Ausência de rede de esgoto em grande parte de Macapá contribui para aumento de doenças de veiculação hídrica, gera sobrecarga do sistema de saúde e piora nas condições sanitárias

Dados oficiais levantados pelo CONECTAMAPÁ com base em busca em fontes oficiais da Prefeitura de Macapá, no Diário Oficial do Município e em páginas públicas da Câmara com as LOAs anuais, mostram que recursos para obras visíveis, como praças, calçadas e asfaltamento, superaram com folga áreas estruturais; ausência de saneamento segue impactando diretamente a saúde da população de Macapá.
Embora os dados do levantamento tenham como fontes o orçamento e não o valor investido pela município, é possível saber quais áreas foram prioritárias na gestão municipal nos últimos seis anos.
O que dizem os números
O levantamento com base em leis orçamentárias e balanços oficiais da Prefeitura de Macapá aponta um padrão claro na gestão do ex-prefeito Antônio Furlan (2021–2025): concentração de recursos em urbanismo e obras de visibilidade imediata, em detrimento de áreas estruturantes como habitação e saneamento básico.
Entre 2023 e 2025, por exemplo, os valores destinados a urbanismo (infraestrutura urbana) oscilaram entre R$ 227 milhões e R$ 372 milhões por ano, enquanto habitação chegou a receber apenas R$ 100 mil em 2025. Saneamento ficou na faixa de R$ 29 milhões a R$ 38 milhões, sem crescimento consistente.
No mesmo período, saúde e educação também receberam volumes elevados, mas com forte dependência de reforços orçamentários ao longo do ano — o que indica pressão crescente sobre essas áreas.
Valores por área encontrados na pesquisa
Orçamento fixado por função — 2023
- Infraestrutura / Urbanismo: R$ 321.948.205,18
- Saúde: R$ 201.148.255,32
- Educação: R$ 281.672.000,00
- Habitação: R$ 350.000,00
- Saneamento: R$ 34.800.000,00
Orçamento fixado por função — 2024
- Infraestrutura / Urbanismo: R$ 227.403.005,46
- Saúde: R$ 304.688.638,20
- Educação: R$ 364.216.412,50
- Habitação: R$ 3.850.000,00
- Saneamento: R$ 29.360.000,00
Execução de 2024 — despesas por função
- Infraestrutura / Urbanismo: R$ 321.655.390,47
- Saúde: R$ 477.005.050,31
- Educação: R$ 483.180.217,96
- Saneamento: R$ 38.823.701,11
- Habitação: não aparece destacada na tabela resumida publicada pela prefeitura naquele quadro de despesas por função.
Orçamento fixado por função — 2025
- Infraestrutura / Urbanismo: R$ 372.488.722,05
- Saúde: R$ 392.813.864,24
- Educação: R$ 538.377.698,88
- Habitação: R$ 100.000,00
- Saneamento: não consta como função separada no quadro; no demonstrativo publicado, a prefeitura destacou Urbanismo, Habitação, Gestão Ambiental, Transporte etc., mas não abriu Saneamento como linha autônoma naquele resumo da LOA 2025.
2) Comparação direta dos valores
Educação
- 2023: R$ 281,67 mi
- 2024 fixado: R$ 364,22 mi
- 2024 executado: R$ 483,18 mi
- 2025 fixado: R$ 538,38 mi
Saúde
- 2023: R$ 201,15 mi
- 2024 fixado: R$ 304,69 mi
- 2024 executado: R$ 477,01 mi
- 2025 fixado: R$ 392,81 mi
Infraestrutura / Urbanismo
- 2023: R$ 321,95 mi
- 2024 fixado: R$ 227,40 mi
- 2024 executado: R$ 321,66 mi
- 2025 fixado: R$ 372,49 mi
Urbanismo já era alto em 2023, caiu no orçamento inicial de 2024, mas a execução final de 2024 voltou ao patamar de R$ 321,66 milhões, praticamente repetindo o nível de 2023. Para 2025, a previsão sobe de novo com força.
Habitação
- 2023: R$ 350 mil
- 2024 fixado: R$ 3,85 mi
- 2024 executado: não discriminado no quadro-resumo disponível
- 2025 fixado: R$ 100 mil
habitação aparece com peso muito baixo no orçamento municipal comparado a saúde, educação e urbanismo. Em 2025, o valor fixado recua fortemente frente a 2024.
Saneamento
- 2023: R$ 34,80 mi
- 2024 fixado: R$ 29,36 mi
- 2024 executado: R$ 38,82 mi
- 2025 fixado: não apareceu separado na síntese da LOA encontrada
Habitação e saneamento aparecem em patamar muito menor, especialmente quando comparados com urbanismo. Isso é importante porque, no orçamento municipal, “urbanismo” pode absorver obras visíveis e intervenções urbanas, enquanto “saneamento” e “habitação” permanecem com dotações relativamente modestas.
Saneamento aparece com valores bem inferiores aos de urbanismo, saúde e educação. Em 2024, apesar da dotação inicial menor que a de 2023, a execução chegou a R$ 38,82 milhões, acima da previsão inicial daquele ano

Obras visíveis x problemas estruturais
Na prática, os números ajudam a explicar a percepção recorrente da população: expansão de praças e espaços urbanizados, construção de passeios públicos e asfaltamento de vias com baixa durabilidade — o chamado “asfalto sonrisal”, que se deteriora rapidamente
Essas intervenções, embora visíveis, têm baixo impacto estrutural sobre problemas históricos da cidade, como falta de drenagem eficiente, ausência de rede de esgoto e precariedade habitacional
Saneamento negligenciado e reflexos na saúde
A baixa prioridade orçamentária do saneamento não é apenas um dado técnico — ela se traduz em impacto direto na vida da população. A ausência de rede de esgoto em grande parte de Macapá contribui para aumento de doenças de veiculação hídrica, sobrecarga do sistema de saúde, piora nas condições sanitárias, especialmente em áreas periféricas. Ou seja, há um efeito em cadeia.
Contexto político e judicial
O cenário ganha ainda mais relevância diante da situação política do ex-prefeito.
Antônio Furlan foi afastado do cargo por decisão judicial no âmbito de investigações por corrupção, no contexto das apurações relacionadas à obra do Hospital Municipal de Macapá, e posteriormente renunciou ao mandato.
Leitura crítica

A análise dos investimentos sugere um modelo de gestão baseado em entregas de impacto imediato e visibilidade política, mas com baixa capacidade de resolver gargalos históricos.
Enquanto praças e asfaltamento ganham espaço no orçamento e no discurso, áreas como saneamento e habitação — fundamentais para qualidade de vida — permanecem subfinanciadas.
Sem investimento consistente em saneamento e habitação, Macapá segue convivendo com problemas crônicos que nenhuma praça ou camada de asfalto é capaz de resolver.








