Operação Senhor das Armas aponta participação de dois PMs e um agente de segurança no desvio de armamentos que estavam sob custódia judicial. Segundo a Polícia Civil, parte das armas abastecia integrantes de facção criminosa e investigação levou ao bloqueio de mais de R$ 26 milhões

A participação de policiais militares está no centro de uma investigação da Polícia Civil do Amapá que apura um esquema de desvio, adulteração e comércio clandestino de armas e munições que estavam sob custódia da Justiça.
A Operação Senhor das Armas, deflagrada nesta terça-feira (25), investiga uma organização criminosa que, segundo a Polícia Civil, contava com a participação direta de três servidores públicos: dois policiais militares e um agente de segurança. Na época dos fatos investigados, os três estavam cedidos ao Tribunal de Justiça do Amapá (TJAP), mas atualmente não possuem mais vínculo com o órgão.
De acordo com as investigações, um tenente da Polícia Militar é apontado como líder do núcleo responsável pelos desvios. Ele teria se aproveitado da função que exercia como encarregado da Sala do Armário Forte do Fórum de Macapá para retirar armas, munições e acessórios que estavam sob custódia judicial.
O material, que deveria permanecer guardado e submetido ao controle do Judiciário, acabava alimentando um mercado clandestino que, segundo a investigação, chegou a integrantes e lideranças de uma facção criminosa.
Tenente da PM teria comandado os desvios
A investigação descreve uma estrutura organizada, com divisão de tarefas entre os participantes.
O tenente da PM seria responsável pela origem do material comercializado ilegalmente. Por ter acesso ao local onde os armamentos estavam armazenados, ele teria realizado os desvios que abasteciam os demais integrantes do esquema.
Um agente de segurança, também cedido ao Tribunal de Justiça na época dos fatos, seria responsável pela logística. Conforme a Polícia Civil, ele dava baixa nos sistemas, retirava fisicamente os armamentos e fazia o transporte até o armeiro responsável por preparar as armas para comercialização.
Ainda segundo a investigação, o agente exigia que sua participação fosse paga exclusivamente em dinheiro, medida que teria como objetivo dificultar o rastreamento financeiro das operações.
As acusações fazem parte de investigação em andamento e os envolvidos têm direito à defesa e à presunção de inocência até eventual condenação definitiva.
Armeiro mantinha oficina clandestina
Depois de retiradas da custódia judicial, as armas chegavam a uma oficina clandestina mantida pelo homem apontado como armeiro da organização.
Segundo a Polícia Civil, ele consertava e adulterava os armamentos, inclusive com a supressão das numerações de identificação, e posteriormente negociava o material.
A comercialização era realizada até mesmo por meio de catálogos fotográficos enviados em aplicativos de mensagens, de acordo com a investigação.
Durante o cumprimento dos mandados nesta terça-feira, os policiais localizaram a suposta oficina e apreenderam duas espingardas em poder do investigado apontado como armeiro. O local foi submetido à perícia.
Armas teriam abastecido facção criminosa
Um dos aspectos considerados mais graves da investigação é o destino atribuído a parte dos armamentos.
Segundo a Polícia Civil, integrantes e lideranças de uma facção criminosa estavam entre os principais compradores. As armas seriam adquiridas em quantidade para equipar integrantes do grupo envolvidos em disputas territoriais e conflitos urbanos.
A investigação aponta ainda que ordens para aquisição de armamentos teriam partido de dentro do próprio sistema penitenciário.
Além das compras relacionadas à facção, intermediários independentes também teriam adquirido armas do esquema para revendê-las nas ruas por valores superiores.
A investigação busca agora aprofundar o rastreamento do arsenal para identificar a quantidade de armas desviadas, seus compradores e o eventual emprego desses armamentos em outros crimes.
Policial militar é apontada como operadora financeira
A investigação também alcança uma segunda integrante da Polícia Militar. Trata-se da esposa do tenente apontado como responsável pelo núcleo de desvio.
Segundo a Polícia Civil, a policial militar teria exercido papel relevante na movimentação financeira do grupo familiar, sendo apontada como a principal operadora desse núcleo.
Ela teria realizado depósitos fracionados, além de participar da movimentação dos recursos que, conforme a investigação, eram provenientes das atividades criminosas.
A Polícia Civil afirma que o grupo utilizava contas de terceiros, empresas apontadas como de fachada e conversões de valores recebidos por Pix em dinheiro vivo. A estratégia teria como finalidade ocultar a origem dos recursos e possibilitar o pagamento em espécie aos servidores envolvidos.
Justiça determina bloqueio superior a R$ 26 milhões
A dimensão financeira do caso levou a Justiça a autorizar medidas destinadas a atingir o patrimônio dos investigados.
Foram determinados o sequestro de imóveis e veículos e o bloqueio de valores existentes em contas bancárias. De acordo com o balanço divulgado pela Polícia Civil, as medidas podem alcançar mais de R$ 26 milhões.
Veículos pertencentes a investigados também foram apreendidos durante a operação, além de materiais considerados relevantes para a continuidade das investigações.
A Polícia Civil agora analisa documentos, aparelhos e demais dados obtidos durante o cumprimento das medidas judiciais.
Esquema teria começado dentro de estrutura destinada a guardar armas
A Operação Senhor das Armas chama atenção porque, conforme a linha investigativa apresentada pela Polícia Civil, o esquema teria explorado justamente a estrutura criada para manter armas apreendidas sob controle do Estado.
O acesso funcional de servidores cedidos ao Judiciário teria permitido retirar armamentos da custódia judicial, adulterá-los e posteriormente colocá-los novamente em circulação no mercado clandestino.
A participação atribuída aos dois policiais militares também amplia a gravidade institucional do caso: enquanto um tenente é apontado como responsável pelo núcleo que desviava as armas, outra policial militar aparece na investigação como responsável por movimentações financeiras relacionadas ao esquema.
A Polícia Civil informou que a Operação Senhor das Armas continua em andamento e que a análise do material apreendido poderá revelar outros envolvidos, compradores e movimentações financeiras relacionadas à organização criminosa.








