocupado por desejos clandestinos e culpas oficiais. Freud não vê um homem inteiro; vê um conflito em funcionamento. O que chamamos de “caráter” é, muitas vezes, só a parte apresentável de uma guerra íntima. E o que chamamos de “maturidade” é frequentemente apenas o nome educado que damos à repressão. O sujeito não melhora: ele se contém. E quando não consegue, ele se trai — com requintes de repetição.

Nietzsche chega para estragar o conforto do diagnóstico. Ele não tolera a pose do derrotado elegante, nem o charme do pessimista profissional. É nesse ponto que ele faz a pergunta que dá dor de cabeça: você está sendo profundo ou apenas acostumado ao fracasso? Porque Nietzsche detesta a alma que transforma impotência em identidade. Ele não quer o sujeito explicando suas sombras; quer o sujeito encarando-as. Não é um convite ao equilíbrio — é uma provocação à coragem. Afinal, há quem use a própria “complexidade” como álibi. Há quem seja um caos não por tragédia, mas por comodidade. E há quem chame de “autenticidade” aquilo que, na verdade, é só indisciplina moral com vocabulário bonito.

Freud retruca com frieza: coragem não resolve trauma, e discurso de força não substitui autoconhecimento. Nietzsche devolve com desprezo: autoconhecimento não pode virar desculpa perpétua. Schopenhauer observa os dois como quem assiste a uma briga de família: discutam o nome, diz ele, mas a engrenagem seguirá girando — e o sujeito seguirá chamando de “escolha” aquilo que foi, muitas vezes, apenas impulso.

É aí que entra Edgar Allan Poe, que não se interessa por engrenagem, nem por método, nem por moral. Poe se interessa pela noite. E, na noite, o homem não “se compreende”: o homem se revela. Poe sabe que há porões onde a razão não manda. Há corredores internos onde a lucidez não ilumina: ela amplifica o horror. Há pensamentos que não pedem ajuda, pedem silêncio. E há desejos que não pedem perdão, pedem ocasião. Poe não escreve sobre monstros imaginários; escreve sobre a parte real do sujeito que ele aprende a esconder — até o dia em que falha. Porque sempre falha. O civilizado é apenas um instinto com gravata.

No fim, essa dialética toda não produz salvação. Produz uma constatação indecente: o “eu” é um acordo temporário. Hoje, sou um. Amanhã, sou outro. E não porque “a vida é dinâmica”, mas porque o homem é instável por estrutura. Um velho cansado, uma criança imprudente, um sábio tardio, um idiota convicto, um sonhador sem provas, um tolo fiel à própria queda — todos moram aqui. E todos têm direito de voz quando a luz apaga.

É por isso que desconfio de quem se descreve como “resolvido”. Gente assim costuma ser apenas disciplinada demais para confessar. E desconfio ainda mais de quem se diz “exemplo”: esse, quase sempre, é só um pecador com agenda e marketing. Eu não me vendo assim. Eu não me iludo assim. Eu sei que existe um lado ruim em mim — e o mais constrangedor é admitir que ele não é um acidente: ele é parte do projeto.

A sociedade gosta de pessoas previsíveis, porque previsibilidade dá sensação de controle. Mas o homem não é previsível: é administrável. E, às vezes, nem isso. O que há de mais sincero num indivíduo não é o que ele posta, nem o que ele promete, nem o que ele defende em público. É aquilo que ele faz quando o desejo aperta e a consciência não dá conta. É aí que mora a verdade: não na fala, mas no tropeço.

E se você me pergunta quem eu sou, eu respondo com a honestidade desagradável dos que já visitaram seus próprios porões: eu sou aquilo que, em mim, vence hoje. Amanhã pode ser outro. Amanhã pode ser pior. Amanhã pode ser mais limpo — mas não aposte nisso como se a vida fosse um tribunal justo. Ela não é. Ela é só vida.

E, no fundo — bem no fundo — é simples assim: eu não tenho um “eu” definitivo. Eu tenho turnos.

O resto é perfume!
*Carlos Lobato: sociologo, advogado e jornalista, escreveu “My Self” o “Meu Eu”, sob a ótica da epistemologia e, pondo no tatame, Scopenhauer, Freud, Ferreira Gullar, Nietzsche, Allan Poe

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