Hospital Municipal, suspeitas de infiltração de facções na Prefeitura e concursos públicos dominaram embate entre os dois principais candidatos; Furlan contestou ataques, enquanto governador cobrou respostas sobre investigações

O último debate entre os principais candidatos ao Governo do Amapá antes das eleições foi marcado por um confronto direto entre o governador Clécio Luís (União Brasil) e o ex-prefeito de Macapá Antônio Furlan (PSD). Realizado pela TV Amapá, afiliada da Rede Globo, o encontro colocou no centro da discussão alguns dos temas que mais pressionaram a antiga administração municipal durante a reta final da campanha.
Operações da Polícia Federal, suspeitas de desvios de recursos destinados ao Hospital Geral Municipal, investigações sobre pessoas apontadas como ligadas a facções criminosas que ocuparam cargos na Prefeitura e a realização de concursos públicos foram utilizados por Clécio para confrontar o adversário.
Furlan, por sua vez, procurou rebater as críticas e direcionar parte de suas intervenções para questionamentos sobre a administração estadual.
A intensidade do confronto ganhou importância adicional porque Furlan havia faltado a debates anteriores. Na segunda-feira (28), por exemplo, quatro candidatos participaram do encontro promovido pela NCTV Amapá, mas o ex-prefeito não compareceu.
Clécio cobra explicações sobre investigação do hospital
Um dos momentos mais duros ocorreu quando Clécio levou para o debate a Operação Paroxismo, investigação da Polícia Federal sobre possíveis irregularidades envolvendo a construção do Hospital Geral Municipal de Macapá.
O governador afirmou:
“Eu fui prefeito oito anos e governador três anos e meio. A Polícia Federal nunca me acordou. A verdade é que tem imagens com mochila de dinheiro, o seu carro particular, o seu motorista particular transportando esse dinheiro, e mais de R$ 3 milhões na conta das suas empresas.”
Clécio continuou cobrando explicações do adversário sobre as suspeitas envolvendo a obra:
“Eu realmente acredito que, num debate como esse, o senhor deveria explicar para a população sobre essa acusação de desvio. Porque é muito grave.”
As declarações feitas por Clécio durante o debate encontra respaldo em elementos de investigação já divulgados publicamente.
Em janeiro, a CNN Brasil revelou que a Polícia Federal identificou imagens e movimentações financeiras consideradas suspeitas no inquérito da Operação Paroxismo. A investigação apura possíveis fraudes relacionadas à construção do Hospital Municipal e registrou saques de R$ 400 mil, R$ 260 mil e R$ 130 mil em espécie, além de monitoramento envolvendo motorista e veículo ligado ao então prefeito.
Outros documentos da investigação divulgados posteriormente apontaram movimentações que, segundo a apuração policial, teriam alcançado empresas relacionadas à família Furlan. A investigação continua em andamento e as suspeitas não equivalem a condenação criminal.
Hospital de R$ 69 milhões virou um dos principais temas da campanha
O contrato investigado para a construção do Hospital Municipal foi firmado por aproximadamente R$ 69,3 milhões, com recursos provenientes de emendas parlamentares.
Segundo informações da investigação divulgadas pela imprensa, a PF apura indícios de direcionamento de licitação, desvio de recursos públicos e pagamento de propina relacionados ao projeto e à execução das obras.
A Operação Paroxismo chegou à residência de Furlan em setembro de 2025, quando ele ainda era prefeito de Macapá. A secretária municipal de Saúde e empresários ligados à obra também estiveram entre os alvos de busca e apreensão.
Furlan posteriormente foi afastado da Prefeitura por decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, e renunciou ao mandato.
Facções também entram no debate
Clécio também confrontou Furlan sobre outro assunto que ganhou repercussão nacional durante setembro: a contratação e nomeação, pela Prefeitura de Macapá, de pessoas apontadas pelas investigações como ligadas a organizações criminosas.
Depois de uma das respostas do adversário, o governador voltou ao tema:
“O candidato Furlan não respondeu a nenhuma pergunta que eu fiz, nenhuma. Debate é para responder.
