Investigação começou com poucas informações sobre um homem que viajaria de São Paulo para Macapá; monitoramento, compra de equipamentos de mergulho e imagens do porto levaram policiais até o grupo e à apreensão da droga no casco do navio Dyna Floresta

Uma denúncia anônima, inicialmente com poucas informações, desencadeou uma investigação da Polícia Federal que terminaria com a descoberta de 155 quilos de cocaína escondidos na parte submersa de um cargueiro no porto de Santana, no Amapá. A droga, segundo a investigação, seria transportada para a Europa.
Os bastidores da operação foram detalhados em reportagem publicada pela Folha de S.Paulo. A apuração mostra como policiais federais partiram praticamente de um primeiro nome — “Ângelo” — para identificar suspeitos, montar uma campana e acompanhar movimentações que incluíram a compra de equipamentos de mergulho e incursões noturnas pelo rio Amazonas.
Tudo começou com uma denúncia anônima
Era 28 de março de 2024 quando a Polícia Federal no Amapá recebeu a informação de que um homem chamado Ângelo sairia de São Paulo em direção a Macapá com uma missão específica: mergulhar no rio Amazonas para acoplar cocaína ao casco de um navio que deixaria o porto de Santana com destino à Europa.
O problema para os investigadores era a escassez de informações. O denunciante não havia fornecido sobrenome ou outros dados suficientes para identificar imediatamente o suspeito.
Diante da possibilidade de o navio deixar o porto a qualquer momento, policiais começaram a procurar pessoas chamadas Ângelo que correspondessem às características disponíveis. A investigação chegou então a Ângelo Lourenço Bonfogo, paulista que, segundo a PF, havia embarcado para Macapá dois dias antes.
A partir dessa identificação, os investigadores descobriram que Ângelo estava em uma chácara com Ricardo de Souza Silva, também de São Paulo. A polícia verificou ainda que Ricardo já havia sido preso em flagrante em 2012 em ocorrência relacionada ao tráfico de drogas.
Foi quando a PF decidiu acompanhar os suspeitos.
Campana durante dias e madrugadas
Policiais federais passaram a monitorar a chácara em diferentes horários, inclusive durante a madrugada.
Durante a vigilância, outro homem passou a ser acompanhado: Harrison Magalhães da Silva, que, de acordo com a investigação, frequentava o imóvel onde estavam os outros dois suspeitos.
O avanço decisivo aconteceu em 5 de abril.
Segundo o inquérito citado pela Folha, agentes observaram o grupo comprando materiais de mergulho em uma loja de Macapá. Mais tarde, naquela mesma noite, os três saíram em uma voadeira levando cilindros de ar comprimido.
O grupo retornou depois da meia-noite. Os homens estariam usando roupas de mergulho.
A sequência de acontecimentos reforçou a suspeita inicial recebida anonimamente: a PF acreditava estar diante de um grupo utilizando mergulho para acessar clandestinamente um navio.
No relatório da investigação, um agente federal considerou a possibilidade de aquela primeira incursão ter sido utilizada tanto para identificar o local onde a droga seria armazenada quanto para iniciar a instalação dos entorpecentes no cargueiro.

Justiça autoriza quebra de sigilo
Com o acúmulo de indícios, a Polícia Federal e o Ministério Público solicitaram, em 6 de abril, a quebra dos sigilos dos investigados.
A autorização judicial foi concedida no mesmo dia.
A Justiça também autorizou buscas e apreensões, mas a PF decidiu não executar imediatamente os mandados. A estratégia permitiu aos investigadores continuar acompanhando as movimentações e identificar o navio que estaria na mira do grupo.
Era o Dyna Floresta, cargueiro de bandeira liberiana construído em 2022, com cerca de 210 metros de comprimento e 32 metros de largura.
Câmeras registraram aproximação do navio
O monitoramento ganhou mais um elemento importante quando câmeras de segurança do terminal portuário de Santana registraram uma pequena embarcação se aproximando do cargueiro.
Segundo a PF, foi na noite do dia 9 de abril que a cocaína teria sido efetivamente acoplada ao navio.
A investigação também utilizou imagens produzidas durante o acompanhamento policial. Uma fotografia anexada ao inquérito, segundo a Folha, mostra um drone equipado com câmera térmica registrando a aproximação da voadeira utilizada pelo grupo na região portuária.
Menos de 24 horas depois da movimentação registrada pelas câmeras, agentes fizeram buscas na parte submersa do Dyna Floresta.
Foi quando encontraram os 155 quilos de cocaína presos ao casco do cargueiro.
No dia seguinte, os investigados estavam presos.

PF aponta possível ligação com PCC
A Polícia Federal afirma ter identificado elementos que relacionariam o episódio ocorrido no Amapá ao Primeiro Comando da Capital (PCC). A corporação aponta, entretanto, que a utilização de mergulhadores para colocar drogas em navios não é uma prática restrita à facção paulista.
Investigações semelhantes já identificaram o método em outros portos brasileiros. A estratégia consiste em utilizar mergulhadores para prender cargas de cocaína em partes submersas dos navios, permitindo que a droga atravesse o oceano sem necessariamente estar escondida dentro dos contêineres transportados oficialmente.
A movimentação do narcotráfico para terminais regionais também preocupa as autoridades. Segundo a Folha, o aumento da fiscalização no porto de Santos contribuiu para a pulverização das rotas de exportação de cocaína pela costa brasileira.
Acusados foram condenados, mas defesa recorre
Os acusados foram condenados, no final de 2025, a 12 anos de prisão por tráfico internacional e associação para o tráfico, mas recorreram da sentença.
A defesa contesta a versão apresentada pela Polícia Federal. O advogado dos acusados sustenta que o acompanhamento realizado pela PF teria sido ilegal e também apresentou denúncias de supostas agressões e tortura, alegações atribuídas à defesa e ainda contestadas no processo.
Há ainda uma divergência central sobre a finalidade da ação.
A defesa sustenta que os homens pretendiam furtar a cocaína, e não colocá-la no navio para exportação. Com esse argumento, afirma que não existiriam elementos suficientes para caracterizar participação no tráfico internacional. A sentença condenatória está sendo questionada por meio de recurso.
A investigação, por outro lado, sustenta uma sequência de elementos que começou com a denúncia anônima, passou pela identificação do suspeito que havia viajado de São Paulo ao Amapá, pelo monitoramento da chácara, pela compra dos equipamentos de mergulho e pelas incursões noturnas, até chegar às imagens registradas na região portuária e à descoberta dos 155 quilos de cocaína no casco do Dyna Floresta.
A reportagem original com os detalhes da investigação está disponível na Folha de S.Paulo








