Caso envolvendo produto avaliado em R$ 1 milhão levanta dúvidas sobre arrecadação, fiscalização e impactos ambientais da exploração da gurijuba

A prisão de quatro suspeitos pelo roubo de uma carga de grude de peixe avaliada em cerca de R$ 1 milhão, no Amapá, escancarou um mercado pouco conhecido do grande público, mas altamente lucrativo na região Norte.
Segundo informações o grupo é acusado de assaltar uma embarcação que transportava o produto pelo rio Cassiporé, na costa amapaense. Parte da carga foi recuperada durante a operação policial, e os suspeitos foram presos em flagrante.
O grude — extraído da bexiga natatória de peixes como a gurijuba — possui alto valor comercial e pode atingir preços elevados no mercado internacional.

Produto milionário, cadeia invisível
Em razão do alto valor da carga apreendida, surgem questionamentos sobre a cadeia econômica que envolve o grude no estado: Quanto o Amapá arrecada com essa atividade? Para onde o produto é exportado? Quem controla e regula essa cadeia?
Na prática, trata-se de um mercado com forte circulação financeira, mas com baixa transparência pública sobre sua dimensão econômica e tributária.
O que é o grude e por que vale tanto

O grude é obtido a partir da bexiga natatória de espécies como a gurijuba (Sciades parkeri), peixe típico do litoral amazônico. A substância é altamente valorizada e utilizada em: indústria alimentícia; produção de colágeno; cosméticos; e mercado asiático (especialmente China).
Fiscalização existe, mas enfrenta lacunas
A atividade pesqueira da gurijuba é, em tese, regulamentada por órgãos como IBAMA, ICMBio e órgãos federais de pesca
Especialistas indicam a necessidade de fiscalização constante da captura e comercialização da espécie, com monitoramento nos pontos de desembarque e controle da atividade pesqueira.
Na prática, faltam informações quanto ao controle em áreas remotas, atuação da pesca ilegal e capacidade de monitoramento contínuo.
Impactos sobre a espécie preocupam

A exploração da gurijuba também levanta alertas ambientais. Apesar de a exploração da bexiga não ser proibida no Brasil, irregularidades podem ser detectadas na atividade, desde a pesca por embarcações ilegais até a captura de espécies ameaçadas.
A pesca industrial e a sobrepesca podem prejudicar as comunidades de pescadores artesanais, porque causam escassez de peixe para a subsistência e desequilíbrios ecológicos. Há necessidade de medidas de sustentabilidade e faltam dados atualizados que dificultam o controle da atividade.
Além disso, relatos de comunidades tradicionais apontam redução na disponibilidade do peixe, associada à pesca intensiva, mudanças ambientais e pressão econômica sobre o recurso.
Cadeia econômica
O caso vai além da questão ambiental. Ele revela a existência de uma cadeia econômica milionária baseada em um recurso natural estratégico da Amazônia — mas que ainda opera com baixa transparência, fiscalização limitada e possíveis impactos ambientais significativos.
A ausência de dados claros sobre arrecadação, controle e destino do produto reforça a necessidade de debate público e atuação mais rigorosa do Estado.








