Roubo de carga milionária de grude expõe cadeia lucrativa pouco transparente no Amapá

Caso envolvendo produto avaliado em R$ 1 milhão levanta dúvidas sobre arrecadação, fiscalização e impactos ambientais da exploração da gurijuba

Carga de grude de peixe avaliada em cerca de R$ 1 milhão

A prisão de quatro suspeitos pelo roubo de uma carga de grude de peixe avaliada em cerca de R$ 1 milhão, no Amapá, escancarou um mercado pouco conhecido do grande público, mas altamente lucrativo na região Norte.

Segundo informações o grupo é acusado de assaltar uma embarcação que transportava o produto pelo rio Cassiporé, na costa amapaense. Parte da carga foi recuperada durante a operação policial, e os suspeitos foram presos em flagrante.

O grude — extraído da bexiga natatória de peixes como a gurijuba — possui alto valor comercial e pode atingir preços elevados no mercado internacional.

Nos últimos anos, a pesca artesanal viu a quantidade de peixes minguar devido à pesca em excesso de grandes embarcações -Foto/ Lalo de Almeida

Produto milionário, cadeia invisível

Em razão do alto valor da carga apreendida, surgem questionamentos sobre a cadeia econômica que envolve o grude no estado:  Quanto o Amapá arrecada com essa atividade? Para onde o produto é exportado?  Quem controla e regula essa cadeia?

Na prática, trata-se de um mercado com forte circulação financeira, mas com baixa transparência pública sobre sua dimensão econômica e tributária.

O que é o grude e por que vale tanto

A pesca industrial e a sobrepesca podem prejudicar as comunidades de pescadores artesanais – Foto/ Lalo de Almeida

O grude é obtido a partir da bexiga natatória de espécies como a gurijuba (Sciades parkeri), peixe típico do litoral amazônico. A substância é altamente valorizada e utilizada em: indústria alimentícia; produção de colágeno; cosméticos; e mercado asiático (especialmente China).

Fiscalização existe, mas enfrenta lacunas

A atividade pesqueira da gurijuba é, em tese, regulamentada por órgãos como IBAMA, ICMBio e órgãos federais de pesca

Especialistas indicam a necessidade de fiscalização constante da captura e comercialização da espécie, com monitoramento nos pontos de desembarque e controle da atividade pesqueira.

Na prática, faltam informações quanto ao controle em áreas remotas, atuação da pesca ilegal e capacidade de monitoramento contínuo.

Impactos sobre a espécie preocupam

Mestre Lázaro, 65. Pescador afrima que escassez de peixe afeta a região – foto/ Lalo de Almeida

A exploração da gurijuba também levanta alertas ambientais. Apesar de a exploração da bexiga não ser proibida no Brasil, irregularidades podem ser detectadas na atividade, desde a pesca por embarcações ilegais até a captura de espécies ameaçadas.

A pesca industrial e a sobrepesca podem prejudicar as comunidades de pescadores artesanais, porque causam escassez de peixe para a subsistência e desequilíbrios ecológicos. Há necessidade de medidas de sustentabilidade e faltam dados atualizados que dificultam o controle da atividade.

Além disso, relatos de comunidades tradicionais apontam redução na disponibilidade do peixe, associada à pesca intensiva, mudanças ambientais e pressão econômica sobre o recurso.

Cadeia econômica

O caso vai além da questão ambiental.  Ele revela a existência de uma cadeia econômica milionária baseada em um recurso natural estratégico da Amazônia — mas que ainda opera com baixa transparência, fiscalização limitada e possíveis impactos ambientais significativos.

A ausência de dados claros sobre arrecadação, controle e destino do produto reforça a necessidade de debate público e atuação mais rigorosa do Estado.

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