Crime organizado entra no centro da eleição e segurança pública domina reta final no Amapá

Reportagens nacionais sobre pessoas apontadas como ligadas a facções que ocuparam cargos na gestão Furlan transformaram segurança em um dos principais embates entre Clécio e o ex-prefeito; repercussão eleitoral do caso poderá aparecer nas próximas pesquisas

Possível infiltração do crime organizado dentro do poder público e sua aproximação com a política passou adominar debates.

A segurança pública entrou definitivamente no centro da disputa pelo Governo do Amapá nesta reta final de campanha. Mas, desta vez, o debate eleitoral não está concentrado apenas nos índices de homicídios, roubos ou operações policiais. O assunto que passou a dominar o confronto entre os principais candidatos é a possível infiltração do crime organizado dentro do poder público e sua aproximação com a política.

Investigações da Polícia Civil e da Polícia Federal, decisões da Justiça Eleitoral e duas reportagens de repercussão nacional — exibidas pela Record e publicadas pela CNN Brasil — colocaram sob os holofotes pessoas apontadas como vinculadas a organizações criminosas que ocuparam cargos ou mantiveram vínculos com a Prefeitura de Macapá durante a administração do ex-prefeito e atual candidato ao governo Antônio Furlan (PSD).

O assunto ganhou peso político justamente nos últimos dias antes do primeiro turno e passou a ser explorado diretamente pelo governador e candidato à reeleição Clécio Luís (União Brasil).

CNN aponta 12 pessoas ligadas ao crime organizado na gestão municipal

Reportagem publicada pela CNN Brasil em 16 de setembro revelou que investigações da Polícia Civil identificaram ao menos 12 pessoas apontadas como ligadas ao crime organizado que foram formalmente contratadas ou nomeadas na Prefeitura de Macapá entre 2021 e 2026, período da administração Furlan.

Segundo uma fonte ligada à investigação ouvida pela CNN, 11 seriam integrantes da Família Terror do Amapá (FTA) e uma teria ligação com o Comando Vermelho. A maioria também teria relação com o tráfico de drogas.

A investigação policial citada pela CNN trata os episódios como possíveis indícios de infiltração do crime organizado na estrutura pública municipal.

Furlan nega qualquer relação com organizações criminosas.

Ex-prefeito Antônio Furlan junatmente com Jesaias Silva e Luanderson de Oliveira Alves, o Caçula

Ex-subsecretário está entre os investigados

Um dos personagens que ganhou destaque nas investigações é Jesaias Silva e Silva, conhecido como Geza, que comandou a Subsecretaria Municipal de Zeladoria durante a gestão Furlan, entre 2022 e 2024.

Ele foi preso pela Polícia Federal na Operação Herodes, deflagrada em 2024 para investigar a possível interferência de organização criminosa no processo eleitoral.

Outro personagem central é Luanderson de Oliveira Alves, o Caçula, que concorreu a vereador de Macapá pelo PSD nas eleições municipais de 2024.

O caso de Caçula avançou na Justiça Eleitoral. O Tribunal Regional Eleitoral do Amapá cassou seu diploma de suplente de vereador e declarou sua inelegibilidade por oito anos. Segundo a CNN, o TRE-AP reconheceu que ele se beneficiou da estrutura e do domínio territorial da Família Terror do Amapá durante a eleição de 2024.

Caso ganhou repercussão nacional

Antes da CNN, o Jornal da Record já havia levado o assunto ao noticiário nacional.

A reportagem exibida em 10 de setembro apresentou investigações das polícias Federal e Civil sobre uma suposta relação entre integrantes do crime organizado e agentes políticos no Amapá e abordou especificamente o caso de Caçula.

A sucessão de reportagens nacionais mudou o ambiente da campanha.

O que inicialmente aparecia como tema restrito às páginas policiais passou a fazer parte diretamente do debate sobre quem comandará o Governo do Amapá pelos próximos quatro anos.

Clécio: “Eu escolhi o lado da polícia”

Clécio passou a utilizar o enfrentamento às organizações criminosas como um dos principais pontos de seu discurso nesta reta final.

Durante entrevista ao Balanço Geral, da TV Equinócio/Record, o governador afirmou:

Governador e candidato a reeleição Clécio Luis

“Eu escolhi o lado. O meu lado é o lado da polícia.”

Em outro momento, ao estabelecer uma comparação política, declarou que não negocia com criminosos e não nomeia pessoas ligadas a facções para cargos de confiança. Clécio também mencionou a informação sobre as 12 pessoas apontadas como vinculadas a organizações criminosas que teriam ocupado cargos na Prefeitura.