Em seguida, acrescentou:
“Perguntei por que ele nomeou 14 faccionados, passando mensagem horrível para as famílias, para os jovens, dando a entender que o faccionado tem vez na gestão dele.”
O número mencionado por Clécio durante o debate — 14 — não coincide com o quantitativo que foi possível confirmar na investigação publicada pela CNN Brasil.
Segundo reportagem baseada em informações da Polícia Civil, ao menos 12 pessoas formalmente contratadas ou nomeadas pela Prefeitura de Macapá entre 2021 e 2026 eram apontadas como ligadas ao crime organizado. Uma fonte ligada à investigação informou à CNN que 11 seriam integrantes da Família Terror do Amapá (FTA) e uma teria ligação com o Comando Vermelho.
Furlan nega ligação com facções
Furlan nega relação com organizações criminosas. Em manifestação anterior sobre o caso, argumentou que as contratações e nomeações realizadas durante sua administração seguiram os procedimentos administrativos e que não seria possível ao chefe do Executivo conhecer a vida pessoal e eventuais antecedentes de todos os servidores municipais.
O tema tornou-se um dos principais campos de confronto político na reta final da eleição estadual.
“Concurso para escolher o sósia do Belo”
Outro momento de confronto ocorreu quando os candidatos discutiram concursos públicos e contratação de servidores.
Clécio ironizou a administração do adversário e acusou Furlan de não ter priorizado concursos para áreas essenciais. Na provocação mais contundente, afirmou que o concurso promovido pela gestão municipal teria servido para “escolher o sósia do cantor Belo”.
Confronto ocorre quando diferença nas pesquisas diminuiu
O debate aconteceu em um momento particularmente sensível da eleição.
A pesquisa Quaest divulgada em 24 de setembro mostrou Furlan com 53% das intenções de voto, contra 40% de Clécio. Na rodada anterior, realizada em agosto, Furlan tinha 55% e Clécio 35%.
Assim, a diferença nominal entre os dois caiu de 20 para 13 pontos percentuais entre as duas pesquisas. A Quaest ouviu 804 eleitores entre 20 e 23 de setembro e informou margem de erro de três pontos percentuais.
Situação no TSE acrescenta outra incerteza
Além das investigações que dominaram o confronto, Furlan chega aos últimos dias da campanha enfrentando outra questão: a situação de seu registro de candidatura no Tribunal Superior Eleitoral.
O ministro Dias Toffoli votou pelo indeferimento da candidatura. O julgamento, porém, foi interrompido depois de pedido de vista do ministro André Mendonça.
Assim, Furlan permanece na disputa enquanto o processo aguarda conclusão do TSE.
O assunto não se confunde com as investigações criminais discutidas no debate: trata-se de uma controvérsia eleitoral própria, relacionada às circunstâncias da renúncia de Furlan à Prefeitura.
Debate expôs principal linha de confronto da reta final
Na avaliação de analistas políticos ouvidos pelo ConectAmapá, que solicitaram anonimato, o debate explicitou uma diferença de estratégia entre os candidatos.
Segundo esses analistas, Clécio procurou transformar o confronto direto em uma cobrança pública por explicações sobre episódios investigados pelas autoridades, enquanto Furlan buscou evitar permanecer preso a essa agenda e direcionar o debate para críticas à administração estadual.
O que pode ser objetivamente constatado é que Clécio utilizou repetidamente seu tempo para colocar Furlan diante de temas que acompanharam o ex-prefeito durante toda a reta final: Hospital Municipal, Operação Paroxismo, movimentações financeiras investigadas pela PF e presença de pessoas apontadas como ligadas a facções na administração municipal.
Furlan teve finalmente, diante das câmeras e frente a frente com seu principal adversário, de lidar com assuntos que já haviam extrapolado o debate político local e chegado ao noticiário nacional.
A poucos dias da votação de 4 de outubro, o confronto da TV Amapá consolidou esses casos como parte central da discussão eleitoral.