A declaração provocou reação imediata da campanha adversária.

Furlan nega ligação e foi à Justiça contra fala de Clécio

Furlan rejeita qualquer tentativa de associá-lo pessoalmente às organizações criminosas.

Em manifestação enviada à CNN Brasil, o ex-prefeito declarou que “jamais manteve qualquer relação com organização criminosa” e afirmou ser vítima de perseguição política.

Segundo Furlan, as nomeações realizadas durante sua administração seguiram os procedimentos legais, inclusive com apresentação das certidões exigidas. Ele argumentou ainda que parte dos cargos de confiança foi preenchida a partir de indicações de vereadores, deputados e outras lideranças políticas.

O candidato também passou a defender publicamente o fortalecimento do combate ao crime organizado. Em entrevista à Record, prometeu enfrentar as organizações criminosas caso seja eleito governador.

Além da resposta política, Furlan levou o confronto para a Justiça Eleitoral.

Sua coligação ingressou no TRE-AP pedindo direito de resposta e a retirada do vídeo em que Clécio afirma que não negocia com criminosos e menciona as nomeações na Prefeitura.

O pedido de retirada imediata foi negado. Em análise preliminar, o desembargador Rommel Araújo entendeu que as declarações de Clécio faziam referência genérica aos adversários e não identificavam especificamente Furlan. A decisão liminar não julgou a veracidade das acusações nem encerrou a discussão judicial.

Debate ocorre em estado que lidera ranking de mortes violentas

A entrada do crime organizado no centro da eleição ganha dimensão ainda maior diante dos indicadores de violência do Amapá.

O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em julho, mostrou que o Amapá encerrou 2025 com a maior taxa de mortes violentas intencionais do país: 42,5 casos para cada 100 mil habitantes.

O índice colocou o estado à frente da Bahia, com 36,8, e do Ceará, com 34,7.

Os dados, entretanto, também mostram uma informação relevante: houve redução da violência. A taxa amapaense caiu 6% entre 2024 e 2025. No ano anterior, o estado já havia registrado uma queda de aproximadamente 30% nas mortes violentas em comparação com 2023.

O cenário, portanto, apresenta um contraste: o Amapá continua com a maior taxa proporcional de mortes violentas do Brasil, embora os indicadores tenham recuado nos últimos anos.

Segurança vira campo de batalha eleitoral

A menos de duas semanas das eleições, o confronto sobre segurança pública ganhou uma dimensão que vai além da discussão tradicional sobre policiamento.

O debate agora envolve uma questão ainda mais sensível: até onde organizações criminosas conseguiram penetrar nas estruturas políticas e administrativas do estado.

De um lado, Clécio tenta transformar o enfrentamento às facções em elemento de diferenciação de sua candidatura e coloca as investigações envolvendo ex-integrantes da Prefeitura no centro do debate.

Do outro, Furlan afirma não possuir qualquer vínculo com organizações criminosas, sustenta que as contratações obedeceram aos procedimentos administrativos e utiliza a declaração do titular da Draco para rebater tentativas de vinculá-lo pessoalmente às facções.

Entre os dois discursos estão investigações policiais, processos judiciais e fatos objetivos: pessoas apontadas pelas autoridades como vinculadas ao crime organizado passaram pela estrutura da Prefeitura; um ex-subsecretário foi alcançado pela Operação Herodes; e um candidato a vereador ligado ao mesmo grupo político teve o diploma cassado depois que a Justiça Eleitoral reconheceu que sua candidatura se beneficiou da estrutura e do domínio territorial de uma facção.

Próximas pesquisas podem medir repercussão

Politicamente, ainda não é possível afirmar qual será o efeito desses acontecimentos sobre o eleitorado.

As reportagens nacionais e a intensificação do confronto entre Clécio e Furlan ocorreram depois de parte dos levantamentos eleitorais que vinham sendo utilizados para medir a disputa.

Por isso, as próximas pesquisas poderão oferecer o primeiro retrato de como o eleitor recebeu a entrada do tema das facções e da infiltração do crime organizado no debate eleitoral.

Até lá, qualquer conclusão sobre ganho ou perda eleitoral seria especulativa.

O que já pode ser constatado é que, na reta final da eleição para o Governo do Amapá, segurança pública deixou de ser apenas uma discussão sobre índices de criminalidade e passou a incluir uma questão institucional: a presença de pessoas apontadas como integrantes ou ligadas a organizações criminosas dentro do próprio poder público.

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